Chavismo irredutível | Heathcliff Cedeño

0

Por Heathcliff Cedeño

A vitória do Grande Pólo Patriótico (GPP) nas eleições parlamentares deste domingo (6), confirma a imobilidade desse bloco cultural e político subestimado desde seu surgimento. Os principais derrotados nesta disputa eleitoral foram aqueles que até agora não souberam interpretar o chavismo e a força histórica que o compõe.

Ao longo dos anos foi demonstrado que, contra todas as probabilidades, o Chavismo constitui uma realidade que sobreviveu aos piores cenários e ainda não perdeu a forma. E é precisamente essa forma composta de tempo e vicissitudes que gerou a crosta necessária para resistir à guerra, ao bloqueio e à “pressão máxima”.

Além dos fatos em si, é sempre justo lembrar que o chavismo não é um fenômeno conjuntural e pitoresco na história política mundial,  ou apenas mais um partido com prazo de validade. Embora tenha sido alimentado pelas correntes e organizações revolucionárias que o precedem, é autônomo como força política e vive de suas próprias glórias. Também construiu seu próprio épico sobre resistir e viver antes da guerra até a morte declarada pelo império americano.

Já se disse em algum momento que o chavismo e os partidos de esquerda se alimentam numa espécie de relação simbiótica em que cada um dá vida ao outro. No entanto, a história e os números mostram que a primeira, desde o seu surgimento, foi um pulmão da esquerda derrotada como sempre. Aquele que foi ancorado nas glórias de oitenta anos atrás.

E isso não significa que deva haver uma relação de paternalismo por parte do chavismo para com esses partidos, muito menos de sentir que lhe devem algo. Politicamente, ninguém deve nada a ninguém, muito menos o chavismo.

O que há de história e trajetória? Claro, é inegável, mas em mais de 80 anos nenhuma organização política teve força para arrastar e reunir todo o descontentamento e demandas históricas em uma massa social como o comandante Hugo Chávez fez e como o presidente Nicolás Maduro continua fazendo.

E não se trata de competição, mas de compreender o momento de maior submissão ao país e manter a unidade como forma de resistência. Para construir nossas próprias glórias e assumi-las com dignidade. A altivez de uma organização política torna-se arrogância quando tenta sujeitar o pírrico a uma suposta razão alinhada com a moralidade de ter permanecido fiel a alguns “princípios ancestrais”, supondo que o chavismo seja faminto por poder e clientelista. Para essa visão, já existe o direito e as cotas já se esgotaram.

Esta vitória é da maior importância porque pretendeu reinstitucionalizar um dos poderes do país, de onde foi solicitado o bloqueio de ativos o embargo dos nossos bens no exterior. Lembremos que a Assembleia Nacional nas mãos da direita entregou aos Estados Unidos um cheque em branco com a liberdade de fazer e se apropriar de nossos recursos, como de fato fizeram.

É por isso que o triunfo do Chavismo que construiu e continua a construir a sua epopéia não pode ser minimizado ou banalizado. Somos uma realidade incontornável e uma força irredutível que sobrevive às guerras e vicissitudes. Basta coletar os depoimentos dos últimos anos para encher várias páginas de atos heróicos em meio a apagões elétricos, bloqueio a importação de alimentos e outras matérias-primas vitais para o funcionamento da sociedade.

Embora os resultados mostrem por meio de números que a organização do chavismo ainda está intacta, existem também outros elementos que lhe conferem um caráter de imobilidade na sociedade e no mundo. Se a Venezuela tem uma voz forte e clara, é porque soube enfrentar as vicissitudes e os impérios, é até capaz de irradiar sua força para outras nações. De onde vem essa força?

No nível mais mitológico, mas tão verdadeiro e poderoso, podemos tomar como exemplo o encerramento da campanha de 4 de outubro de 2012, quando sob aquele aguaceiro eu abstraí um pouco da convulsão e euforia do momento e da massa social que estava na Avenida Bolívar, em Caracas, parecia derreter como um mesmo barro, a um ritmo único e numa mesma direção.

Talvez existam fenômenos semelhantes no mundo, mas essa metáfora nos ajuda a visualizar, mais ou menos, a imagem totêmica do chavismo construída com aquele barro ancestral que ninguém vê, mas que quem compartilha desse sentimento tem a certeza de que ele existe. Como um totem, estamos fixos no imaginário global, certos de que se uma das partes se quebrar, podemos nos reconstruir nos reunindo como pedra.

Na psicanálise existe a noção de que tudo o que se desprende do sujeito, sejam resíduos do corpo, suor, unhas, entre outros, torna-se um elemento repulsivo e inconscientemente o rejeitamos, se torna abjeto. Também podemos usar esta metáfora para designar tudo o que emerge do corpo social representado no chavismo. Tudo o que se separa se toma exatamente essa característica.

***

Originalmente em Mision Verdad

Chavismo irredutível | Heathcliff Cedeño 1

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui