Impasses nas eleições em Israel: Instabilidade política no horizonte | Lejeune Mirhan

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Por Lejeune Mirhan

No último dia 23 de março (22 no calendário lunar dos judeus) ocorreram eleições para o parlamento (unicameral) de Israel, chamado de Knesset, composto de 120 cadeiras. Como sempre, nenhum partido conseguiu eleger 61 deputados (maioria), de forma que terão que ocorrer amplas alianças políticas. O atual primeiro Ministro (PM) Benjamin Nethanyahu, o mais longevo PM da história israelense, elegeu apenas 30 deputados. Como foi o primeiro, foi indicado a formar governo. Pretendo, neste pequeno ensaio, analisar os resultados e apontar algumas perspectivas.

Pelo calendário ocidental, as eleições em Israel ocorreram na terça-feira (dia 23). A apuração foi concluída  no dia 26 de março. Dos 6,5 milhões de eleitores inscritos, votaram 4,4 milhões, que representa uma abstenção de 33%, dentro da média das últimas 12 eleições.

Eu leio diariamente os três jornais israelenses mais importantes para podermos acompanhar de perto não só os resultados – Haaretz, Yediot Aharonot e Times of Israel (em suas versões inglesas) –, como também leio as colunas dos analistas políticos para verificar as suas opiniões sobre o futuro do estado judeu. Também acompanho o site do Parlamento Israelense, Knesset, que tem uma área da Comissão Nacional Eleitoral, que é ali que saíram os resultados oficiais.

Tem-se então, o comparecimento de 67% dos eleitores inscritos. Mas, algumas surpresas apareceram. É preciso registrar, em primeiro lugar, que desde abril de 2019, quando foram realizadas eleições regulares, há dois anos, outras três aconteceram. Em setembro de 2019, em março de 2020 e março de 2021. Portanto, esta eleição foi a quarta em dois anos. E, se não conseguir formar um governo estável, para um mandato normal de quatro anos, os eleitores israelenses irão para a sua quinta eleição.

Nunca nos esqueçamos que em Israel, vigora o sistema de governo Parlamentarismo.  O toma-lá-dá-cá, a moeda de trocas para formar governo, como aqui no Brasil, chama-se ministérios! No Brasil temos o presidencialismo, mas fala-se que é um presidencialismo de coalisão ou um semiparlamentarismo. Ninguém governa sem maioria no Parlamento. O máximo que a esquerda elegeu, na primeira eleição da Dilma, em 2010, somados os deputados dos partidos PT, PCdoB, PSB, PDT e PSOL, foram apenas 137 deputados, de 513. O máximo que tivemos foi 26% do Parlamento brasileiro.

Dos 14 partidos legalizados em Israel, 13 fizeram deputados e ultrapassaram a famigerada cláusula de barreira que lá é de 3,35%. Aqui no Brasil também existe essa cláusula, que é de 3%. Se não for modificada este ano, e continuar valendo para 2022, dos 32 partidos, 19 serão banidos, virarão partidos de segunda classe. Não serão fechados, mas os seus deputados eleitos não poderão tomar posse pela legenda, pois terão que escolher outra legenda. Serão partidos zumbis, mortos vivos. Porque, perdem a representação parlamentar, que é o fato político mais importante, além de tempo na TV e fundo partidário. Dos 14 partidos em Israel, apenas um não ultrapassou esta cláusula. Um partido novo, criado ano passado, chamado Nova Economia. Não se sabe se é de direita ou esquerda, ele só discute economia.

Os campos políticos e ideológicos que emergiram das urnas

Como venho afirmando nos últimos meses, pouca coisa iria mudar na composição do parlamento israelense em termos de blocos e campos ideológicos. Da mesma forma, nunca alimentei ilusões que o percentual de eleitores que vota na esquerda e em partidos progressistas fosse ultrapassar a casa dos 20% e a direita fosse diminuir da casa dos 80%. Esses percentuais são muito parecidos com os resultados das nossas eleições municipais de novembro de 2020, cujos resultados foram exatamente esses.

Pretendo dar aqui a composição de cinco bloco partidários, em termos de extrema-direita, direita, centro, esquerda e criei um bloco que estou chamando de religiosos, cujos programas também poderiam ser encaixados no bloco da extrema-direita. Pretendo dar os nomes dos partidos, o nome dos seus líderes, o percentual que fizeram no parlamento, quantos deputados têm hoje e o número de cadeiras que conquistaram. Ao final, darei a soma total e o percentual do bloco com relação aos total do Knesset que é de 120 deputados.

1. Bloco de extrema-direita

Os partidos desse campo são:

PartidoLíderTinhaObteve% Tot.Crescimento
YaminaNaftali Bennet375,83%133,33%
Yisrael BeitenuAvigdor Liebermann775,83%0%
New HopeGideon Sa’ar265%200%
Religius ZionismBezazel Smotrich265%200%
Totais 142621,66%85,71%

Aqui uma observação importante. O partido Sionismo Religioso apesar de, como o nome diz, ser um partido religioso, ele é tão de extrema-direita, que destoa dos outros dois religiosos que, inclusive dialogam com outras forças e correntes, ainda que estejam no campo do atual PM Nethanyahu. Por isso optei em colocá-lo neste bloco.

2. Direita

PartidoLíderTinhaObteve% Tot.Crescimento
LikudBenjamin Nethanyahu373025%-18,91%
Totais 373025%-18,91%

Aqui como já era esperado, Nethanyahu diminuiu sua base eleitoral em quase 20%. Isso significa uma perda de quase um milhão de votos, ainda que ele tenha feito uma campanha pesada e propaganda relacionado à vacinação da quase totalidade da população israelense (apenas judeus foram vacinados, pois os palestinos não receberam vacinas).

3. Centro

PartidoLíderTinhaObteve% Tot.Crescimento
Yesh AtidYair Lapid161714,16%6,2%
Kahol LavaneBenny Gantz1286,66%-33,3%
Totais 282520,8%-10,71%

Aqui uma observação importante. Esse Benny Gantz, um general da reserva, líder desse partido chamado Azul e Branco (Kahol Lavane em hebraico), cometeu uma traição contra seus eleitores, quando ele compôs com Nethanyahu. Como se diz na vida, a política gosta muito da traição, mas abomina o traidor. Ele foi punido pelos seus eleitores, perdendo quatro cadeiras no parlamento (reduziu em um terço sua votação, o que significa quase 150 mil votos). De qualquer forma, ele compõe o campo anti-Nethanyahu.

4. Esquerda

PartidoLíderTinhaObteve% Tot.Crescimento
AvodáAmir Peretz275,83%250%
MeretzNitzman Harowitz465,0%50%
Joint Lista (Árabe)Ayman Odeh1165%-54,5%
Ra’amMansour Abbas443,33%0%
Totais 212319,16%9,5%

Aqui registramos um crescimento modesta da esquerda, mas o percentual com relação ao total de cadeiras do Knesset é praticamente a mesma. A Lista Conjunta, era a junção de quatro partidos árabes: Balad, Hadash, Taal e o Ra’am. Este último, deixou a aliança (não apurei as motivações dessa decisão), manteve suas quatro vagas. Os outros três partidos seguiram juntos, mas sofreram uma redução de 54%. A informação que nos chega, ainda necessitando ser confirmada, é que cinco palestino-israelenses teriam sido eleitos por partidos judaicos. De qualquer forma, é pequena a parcela da sociedade israelense que vota na esquerda e centro-esquerda.

5. Religiosos

PartidoLíderTinhaObteve% Tot.Crescimento
ShasAyeh Deri997,5%0%
Judeus Unidos pela ToráYakov Litzman775,83%0%
Totais 161613,33%0%

Aqui vemos a absoluta fidelidade de judeus ultra-ortodoxos para com seus partidos. Não houve praticamente nenhuma modificação no cenário eleitoral nesse campo.

Assim, de forma resumida podemos concluir que:

1. A direita foi quem mais cresceu, mas a migração e votos/deputados deu-se em um mesmo campo, ou seja, isso não significou que roubaram votos da esquerda;

2. A esquerda teve um modesto crescimento de menos que 10%, mas cresceu;

3. Os religiosos ficaram absolutamente na mesma;

4. O Centro decresceu em torno de 11%;

5. A direita de Bibi, foi a que mais perdeu, com um decréscimo de 25%.

Os blocos com relação às candidaturas

Cumprindo a legislação, o presidente de Israel (eleito indiretamente), Reuven Rivlin, indicou Benjamin Nethanyahu para compor ou tentar compor um governo, já que ele se apresentou como sendo apoiado por 52 deputados (todos os seus 30 mais os 22 deputados religiosos). Ele precisa formar 61 deputados e tem 28 dias para isso, prazo que corre a partir de terça, dia 6 de abril até 4 de maio. Faltam-lhe nove deputados para atingir a maioria. Todos os jornais israelenses que leio diariamente dizem que Bibi não conseguirá.

Os partidos indecisos, alguns jornais chamam seus líderes de “rei” de Israel, pois valem ouro, são pelo menos dois:

1. Yamina, de Naftali Bennet (um extremista e anti-palestino) e

2. O partido árabe, o Ra’am, vinculado à Irmandade Muçulmana (originalmente fundada no Egito, mas com ramificações em todo o mundo árabe; o Hamas tem vínculos com ela, assim como Recep Tayyp Erdogan, da Turquia). É gente que sonha com estado teocrático e a volta do Califado Muçulmano.

Os partidos com seus respectivos deputados que dizem reunir 44 deputados, sob a liderança de Yair Lapid, terá que aguardar e torcer para que Bibi não consiga emplacar o seu governo. Para isso, terá que esperar ainda até o início de maio. São os seguintes partidos de centro e centro-esquerda: o dele próprio, o Yesh Atid (17), Kahol Lavane (8), Avodá (7), Joint Lista (6) e Meretz (6).

Quebrando tabus

O analista político Anshel Pfeffer, do prestigioso jornal Haaretz, publicou no dia 31 de março uma interessante análise política dos resultados eleitorais e das perspectivas de formação de um novo governo, seja de continuidade, seja de oposição (1).

Ele conclui praticamente na linha de que, para se conseguir formar um novo governo, pelo menos um de seis tabus precisariam ser quebrados. E sabemos que tabu é exatamente algo relacionado com fatos que nunca ocorreram.

Dois desses tabus não foram quebrados, em função de que o presidente Rivlin já indicou, desde o dia 6 de abril, Nethanyahu para tentar formar governo. Esses dois tabus relacionam-se com o fato de um segundo colocado nas eleições, ser chamado a formar governo, o que nunca ocorreu na história de Israel desde 1948.

O segundo, mais impossível ainda, seria o de o líder do Likud, partido de Bibi, se modificado, para ser colocado em seu lugar um outro deputado. Isso jamais ocorreria. Fala-se inclusive de indicar Bibi para o cargo de presidente, para facilitar a formação de governo, o que, de meu ponto de vista, jamais ocorrerá pelo desgaste que ele vive. Apenas para lembrar que no dia 6 de abril, Bibi compareceu em um Tribunal israelense para depor sobre vários processos de acusação de corrupção que se movem contra ele. Por isso a sua busca desesperada de imunidade judicial que adviria apenas se ele seguisse PM.

Entre outros tabus que não merecem ser mencionados para não estendermos demais o ensaio, quero mencionar aqui o mais importante. Relaciona-se com o fato de que para se formar um novo governo, qualquer que seja o lado em disputa, eles dependem de partidos radicais, extremistas, seja da direita israelense (Yamina e Yisrael Beitenu), bem como de partido árabes, (Joint List e Ra’am). Será que o pessoal do Ayman Odeh, do Joint Lista com seis deputados, não só apoiaria o novo governo, mas poderia vir a ter um ministro de origem árabe-palestina? Jamais se viu isso antes na história. Pessoalmente, acho que isso jamais ocorrerá. Mas, nestes tempos onde tudo pode ocorrer, não estranharia se víssemos isso.

O outro partido árabe, o Ra’am, de Mansour Abbas – um dos chamados “reis” de Israel – é vinculado à Irmandade Muçulmana e o Hamas. Seria um grande e complexo paradoxo, um partido dessa natureza, fundamentalista, apoiar a formação de um governo de continuidade de Nethanyahu. Mesmo o outro, cuja tendência maior é fechar com a oposição de Lapid.

Conclusões

Qual é a minha análise do que está ocorrendo hoje na formação do novo gabinete israelense? Haverá uma disputa entre a direita e a extrema-direita. Dentro do campo da direita, aparece um partido que só tem sete deputados, o Yamina que também é novo, liderado por Naftali Bennett, de extrema direita, sionista, antipalestino, contra a solução dos dois Estados, islamofóbico, um cara muito ruim.

Ele, mesmo só tendo eleito sete deputados, disputa com Netanyahu, pleiteando o cargo de PM, dizendo que também tem condições de formar um governo. Então, é uma disputa no campo da direita. Os analistas políticos dizem que isso é quase impossível. Não só por que nunca aconteceu antes (tabu), mas pelas posições muito ruins que ele expressa.

O Yair Lapid, que também diz que tem condições de formar governo, é a maior esperança do campo anti-Nethanyahu. Se isso ocorrer, não será a primeira vez que um deputado líder de um partido que ficou em segundo lugar, forme governo. É o que se espera, ou seja, que ele lidere um campo muito amplo, o mais possível, de forças contra Nethanyahu.

Quando Biden venceu as eleições em novembro passado, isso caiu igual a uma bomba para Bibi e seu Likud. Ele claramente torceu para Donald Trump vencer as eleições, ele que é o sionista cristão de maior projeção mundial. Bibi sabe que Biden é francamente a favor da solução de dois estados.

Recentemente, Biden desbloqueou uma verba milionária de quase 300 milhões de dólares que foram destinadas à Autoridade Palestina. Vamos ver como o governo estadunidense poderia usar seu poderio para não só contribuir para a formação de um governo mais moderado e que dialogue com os palestinos, mas para que ocorra efetivamente uma paz duradoura na região.

Há hoje um grande impasse em Israel. E a questão não é só formar governo, mas sim formar um governo estável, em um momento em que a esquerda, centro-esquerda e os setores progressistas, não necessariamente de esquerda, não conseguem romper a marca dos 20% das eleições.

Essa é uma situação lamentável. Não vislumbro nenhuma paz para a Palestina no horizonte político mais próximo, pelo menos por enquanto. E se, na hipótese de Netanyahu conseguir formar governo, aí é que as coisas ficarão muito piores.

Nota

1 – Vejam aqui essa matéria: https://bit.ly/321G5qS.

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Prof. Lejeune Mirhan é sociólogo, professor universitário (aposentado) de Sociologia e Ciência Política, escritor e autor de 14 livros, é também pesquisador e ensaísta

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