Da Rússia, com amor (Talibã) | Pepe Escobar

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Por Pepe Escobar

Diante das altas expectativas, uma banda Talibã de cinco integrantes finalmente tocou em Moscou. Mas a estrela do show, previsivelmente, foi o Mick Jagger da geopolítica: Sergei Lavrov, Ministro das Relações Exteriores da Rússia.

Desde o início, Lavrov deu o tom para as negociações no programa de Moscou, que ostenta o mérito de “unir o Afeganistão com todos os países vizinhos”. Sem perder o ritmo, ele se dirigiu ao elefante americano na sala – ou a ausência dele: “Nossos colegas americanos escolheram não participar”, na verdade “pela segunda vez, evitando uma reunião prolongada em formato troika”.

Washington invocou nebulosas “razões logísticas” para sua ausência.

A troika, que costumava se reunir em Doha, consiste da Rússia, dos EUA, da China e do Paquistão. A troika estendida em Moscou esta semana apresentou a Rússia, China, Índia, Irã, Paquistão e os cinco “-estãos” da Ásia Central. Isso, em essência, fez dela uma reunião da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), no mais alto nível.

A apresentação de Lavrov ampliou essencialmente os temas destacados pela recente Declaração da SCO de Dushanbe: o Afeganistão deveria ser um “Estado independente, neutro, unido, democrático e pacífico, livre de terrorismo, guerra e drogas” e ter um governo inclusivo “com representantes de todos os grupos étnicos, religiosos e políticos”.

A declaração conjunta emitida após a reunião pode não ter sido exatamente um thriller. Mas então, logo no final, o parágrafo 9 oferece a verdadeira bomba:

“As partes propuseram lançar uma iniciativa coletiva para convocar uma ampla conferência internacional de doadores sob os auspícios das Nações Unidas o mais rápido possível, certamente com o entendimento de que o fardo central da reconstrução e desenvolvimento econômico e financeiro pós-conflito do Afeganistão deve ser assistido por atores baseados com tropas que estiveram no país durante os últimos 20 anos”.

O Ocidente argumentará que uma espécie de conferência de doadores já aconteceu: essa foi a cúpula especial do G-20 via videoconferência, no início de outubro, que incluiu o Secretário Geral da ONU, Antonio Guterres. Então, na semana passada, muito se falou sobre uma promessa europeia de 1 bilhão de euros em ajuda humanitária, que, tal como está, permanece extremamente vaga, sem detalhes concretos.

No G-20, os diplomatas europeus admitiram, à portas fechadas, que a principal fissura estava entre o Ocidente “querer dizer ao Talibã como administrar seu país e como tratar as mulheres” como condições necessárias em troca de alguma ajuda, em comparação com a Rússia e a China seguindo seus compromissos de não-interferência em matéria de política externa.

Os vizinhos do Afeganistão, Irã e Paquistão, não foram convidados para o G-20, e isso é absurdo. É uma questão em aberto se o G-20 oficial em Roma, em 30-31 de outubro, também abordará o Afeganistão junto com os temas principais: mudança climática, Covid-19, e uma recuperação econômica global ainda indefinida.

Nada de EUA na Ásia Central

Portanto, o programa de Moscou, como Lavrov devidamente enfatizou, continua sendo o fórum obrigatório quando se trata de abordar os sérios desafios do Afeganistão.

Agora chegamos ao ponto crucial. A noção de que a reconstrução econômica e financeira do Afeganistão deve ser conduzida principalmente pelo antigo ocupante imperial e seus lacaios da OTAN – curiosamente chamados de “atores baseados com tropas” – não é uma novidade.

Os EUA não fazem a construção nacional – como todo o Sul Global sabe por experiência. Mesmo o desbloqueio dos quase 10 bilhões de dólares do Banco Central Afegão confiscados por Washington será uma dura tarefa. O FMI previu que sem ajuda estrangeira a economia afegã pode encolher em 30%.

O Talibã, liderado pelo segundo Primeiro-Ministro Abdul Salam Hanafi, tentou dar um ar de bravura. Hanafi argumentou que o atual governo interino já é inclusivo: afinal, mais de 500 mil funcionários da antiga administração mantiveram seus empregos.

Mas mais uma vez, muitos detalhes preciosos foram perdidos na tradução, e faltava ao Talibã uma figura de vanguarda capaz de capturar a imaginação euro-asiática. O mistério persiste: onde está Mullah Baradar?

Baradar, que liderou o escritório político em Doha, foi amplamente apontado como o rosto do Talibã para o mundo exterior após a tomada do poder pelo grupo em Cabul, em 15 de agosto. Ele tem sido efetivamente marginalizado.

O plano de fundo do programa de Moscou, no entanto, oferece algumas sugestões. Não houve vazamentos – mas os diplomatas insinuaram que foi tenso. A Rússia teve que desempenhar um papel de mediador cuidadoso, especialmente quando se tratava de falar sobre reclamações da Índia e preocupações do Tadjiquistão.

Todos sabiam que a Rússia – e todos os outros atores – não reconheceria o Talibã como o novo governo afegão, pelo menos ainda não. A questão não é essa. A prioridade mais uma vez teve que ser colocada para a liderança do Talibã: nenhum porto seguro para qualquer empreendimento jihadi que possa atacar “países terceiros, especialmente os vizinhos”, como salientou Lavrov.

Quando o Presidente Putin deixa casualmente de registrar que existem pelo menos dois mil jihadis do ISIS-K no norte do Afeganistão, isto significa que a inteligência russa sabe exatamente onde eles estão, e têm a capacidade de destruí-los, caso o Talibã sinalize que seja necessário.

Agora compare com a OTAN – recém-saída de sua humilhação afegã – realizando uma cúpula de ministros da Defesa em Bruxelas nesta quinta e sexta-feira para basicamente dar uma palestra ao Talibã. O secretário-geral da OTAN, o espetacularmente medíocre Jens Stoltenberg, insiste que “os Talibãs são responsáveis perante a OTAN” pela abordagem do terrorismo e dos direitos humanos.

Como se isto não fosse suficientemente inconseqüente, o que realmente importa – como pano de fundo do programa de Moscou – é como os russos recusaram categoricamente um pedido dos EUA para implantar seu aparato de inteligência em algum lugar da Ásia Central, em tese, para monitorar o Afeganistão.

Primeiro eles queriam uma base militar “temporária” no Uzbequistão ou no Tadjiquistão: Putin e Biden realmente discutiram isso na cúpula de Genebra. Putin contra-ofertou, em tom de brincadeira, receber os americanos em uma base russa, provavelmente no Tadjiquistão. Moscou se divertiu durante algumas semanas só para chegar a uma conclusão inamovível: não há lugar para qualquer “contra-terrorismo” dos EUA na Ásia Central.

Para resumir, Lavrov em Moscou foi extremamente conciliatório. Enfatizou como os participantes do programa de Moscou planejam usar todas as oportunidades para “incluir” o Talibã através de vários órgãos multilaterais, tais como a ONU, a SCO – onde o Afeganistão é uma nação observadora – e crucialmente, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO), que é uma aliança militar.

Tantas camadas de ‘inclusividade’ acenam. A ajuda humanitária de nações como o Paquistão, a Rússia e a China está a caminho. A última coisa que o Talibã precisa é ser responsabilizado pela morte cerebral da OTAN.

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Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

Originalmente em The Cradle

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