Guiné: Um golpe pró-francês contra um líder aliado à Rússia? | Andrew Korybko

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Por Andrew Korybko

O que está acontecendo na Guiné?

A nação da África Ocidental, a Guiné, passou por um golpe de Estado no fim de semana liderado por um antigo legionário francês contra o presidente que possuía boas relações com a Rússia. Alpha Conde ganhou para um terceiro mandato no ano passado depois que a Constituição foi alterada para permitir tal feito, seguindo os passos de muitos líderes africanos. É considerado próximo ao Presidente Putin, cuja campeã nacional em termos de alumínio, a Rusal – a segunda maior empresa do mundo no setor – possui no país ativos que representam cerca de 40% de sua produção de bauxita. A Guiné foi uma aliada soviética e continuou mantendo relações estreitas com Moscou mesmo após a Velha Guerra Fria, mais recentemente expandidas sob o Governo de Conde após visitar Sochi para se encontrar com seu homólogo russo durante a Cúpula Rússia-África de 2019.

Análise do contexto

Como ex-colônia francesa, a Guiné é considerada como estando dentro da “esfera de influência” que a França chama de “Françafrique”. A Grande Potência da Europa Ocidental e da Eurásia têm lutado por influência em toda a África nos últimos anos, após a aplicação do modelo de “Segurança Democrática” (táticas e estratégias de contra-guerra híbridas) de Moscou, que resultou na parceria do Kremlin com muitos dos líderes do continente, que temem ser depostos pelas antigas potências coloniais de seus países. Listei minhas 18 análises anteriores sobre este tópico a partir de 2016 em um artigo que publiquei no início deste ano sobre a campanha de fake news do ex oligarca russo Khodorkovsky na República Centro-Africana, que deve ser revisado para contextualização.

A Infoguerra Anti-Rússia

A pressão estrangeira sobre Conde se tornou perceptível pela primeira vez no verão de 2019, depois que começou a insinuar suas intenções de mudar os limites do mandato presidencial da Guiné. O Guardian publicou um artigo intitulado “‘Russians have special status’: policy and mining mix in Guinea” (‘Os russos têm status especial ‘: o mix de política e mineração na Guiné), que disseminou uma insinuação de que ele seria um fantoche de Putin. Essa narrativa foi parcialmente construída sobre o apoio público do então embaixador russo na Guiné antes de ser nomeado para chefiar as operações da Rusal no país no mesmo ano, pouco depois de deixar seu posto diplomático. Em dezembro de 2019, a Bloomberg publicou uma matéria de sucesso com o título dramático “How Putin Got a New Best Friend Forever in Africa” (Como Putin conseguiu um novo melhor amigo na África), que sinalizou o apoio da mídia americana a esta campanha anti-russa.

Cooperação Epidemiológica

Merece ainda ser mencionado que a parceria russo-guineense é muito mais do que apenas os interesses no alumínio por Moscou e os de “Segurança Democrática” de Conakri (capital do País). Especialistas russos em epidemiologia ajudaram a Guiné a derrotar seu surto de Ébola a partir de 2013 e o país também comprou a Sputnik V para ajudar a combater a COVID-19. Essas formas de cooperação médica de emergência melhoraram diretamente a vida das pessoas e contribuíram para a estabilidade geral do país, o que, por sua vez, reforçou o soft power da Rússia entre o povo guineense. Embora existam algumas forças de oposição que não aderiam a Conde, ainda pareciam apreciar a resistência de décadas da parceria russo-guineense e não pareciam interessadas em abandoná-la.

Condenação universal

Não está claro qual será o futuro de seus laços agora que um antigo legionário francês liderou um golpe de Estado bem sucedido contra Conde. A ONU, o bloco regional da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e a Rússia pediram a sua libertação depois que os rebeldes transmitiram imagens dele na prisão. Prometeram que ele será bem tratado, mas ninguém pode ter certeza absoluta disso. De acordo com o líder do movimento, derrubaram o ex-presidente a fim de melhorar a condição socioeconômica do país. Alguns relatórios afirmam que foram chamados a agir depois que Conde demitiu um comandante sênior das forças especiais. Em qualquer caso, as conexões desse líder com a França levantam questões sobre se Paris poderia, no mínimo, ter dado o sinal para que eles realizassem o golpe.

Oposição anti-russa de Paris?

O Françafrique está mais frágil do que nunca após o sucesso da “Segurança Democrática” russa na República Centro-Africana, a morte no campo de batalha do líder aliado francês do Chade no início deste ano, e o golpe que logo se seguiu no Mali, levou Paris a reformar sua campanha antiterrorista regional,  que alguns suspeitam, estava sendo explorada para perpetuar sua influência no Sahel. Vista sob esta perspectiva, a França certamente tem interesse estratégico em reforçar a Françafrique ao ter soldados altamente treinados que trabalhavam para os franceses realizando um golpe contra o líder da Guiné com boas relações com a Rússia, algo que já era considerado credível como um alvo de ‘mudança de regime’ nos últimos dois anos, devido a esta campanha de difamação midiática.

A Junta tentará colocar a culpa em Putin?

As tensões políticas pré-existentes dentro da sociedade não foram suficientes para derrubá-lo através de uma Revolução Colorida, razão pela qual o método tradicional africano de golpe militar (potencialmente apoiado por estrangeiros) foi usado. Mesmo que a França não estivesse envolvida, seja direta ou indiretamente, este resultado ainda serve seus interesses. A junta poderia achar politicamente conveniente culpar a suposta má administração socioeconômica do país por Conde em sua estreita parceria com a Rússia, talvez alegando que a Rússia contribuiu para a corrupção política endêmica que supostamente prejudicou o desenvolvimento da Guiné. Isto poderia ajudar a “legitimar” seu golpe aos olhos ocidentais e se tornar o pretexto para substituir a influência russa pela francesa.

O pior cenário

O pior cenário seria se eles pressionassem a Rusal, o que poderiam tentar para justificar internacionalmente se a chamada “rede de investigação” de Khodorkovsky, apoiada pelo Ocidente, ou outros apoiados por estrangeiros, inventassem histórias sobre a suposta corrupção da empresa no país. O objetivo ao fazer isso seria que os possíveis apoiadores estrangeiros dessa junta (muito provavelmente a França, se este for realmente o caso) puniriam a Rússia pelo que a mídia mainstream alegou últimos dois anos: o apoio russo a Conde, mesmo que Moscou sempre considerasse os laços bilaterais como sendo entre duas nações e não dependentes de nenhum líder em particular. Qualquer interrupção das atividades da Rússia na Guiné, que responde por cerca de 40% de sua bauxita, poderia ser desastrosa para o país africano.

Conclusão

Dada a importância estratégica da empresa para a Rússia, tal cenário poderia ser corretamente considerado como um ataque de Guerra Híbrida contra o próprio Kremlin. Seja bem-sucedido ou não, seria ainda altamente simbólico, tendo em vista os esforços que estão sendo empreendidos para reverter os recentes sucessos da Rússia na África, especialmente de uma forma que poderia afetar diretamente os cofres do Kremlin, assim como a posição global de suas campeãs nacionais. Os observadores devem, portanto, continuar monitorando os eventos na nação da África Ocidental a fim de ver se essa junta se comportará de forma pragmática, mantendo os laços mutuamente benéficos de Conakry com Moscou ou se iniciará um pivô geoestratégico substituindo a influência russa pela francesa e, assim, devolvendo a Guiné ao rebanho da Françafrique.

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Andrew Korybko é Analista político norte-americano radicado na Rússia. Especialista no relacionamento entre a estratégia dos EUA na Afro-Eurásia; a visão global da conectividade da Nova Rota da Seda e em Guerra Híbrida

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