França impulsiona a reforma da Europa e o fim da OTAN | Eduardo Vior

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Por Eduardo Vior

Não se via rostos felizes nas celebrações da reeleição presidencial no Campo de Marte, na noite de domingo, 24. Todos já estavam ansiosos pela campanha do “terceiro turno”: as eleições para a nova Assembléia Nacional e para o Senado que ocorrerão nos dias 12 e 19 de junho. As pesquisas já estão prevendo a derrota do presidente, que então teria que “coabitar” com Marine Le Pen ou Jean-Luc Mélenchon, que defendem uma saída da OTAN e a reconstituição da União Europeia, limitando os poderes da Comissão e da burocracia da Europa. Um confronto duradouro entre os palácios do Eliseu e Matignon sobre as políticas europeias e de defesa paralisaria o bloco supranacional e limitaria a capacidade operacional da aliança atlântica.

O presidente francês foi reeleito neste domingo em um segundo turno com 58,54% dos votos contra os 41,46% de Marine Le Pen. Há cinco anos Macron também havia derrotado Le Pen em um segundo turno, mas então o atual presidente tinha 66,1% dos votos, oito pontos a mais do que agora, e a perdedora tinha 31%, dez por cento menos do que desta vez. Ao mesmo tempo, a abstenção, com 28,1%, é a mais alta desde 1969. Por idade, 41% dos eleitores entre 18 e 24 anos se abstiveram, assim como 38% dos de 25-34 anos, de acordo com uma pesquisa da Ipsos.

Se os três milhões de votos em branco forem adicionados a esses números, pode-se ver que a maioria dos eleitores votou contra Le Pen, não a favor de Macron.

De fato, em sua mensagem pós-eleitoral, o chefe de Estado admitiu o descontentamento que tornou possível a alta abstenção e o melhor desempenho de Le Pen, e agradeceu àqueles que votaram nele apenas para evitar que a extrema direita entrasse no governo. “A raiva e os desacordos que levaram muitos de nossos compatriotas a votar pela extrema direita hoje devem encontrar uma resposta; será minha responsabilidade e dos que me cercam”, disse Macron. Ele também agradeceu aos 41% dos eleitores de Mélenchon que votaram nele apenas para “bloquear” o eventual ingresso da extrema direita no governo e mesmo daqueles que se abstiveram de votar, cujo “silêncio” ele prometeu “responder”. “De agora em diante não sou mais o candidato de um setor, mas o presidente de todos”, disse o presidente, que anunciou um “método renovado” para governar em seu segundo mandato, que, ele garantiu, não seria simplesmente uma “continuação” do atual.

Le Pen reconheceu imediatamente a derrota, embora tenha sustentado que “o resultado em si representa uma brilhante vitória” para seu setor, já que “milhões de compatriotas apostaram na mudança”, e se comprometeram a agir como um “forte contra-poder”. “Continuarei meu compromisso pela França e pelos franceses” e “travarei a grande batalha eleitoral” nas eleições parlamentares de junho próximo, porque o partido não acabou”, acrescentou a candidata do Reagrupamento Nacional (RN, em francês).

A União Européia (UE) reagiu prontamente à continuidade de uma política neoliberal e europeísta implícita na vitória de Macron: “Podemos contar com a França por mais cinco anos”, disse o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, no Twitter.

Durante sua campanha, o presidente reeleito defendeu “mais Europa”, seja em assuntos econômicos, sociais ou de defesa, e recuperar um impulso reformista e liberal, com sua proposta estelar de aumentar a idade da aposentadoria de 62 para 65 anos, o que em 2020 já provocou protestos maciços. Em contraste, a candidata de direita tinha uma ampla agenda social, embora ela propusesse escrever “prioridade nacional” na constituição, excluir os estrangeiros dos benefícios sociais, assim como abandonar o comando integrado da OTAN e reduzir as competências da UE.

As eleições mostraram que tanto a polarização social quanto a desintegração do modelo político tradicional do país estão se consolidando. Macron se saiu melhor entre os eleitores aposentados, da classe média e alta, enquanto Le Pen desfrutou das preferências de trabalhadores menos qualificados, desempregados e precarizados. Os eleitores do presidente vivem principalmente nas grandes cidades e no oeste do país. Os opositores, entretanto, vivem principalmente no antigo reduto industrial do norte, no leste, nas margens do Mediterrâneo e nos territórios da América Latina e Caribe (Guiana, Martinica e Guadalupe).

Todos na França estão se preparando para as eleições legislativas de 12 e 19 de junho, que são apresentadas pela oposição como um “terceiro turno” susceptível de impor uma “coabitação”. No jargão político francês, este é o nome dado à coexistência de um presidente de partido com um governo e seu primeiro-ministro da oposição. O bloco de identidade liderado por Marine Le Pen e o bloco popular liderado por Jean-Luc Mélenchon sonham com suas respectivas vitórias e com um ou outro se tornando primeiro-ministro. Por enquanto, as primeiras pesquisas pós-presidenciais sugerem que Emmanuel Macron provavelmente perca sua maioria parlamentar nas eleições legislativas.

Em uma pesquisa do Ifop publicada no mesmo domingo, 68% dos eleitores disseram que eram a favor de “a oposição ter uma maioria de deputados na Assembleia Nacional e impor uma coabitação a Emmanuel Macron”. A mesma pesquisa também perguntou aos entrevistados se queriam que as partes saíssem das eleições “fortalecidas” ou “enfraquecidas”. 39% responderam que gostariam de ver o França Insubmissa (LFI, movimento liderado por Mélenchon) “reforçado” contra 29% que prefeririam que fosse “enfraquecido”, um número comparável ao do Reagrupamento Nacional, com 38% contra 36%.

“O terceiro turno começa esta noite”, disse Mélenchon no domingo à noite, salientando que “a França se recusou a confiar a Le Pen seu futuro e esta é uma notícia muito boa para o povo”. Entretanto, continuou, “seria um erro acreditar que esta reeleição é equivalente a continuar com a mesma política”. O líder da LFI, portanto, pediu à esquerda que “não se resignem. Atuem francamente, massivamente. A democracia pode mais uma vez nos dar os meios para mudar de rumo”. Esses meios estariam nas eleições legislativas. “Conclamo a que me elejam como Primeiro Ministro”, disse Mélenchon a seus militantes.

Marine Le Pen fez a mesma declaração: “Esta noite lançamos a grande batalha eleitoral das eleições legislativas”. Aguerrida apesar de sua derrota, ela pediu a formação de um “forte contra-poder a Macron”, porque, acrescentou, “Macron não fará nada para reparar o sofrimento do povo francês”.

As eleições presidenciais de 2022 trouxeram os franceses de volta à política. Após 30 anos de neoliberalismo, com sua despolitização da vida pública e a mercantilização de todas as relações, pela primeira vez a tríplice crise da pandemia de Covid-19, a crise sócio-econômica e a guerra na Ucrânia forçou os franceses a discutir modelos de sociedade contrastantes. Acrescente-se a isto o hábito antigo do hexágono de tratar os problemas da França como se fossem os da humanidade como um todo. Neste caso, pode até ter efeitos positivos, se isso levar o resto do continente a discutir o futuro da Europa.

Neste período que antecede as eleições legislativas, as três forças estão coçando a cabeça para ver de onde podem obter os votos necessários para formar uma maioria relativa. É necessário tratá-las no plural, pois nas próximas eleições cada distrito é um mundo, os candidatos são bem conhecidos localmente e as lealdades são divididas muito mais de acordo com seu prestígio e trajetória do que com sua filiação a um ou outro bloco. Esta característica também favorece as forças com uma presença territorial mais forte. Ainda mais importante é a trajetória dos candidatos no segundo turno, quando devem fechar alianças com outros líderes regionais com os quais já conhecem há décadas. Nesta ocasião, os líderes nacionais devem se limitar a fazer apelos gerais e se articular com os aparelhos eleitorais já presentes na geografia diversificada da França. É por isso que os três principais partidos já estão buscando alianças com os remanescentes dos partidos que sucumbiram nas eleições presidenciais.

Macron, é claro, buscará alianças com as diversas forças centristas que estiveram abaixo dos 5% no primeiro turno. Estes são os partidos tradicionais da Quinta República, como os republicanos e o Partido Socialista, que mantêm os aparatos regionais. Le Pen, por sua vez, é forçada a recorrer à direita nacionalista, embora, sem dúvida, procure roubar votos da esquerda popular. Mélenchon, finalmente, está jogando uma carta importante para a unidade da esquerda, que no primeiro turno ficou dividida com quatro candidatos.

Embora o estabelecimento de linhas de política externa seja poder exclusivo do presidente, no caso de uma “coabitação” (a última experiência foi entre 1997 e 2002) o governo pressionaria o presidente a que impulsione a reforma da União Européia e a saída da França do Comando Conjunto da OTAN. Estas são duas exigências profundamente sentidas pelo povo francês que tanto o RN quanto a LFI incorporaram – em bases muito diferentes – em suas plataformas.

É por isso que o ciclo eleitoral francês é tão preocupante para as hierarquias de Bruxelas e para os líderes dos principais países europeus. Se uma força contrária ao centralismo burocrático da UE e ao aventureirismo belicista da OTAN chegar ao poder na França, sua influência será sentida em grande parte da Europa. Uma onda de soberania e independência popular começa a varrer a península ocidental da Eurásia.

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Eduardo Vior é cientista político argentino

Originalmente em telam.com.ar

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