Elon Musk não é um Outsider, mas um grande empreiteiro do Pentágono | Alan MacLeod

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Por Alan MacLeod

A proposta de Elon Musk de assumir o controle do Twitter tem prejudicado muitos analistas profissionais. “Musk é o líder errado para a missão vital do Twitter”, dizia uma manchete da Bloomberg. A rede também insistiu: “Nada no histórico do CEO da Tesla sugere que ele será um administrador cuidadoso de uma importante propriedade de mídia”. “Elon Musk é a última pessoa que deveria assumir o Twitter”, escreveu Max Boot no The Washington Post, explicando que “Ele parece acreditar que na mídia social vale tudo. Para que a democracia sobreviva, precisamos de mais moderação de conteúdo, não menos”. A ironia no fato dos veículos de Michael Bloomberg e Jeff Bezos alertando sobre os perigos de permitir que um oligarca bilionário controle nossa mídia não foi mencionada.

Além disso, uma série de celebridades deixou publicamente a plataforma em protesto contra a proposta de compra de US$ 44 bilhões. Isto só parecia confirmar para muitos indivíduos da livre expressão que o bilionário sul-africano era um outsider renegado em uma missão para salvar a internet do controle autoritário da elite (apesar do fato de que ele está pedindo dinheiro emprestado aos governos do Qatar e da Arábia Saudita para fazê-lo).

Musk cultivou deliberadamente esta imagem de si mesmo: uma figura real de um Tony Stark que pensa por si mesmo e não faz parte da ordem estabelecida. Mas por trás desta fachada cuidadosamente construída, Musk está intimamente ligado ao estado de segurança nacional dos EUA, servindo como um de seus mais importantes parceiros comerciais. Elon, em resumo, não é uma ameaça à poderosa e enraizada elite: ele é um deles.

À UCRÂNIA, COM AMOR

Musk, cuja fortuna estimada em 230 bilhões de dólares é mais do que o dobro do produto interno bruto da Ucrânia, conseguiu uma grande quantidade de publicidade positiva por doar milhares de terminais Starlink para o país, ajudando seu povo a voltar a estar online depois de ficar sem internet em grande parte do país. A Starlink é um serviço de internet que permite àqueles com terminais conectar-se a um dos mais de 2.400 pequenos satélites em órbita terrestre baixa. Muitos destes satélites foram lançados pela empresa de Musk, a SpaceX Technologies.

Entretanto, logo se revelou que há muito mais por trás disso do que se pode imaginar com a extraordinária “doação” de Musk. De fato, o governo dos EUA pagou tranquilamente à SpaceX os melhores dólares para enviar seu material para a zona de guerra. A USAID – uma agência governamental anti-insurgência que tem funcionado regularmente como uma organização de mudança de regime – é conhecida por ter colocado o dinheiro para comprar e entregar pelo menos 1.330 dos terminais.

A Starlink não é uma solução de mercado de massa. Cada terminal – que é, de fato, uma antena parabólica minúscula e portátil – tem um alcance marcadamente limitado, e é útil apenas em situações hiperlocais. Mykhailo Fedorov, Ministro da Transformação Digital da Ucrânia, estimou que os 10.000 terminais Starlink estavam permitindo que cerca de 150.000 pessoas ficassem on-line.

Um número tão pequeno de pessoas usando os dispositivos é de se estranhar. Quem é suficientemente importante para receber tal dispositivo? Certamente apenas indivíduos de alto nível, tais como espiões ou operadores militares. Que os Starlinks estão servindo um propósito militar está agora mais do que claro. De fato, em questão de semanas, o Starlink tornou-se uma pedra angular do exército ucraniano, permitindo que ele continue a atingir as forças russas através de drones e outras máquinas de alta tecnologia dependentes de uma conexão à Internet. Um oficial disse ao The Times de Londres que ele “deve” usar Starlink para alvejar as forças inimigas através de imagens térmicas.

“O Starlink foi o que mudou a guerra a favor da Ucrânia”. A Rússia se esforçou para explodir todos os nossos comunicadores. Agora eles não podem. O Starlink trabalha sob fogo de Katyusha, sob fogo de artilharia. Funciona até em Mariupol”, disse um soldado ucraniano ao jornalista David Patrikarakos.

A referência a Mariupol alude ao infame grupo nazista, o Batalhão Azov, que também tem usado a tecnologia de Musk. Mesmo em uma caverna subterrânea sob uma siderúrgica. Em 2015, o Congresso tentou acrescentar uma diretiva à ajuda militar dos EUA à Ucrânia estipulando que nenhum apoio poderia chegar ao Azov devido a sua ideologia política. Essa emenda foi posteriormente removida a pedido do Pentágono.

Dave Tremper, Diretor de Guerra Eletrônica do Pentágono, rasgou elogios ao SpaceX. “A forma como eles fizeram isso [mantendo as forças ucranianas online] me encheu de água os olhos”, disse ele, acrescentando que no futuro o exército dos EUA “precisa ser capaz de ter essa agilidade”.

ROCKETMAN

Tal declaração é destinada a chamar a atenção dos chefes da SpaceX, que há muito se beneficiam de seu lucrativo relacionamento com as forças armadas americanas. A SpaceX depende em grande parte de contratos governamentais, não havendo quase nenhuma demanda civil para muitos de seus produtos, especialmente seus lançamentos de foguetes.

A empresa de Musk recebeu bilhões de dólares em contratos para o lançamento de satélites para espionagem, guerra com drones e outros usos militares. Por exemplo, em 2018, a SpaceX foi escolhida para lançar em órbita um sistema GPS da Lockheed Martin no valor de 500 milhões de dólares. Embora os porta-vozes da Força Aérea tenham aproveitado os benefícios civis do lançamento, como o aumento da precisão dos dispositivos GPS, é claro que estes equipamentos desempenham um papel fundamental na vigilância global e nas guerras com drones em andamento. A SpaceX também ganhou contratos com a Força Aérea para colocar seu satélite de comando em órbita, com a Agência de Desenvolvimento Espacial para enviar dispositivos de rastreamento ao espaço e com o Escritório Nacional de Reconhecimento (NRO) para lançar seus satélites espiões. Estes satélites são utilizados por todas as “cinco grandes” agências de vigilância, incluindo a CIA e a NSA.

Assim, no mundo de hoje, onde tanta coleta de informações e aquisição de alvos é feita via tecnologia de satélite, a SpaceX se tornou tão importante para a máquina de guerra dos EUA quanto as empresas mais conhecidas como a Lockheed Martin e a Boeing. Sem a empresa de Musk, os Estados Unidos não seriam capazes de realizar um programa tão invasivo de espionagem e de guerra com drones em todo o mundo. De fato, a China está cada vez mais desconfiada deste poder e está sendo aconselhada a desenvolver tecnologias anti-satélite para enfrentar o ‘olho que tudo vê’ da SpaceX. Contudo, o próprio Musk continua a se beneficiar de uma percepção geral de que ele não faz parte do sistema.

Desde suas origens em 2002, a SpaceX sempre esteve extremamente próxima do estado de segurança nacional, particularmente da CIA. Talvez o elo mais crucial seja Mike Griffin, que, na época, era presidente e COO (Diretor de operações) da In-Q-Tel, uma empresa de capital de risco financiada pela CIA que procura nutrir e patrocinar novas empresas que trabalharão com a agência e outros serviços de segurança, equipando-as com tecnologia de ponta. O “Q” em seu nome é uma referência ao “Q” da série James Bond – um inventor criativo que fornece ao espião o que há de mais moderno em tecnologia futurista.

Griffin estava com Musk praticamente desde o primeiro dia, o acompanhando à Rússia em fevereiro de 2002, onde tentaram comprar mísseis balísticos intercontinentais com preço reduzido para iniciar os negócios de Musk. Elon sentiu que ele poderia superar substancialmente os adversários usando material de segunda mão e componentes de estoque para os lançamentos. A tentativa fracassou, mas a viagem cimentou uma parceria duradoura entre a dupla, com Griffin indo para a guerra por Musk, apoiando-o consistentemente como um potencial “Henry Ford” da indústria de foguetes. Três anos mais tarde, Griffin se tornaria chefe da NASA e mais tarde ocuparia um cargo sênior no Departamento de Defesa.

Enquanto estava na NASA, Griffin trouxe Musk para reuniões e garantiu a grande chance da SpaceX. Em 2006, a NASA concedeu à empresa um contrato de desenvolvimento de foguetes no valor de US$ 396 milhões – uma “aposta” notável nas palavras de Griffin, especialmente porque nunca havia lançado um foguete antes. Como disse a National Geographic, a SpaceX, “nunca teria chegado aonde está hoje sem a NASA”. E Griffin foi essencial para este desenvolvimento. Ainda assim, em 2008, a SpaceX estava novamente em dificuldades, com Musk incapaz de cumprir com a folha de pagamento. A empresa foi salva por um inesperado contrato de $1,6 bilhões da NASA para serviços de carga comercial. Assim, desde seus primeiros dias, a SpaceX foi nutrida por agências governamentais que viam a empresa como uma fonte potencialmente importante de tecnologia.

Bombardeando Marte & Apoiando Golpes

Como Henry Ford, Musk entrou no ramo automobilístico, comprando a Tesla Motors em 2004. E também, como Henry Ford, ele compartilhou algumas opiniões bastante controversas. Em 2019, por exemplo, ele sugeriu que a vaporização das calotas de gelo de Marte através de uma série de explosões nucleares poderia aquecer o planeta o suficiente para suportar a vida humana. Se isto fosse feito, nem sequer seria seu pior crime contra o espaço. Durante uma manobra publicitária de 2018, ele explodiu um Tesla no espaço exterior usando um foguete SpaceX. Entretanto, não esterilizou o veículo antes de fazê-lo, o que significa que estava coberto de bactérias terrestres – microorganismos que provavelmente serão fatais para qualquer vida alienígena que encontrem. Em essência, o carro é uma arma biológica que pode acabar com a vida em qualquer planeta que encontre.

Musk também chamou a atenção quando pareceu admitir que trabalhou com o governo dos EUA para derrubar o presidente boliviano Evo Morales em 2019. A Bolívia abriga as maiores reservas mundiais de lítio fácil de extrair, um elemento crucial na produção de baterias para veículos elétricos. Morales havia se recusado a abrir o país a corporações estrangeiras ansiosas por explorar a Bolívia para obter lucros. Ao invés disso, ele propôs desenvolver tecnologia soberana para manter tanto os empregos quanto os lucros dentro do país. Evo foi derrubado por um golpe de extrema-direita apoiado pelos Estados Unidos em novembro de 2019. O novo governo rapidamente convidou Musk para conversações. Quando perguntado no Twitter se ele estava envolvido na destituição de Morales, Musk respondeu: “Golpearemos quem quisermos! Lidem com isso”.

O sul-africano tem uma longa história de trollagem e de declarações incendiárias, por isso esta “confissão” pode não ser tão sólida quanto parece. No entanto, qualquer esperança de Musk lucrar com a Bolívia foi refreada depois que o partido de Morales voltou ao poder em uma vitória estrondosa um ano depois.

O HOMEM MAIS RICO DO MUNDO, FINANCIADO PELOS CONTRIBUINTES

Além dos bilhões em contratos do governo, as empresas Musk’s também receberam números semelhantes em subsídios e incentivos públicos. O carro-chefe entre estes é a Tesla, que se beneficia muito das complexas regras internacionais em torno da produção de veículos elétricos. Em um esforço para reduzir as emissões de carbono, governos de todo o mundo introduziram um sistema de créditos para veículos verdes, pelo qual uma certa porcentagem da produção de cada fabricante deve ser de veículos com emissão zero. A Tesla só produz carros elétricos, e assim facilmente atende a marca.

Entretanto, o sistema também permite que a Tesla venda seus créditos excedentes a fabricantes que não possam cumprir essas quotas. Em um mercado competitivo onde cada fabricante precisa atingir certas metas, estes créditos valem seu peso em ouro, e a Tesla tem um lucro líquido de bilhões de dólares a cada ano. Por exemplo, só entre 2019 e 2021, a Stellantis, proprietária das marcas Chrysler, Fiat, Citroën e Peugeot, desembolsou quase US$ 2,5 bilhões para adquirir os créditos verdes da Tesla nos Estados Unidos e na Europa.

Este sistema bizarro e autodestrutivo vai de alguma forma explicar por que a Tesla tem mais valor de mercado do que a Toyota, Volkswagen, Mercedes-Benz, BMW, GM, Ford, Honda, Hyundai, Kia, e Volvo juntas, apesar de não ser nem mesmo um fabricante de carros top-15 em termos de unidades vendidas.

A empresa de Musk também recebeu apoio significativo do governo em seus estágios iniciais, recebendo um empréstimo de US$ 465 milhões a juros baixos do Departamento de Energia em 2010, em um momento em que Tesla estava em apuros e com seu futuro em dúvida.

Como muitas empresas gigantes, a Tesla é capaz de jogar os estados uns contra os outros, cada local faminto por trabalho concorrendo entre si para dar à corporação o máximo possível de dinheiro grátis e incentivos fiscais. Em 2020, por exemplo, Austin deu à Tesla mais de US$ 60 milhões em incentivos fiscais para construir uma fábrica de caminhões por lá.

Isto, entretanto, foi café pequeno em comparação com alguns dos acordos que Musk assinou. O Estado de Nova Iorque entregou a Musk mais de $750 milhões, incluindo $350 milhões em dinheiro, em troca da construção de uma fábrica solar fora de Buffalo – uma fábrica que o Musk estava destinado a construir em algum lugar nos Estados Unidos. Enquanto isso, Nevada assinou um acordo com a Tesla para construir sua Gigafactory perto de Reno. Os incentivos incluídos significam que o fabricante de automóveis poderia arrecadar quase US$ 1,3 bilhão em benefícios fiscais e créditos fiscais. Entre 2015 e 2018, o próprio Musk pagou menos de US$ 70.000 em impostos federais.

Portanto, enquanto o empresário de 50 anos de idade se apresenta como um gênio da ciência dissidente – o que lhe rendeu legiões de fãs ao redor do mundo – uma inspeção mais detalhada de sua carreira mostra que ele ganhou sua fortuna de uma maneira muito mais ortodoxa. Primeiro, por ter nascido rico, depois, por ter se tornado um bilionário ponto-com, e finalmente, como tantos outros, por ter se alimentado da enorme cocheira do governo.

Talvez mais seriamente, porém, a proximidade da SpaceX tanto com os militares quanto com o estado de segurança nacional o marca como uma peça chave na máquina do império americano, permitindo que Washington espione, bombardeie ou golpe quem quiser.

É por esta razão que grande parte da histeria, tanto positiva quanto negativa, sobre a contínua compra de Musk pelo Twitter é equivocada. Elon Musk não vai salvar nem destruir o Twitter porque ele não é um rebelde cruzado que desafia o establishment: é parte integrante do mesmo.

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Alan Macleod é jornalista da MintPress News e escreveu livros como “Twenty Years of Fake News and Misreporting” e “Propaganda in the Information Age: Still Manufacturing Consent”

Originalmente em MintPress News

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