Como Rússia e Paquistão se apoiam mutuamente em relação ao Afeganistão | Andrew Korybko

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Por Andrew Korybko

As autoridades russas e paquistanesas estão se “paquerando” no Afeganistão, como evidenciado por declarações recentes. Zamir Kabulov, enviado especial da presidência russa para o Afeganistão, disse na semana passada que “o Paquistão, juntamente com a Rússia e quase todos os países vizinhos, está interessado em que o Afeganistão volte à normalidade e se torne uma ponte comercial e econômica confiável ligando o Paquistão e a Eurásia”. Ele então acrescentou que “às vezes parece que quando aqueles em Cabul que supostamente deveriam proteger suas terras do Talibã não o fazem, começam a procurar alguém para culpar e sempre consideram o Paquistão como um bode expiatório adequado”.

Vários dias depois, o The Express Tribune citou suas fontes para informar que o Conselheiro de Segurança Nacional paquistanês Moeed Yusuf e o Diretor Geral do ISI, Tenente-General Faiz Hameed, disseram ao Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA Jake Sullivan que a Rússia também está interessada em apoiar o processo de paz afegão e evitar que a guerra civil em curso naquele país se agrave. Nesse mesmo dia, a TASS – seu mais conceituado órgão de mídia de língua inglesa, que apenas relata fatos e não faz quaisquer interpretações como a RT e Sputnik – publicou uma reportagem sobre o relatório do The Express Tribune, a fim de conscientizar sua audiência sobre este gesto amigável.

Em conjunto, estes três acontecimentos são dignos de nota no sentido de mostrar o quanto a Rússia e o Paquistão estão apoiando politicamente um ao outro no Afeganistão. A Grande Potência eurasiática está hoje criticando oficialmente a tendência de Cabul de explorar o Paquistão como um bode expiatório no Afeganistão. Ao mesmo tempo, Islamabad está aparentemente assegurando a Washington as intenções pacíficas de seu rival russo naquele mesmo país. Isto representa um marco na aproximação russo-paquistanesa, pois é a primeira vez que ambos os países apóiam os interesses dos outros no Afeganistão, diante das críticas de terceiros.

É verdade que Cabul usa regularmente o Paquistão como bode expiatório, da mesma forma que Washington afirmou anteriormente que a Rússia tem motivos outros no Afeganistão (por exemplo, o escândalo de fake news Rússia-Talibã no verão passado). Dito isto, poucos poderiam esperar que a Rússia defendesse oficialmente o Paquistão ao ser o bode expiatório de Cabul, assim como poucos poderiam esperar que o Paquistão defendesse a Rússia das suspeitas dos EUA sobre suas intenções. Isto só mostra quão rapidamente as relações russo-paquistanesas estão melhorando nos últimos anos, aceleradas como estão por seus interesses comuns no Afeganistão.

Os observadores também não devem ignorar a importância do reporte da TASS no Express Tribune sobre como dois dos principais oficiais de segurança paquistaneses defenderam a Rússia durante sua última viagem aos EUA. O canal russo financiado pelo poder público ficou provavelmente tão impressionado que quis compartilhar esta boa notícia com seu público, a fim de informá-lo de quão longe as relações russo-paquistanesas chegaram em tão pouco tempo. Sua matéria pode contribuir muito para reformular positivamente as percepções sobre o Paquistão e ajudar outros a ir além dos estereótipos antiquados da velha era da Guerra Fria sobre aquele país do Sul da Ásia.

A conclusão de tudo isso é que é hora de mais especialistas prestarem atenção às relações russo-paquistanesas, especialmente ao impacto positivo que tiveram no processo de paz afegão. Muitas pessoas influentes têm ignorado isso por muito tempo, em detrimento da exatidão de suas análises. Seu trabalho permanecerá sempre incompleto sem incorporar esta importante dimensão diplomática na percepção que compartilham. É impossível para qualquer pessoa de importância ignorar mais esta relação se tiver integridade profissional. No mínimo, a defesa mútua da Rússia e do Paquistão diante das críticas de terceiros é digna de notícia.

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Andrew Korybko é Analista político norte-americano radicado na Rússia. Especialista no relacionamento entre a estratégia dos EUA na Afro-Eurásia; a visão global da conectividade da Nova Rota da Seda e em Guerra Híbrida

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