EUA: US$ 6 trilhões para “reconquistar a hegemonia” na região | Aram Aharonian

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Por Aram Aharonian

Publicado originalmente em 31 de maio de 2021

O presidente americano Joe Biden declarou seu objetivo de recuperar a liderança internacional, revertendo o isolacionismo de seu predecessor Donald Trump, restaurando alianças internacionais e fortalecendo a diplomacia para a qual ele forneceu um orçamento federal de seis trilhões de dólares, aumentando os investimentos em infra-estrutura, educação e combate à mudança climática.

O governo aumentou substancialmente os gastos com diplomacia, assistência econômica e de segurança, em itens destinados a vários países, incluindo México e América Central, fornecendo ao Departamento de Estado e à Agência para o Desenvolvimento Internacional (USAID) 58.5 bilhões de dólares, um aumento de mais de 10% do orçamento atual e 50% mais do que o orçamento do Trump para o ano fiscal de 2022. Os fundos propostos incluem US$ 861 milhões em assistência aos países da América Central para enfrentar as causas originárias da migração para a fronteira dos EUA, o que seria a primeira parcela do total de quatro bilhões em quatro anos dedicada a esse esforço.

EUA: US$ 6 trilhões para “reconquistar a hegemonia” na região

Os fundos propostos sob o chamado Fundo de Apoio Econômico (ESF) para o Hemisfério Ocidental totalizam US$ 455,3 milhões, incluindo recursos para a Venezuela para “fortalecer vários atores democráticos para se organizar internamente, ampliar a coalizão democrática … defender os princípios democráticos e promover o bem-estar dos venezuelanos”. Amém.

A proposta enfatiza o confronto com o que ela chama de influência maligna de China e Rússia. De fato, ele inclui algo chamado Fundo de Combate à Influência Maligna da RPC (a República Popular da China).

Parte do esforço contra essas influências malignas é feito através do International Broadcasting Bureau – uma agência federal independente cuja missão é informar, comunicar e conectar pessoas em todo o mundo em apoio à liberdade e à democracia. Ela é composta por duas entidades: Voice of America e o Office for Cuba Broadcasting, e quatro agências não-federais, incluindo a Radio Free Europe.

O Secretário de Estado Anhtony Blinken disse que esses fundos beneficiarão os americanos, melhorando as condições de saúde diante da pandemia, abordar a mudança climática, ajudando a responder às causas fundamentais da migração ilegal da América Central, mas acima de tudo reafirmar a liderança americana na promoção da democracia e no combate ao autoritarismo crescente.

Ele acrescentou que os fundos são “para proporcionar liderança humanitária internacional e enfrentar a concorrência direta de nações que não compartilham nossos valores de liberdade, democracia e respeito aos direitos humanos. Nossa segurança nacional depende não apenas do poder de nossas forças armadas, mas também de nossa capacidade de conduzir eficazmente a diplomacia e o desenvolvimento”, disse Blinken.

A iniciativa foi em parte proposta pelo governo do presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador, com quem a administração Biden está discutindo formas de colaborar nesta iniciativa – um tópico central da próxima visita da vice-presidente Kamala Harris ao México.

Os fundos para o México e outras partes do Hemisfério Ocidental são administrados através de vários programas e incluem os de combate ao narcotráfico, treinamento militar, iniciativas de segurança, incluindo migração, e para enfrentar ameaças de forças malignas, que não foram identificadas, mas envolvem a China, Rússia, Irã, Cuba e Venezuela, entre outros países “malignos”.

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De acordo com as propostas, US$ 570,4 milhões serão destinados ao combate ao tráfico de drogas, ao crime organizado e ao fortalecimento dos sistemas de justiça criminal, incluindo o combate às drogas sintéticas fabricadas no México. Desse total, US$ 64 milhões são propostos para o México sob o Escritório de Controle e Aplicação da Lei Internacional de Narcóticos do Departamento de Estado (INCLE) até o ano fiscal de 2022 (em 2020 eram US$ 100 milhões).

Um total de US$ 14,1 milhões irá para a América Latina, através do Programa Internacional de Educação e Treinamento Militar dedicado ao fortalecimento de alianças e coalizões militares internacionais essenciais para os objetivos de segurança dos EUA.

México, Colômbia, Panamá e o Triângulo do Norte da América Central (Honduras, Guatemala, El Salvador) são os focos prioritários deste plano Biden-Harris. A Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional propõe US$660 milhões para o Hemisfério Ocidental. A proposta de gastos do Departamento de Estado também inclui uma contribuição de US$ 300 milhões para o National Endowment for Democracy (NED), parte do qual é distribuída para agentes pró-EUA na América Latina.

Mas para impedir que a Venezuela se estabilize e continue a desenvolver sua “diplomacia de paz com justiça social”, em alianças com a China e a Rússia, surgem lobbies financiados por Washington, como a Anistia Internacional, que protestou porque o governo argentino decidiu retirar-se da queixa apresentada perante o Tribunal Penal Internacional contra o presidente constitucional venezuelano Nicolas Maduro pelos governos conservadores, autoproclamados como “defensores dos direitos humanos”.

As sanções impostas pelos Estados Unidos, em nome da democracia, causaram a perda de mais de 116 bilhões de dólares para a Venezuela. Em entrevista à Bloomberg, Cynthia Arnson, diretora do Programa Latino-Americano no Wilson Center em Washington, disse que “a administração Biden se sentia incomodada com a severidade da política de sanções” sobre a Venezuela. Apenas um reconhecimento das centenas de milhões de dólares investidos.

Os Estados Unidos já avançaram no desmembramento das organizações interamericanas de integração e cooperação, como a União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade dos Estados da América Latina e Caribe (Celac). Este choque também é evidente no Mercosul, onde forças conservadoras estão pressionando pela ratificação do acordo de livre comércio com a Europa, a flexibilização do bloco que significaria seu desaparecimento, e a ratificação da exclusão da Venezuela.

Os fundos administrados por Washington também têm relação com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), cujo presidente, o estadunidense Mauricio Claver-Carone, em sua primeira viagem à América Latina, prometeu ao novo presidente do Equador, o ex-banqueiro Guillermo Lasso, mais de um bilhão de dólares este ano.

O capitalismo tenta se reajustar

Esta nova etapa do governo democrata dos Estados Unidos de reajuste do capitalismo quer reformular o conflito de classes no mundo, com uma política de pinça: esmagar a dissidência ou cooptá-la na velha teoria da cenoura e do porrete. O 1% da humanidade que dirige o mundo está se reajustando, no ritmo das novas tecnologias, as técnicas de controle e repressão.

Para estender sua hegemonia e controle em todo o mundo, Washington insufla nova dinâmica em sua vasta rede diplomático-consular, os centros de inteligência, as bases militares em alto mar localizadas nos cinco continentes, os escritórios de ligação que atuam dentro das embaixadas, os think tanks, as agências de segurança federal que controlam as políticas e eventuais ameaças à “segurança dos EUA” apesar de estarem a milhares de quilômetros de distância, as fundações e ONGs que, em resumo, são algumas ferramentas além do emprego militar.

A revista norte-americana Newsweek revelou que durante a última década – durante os governos de Barack Obama e Trump – o Pentágono construiu um exército paralelo de 60 mil civis e militares (principalmente forças especiais e contratistas), que operam clandestinamente e realizam seu principal trabalho nos países da América Latina, um dos grandes cenários de guerras de um novo tipo, especialmente revoltas contra conflitos de classes.

É um exército paralelo de especialistas em inteligência, lingüistas, especialistas em guerrilha digital, hacking e manipulação de mídia, com um orçamento de 900 milhões de dólares para concursos e contratos adjudicados a mais de uma centena de empresas privadas que apóiam sua atividade tanto em termos militares como midiáticos, para campanhas mercenárias contra os governos que desejam ver subjugados.

Não se deve esquecer que o orçamento militar dos EUA representa 39% de todo o orçamento mundial e no ano passado atingiu 778 bilhões de dólares, três vezes o da China (252 bilhões de dólares).

Hoje parece que há uma mudança de máscaras: os militares do Comando Sul estão em segundo lugar, atrás dos políticos do Departamento de Estado, para impor as mesmas políticas.

Na América Latina e no Caribe, a pandemia se somou à crise estrutural do capitalismo, deixando uma tsunami de fome e desemprego em massa. Enquanto isso, na Colômbia, Paraguai, Chile, por exemplo, os desaparecimentos forçados de jovens manifestantes, a tortura, o uso de paramilitares disfarçados de civis, retornam, diante do silêncio dos governos, dos meios de comunicação de massa e também das organizações internacionais.

O pretexto da “luta contra o terrorismo” tem sido útil para manter o festival perverso das “sanções”. Nada de novo: há continuidade com as políticas do ultramontano Donald Trump (e antes de Barack Obama), incluindo 243 medidas coercivas impostas a Cuba, que sofre há quase 60 anos um bloqueio econômico unilateral de Washington. Democratas e republicanos passam, o bloqueio permanece e as perdas cubanas totalizam 144 bilhões de dólares.

Há 19 anos desde então, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprova uma resolução condenando e pedindo o fim do bloqueio dos Estados Unidos contra Cuba. A votação será repetida em 23 de junho e certamente Biden irá impor sua doutrina do fato consumado, ou seja, anular as decisões da ONU para continuar com sua política de destruição dos povos que não se submetem a seus interesses, sejam eles Cuba, Venezuela ou Palestina.

“Chumbo, chumbo, para defender a gente de bem”, escreve a direita e a ultra-direita na Colômbia, incitando os massacres de jovens manifestantes que colocam suas vidas em risco em busca de um futuro que hoje lhes é negado, a quem definem como “terroristas” porque impedem o livre fluxo de seus lucros (não da economia) com suas barricadas.

No Paraguai, o assassinato de duas meninas foi apresentado como uma ação anti-terrorista contra a guerrilha do Exército Popular, e onde uma menina de quinze anos, Lichita, filha de presos políticos, ainda está desaparecida, após uma repressão militar. No Peru, com o pretexto do “retorno do terrorismo do Sendero Luminoso”, estão organizando massacres e tentando compactar toda a ala direita e impedir a vitória de Pedro Castillo, o líder dos professores.

O apoio dos EUA para a destruição da social-democracia em nossa região é claro. No Brasil, com a farsa da Operação Lava Jato e a tomada do poder pelo partido militar, na Bolívia com o golpe contra o Presidente Evo Morales (com a notável ajuda da Organização dos Estados Americanos), com o apoio do banqueiro Guillermo Lasso no Equador para acabar com a tarefa de Lenin Moreno na demolição das políticas progressistas (e não alinhadas com os EUA) do governo de Rafael Correa.

Mas talvez a destruição da Venezuela e a imposição do imaginário coletivo de que o maior mal da região seria o país caribenho e o perigo que a Revolução Bolivariana do falecido Presidente Hugo Chávez implica e que, além disso, todos ali estão morrendo de fome.

A presença dos golpistas venezuelanos nos Estados Unidos e na Europa deixou claro que o bloqueio e as sanções contra a Venezuela serviram apenas para enriquecer a quadrilha de ladrões representada pelo (agora em desgraça) “presidente interino” Juan Guaidó e seus patrocinadores das potências americana e européia, condenando à fome milhões de venezuelanos.

O eixo Washington-Bogotá-Tel Aviv, com seu exército de milícias de segurança privada, centros de controle de satélites, centros de pesquisa, veículos de mídia e jornalistas alugados e/ou contratados, é crucial para manter a pressão sobre a América Latina e combater a crescente influência da China e da Rússia no continente.

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Aram Aharonian é jornalista e comunicólogo uruguaio. Mestre em Integração. Criador e fundador da Telesur. Preside a Fundação para a Integração Latino-Americana (FILA) e dirige o Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

Originalmente em estrategia.la

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