Irã, a história recente de uma Revolução | Lejeune Mirhan

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Por Lejeune Mirhan

Pretendo neste pequeno e novo ensaio, contar a história recente da República Islâmica do Irã, tendo como linha de corte o episódio do golpe contra Mossadeh em 1953. Relatarei o movimento amplo que uniu forças de esquerda e os muçulmanos para derrubar uma ditadura fascista pró-EUA, em fevereiro de 1979. Por fim, chegarei aos dias atuais, comentando, mais uma vez em detalhes, os resultados das eleições iranianas do dia 18 de junho.

Há um episódio na história recente do Irã que é a de uma primeira experiência adotada pela Agência de Inteligência Americana-CIA, no sentido de mexer com a cabeça do povo para derrubar o governo. Foi ali que tudo começou. Depois disso, houve as revoluções coloridas no leste europeu e também a Revolução Árabe, chamada de primavera por alguns e de inverno pelos árabes.

Em 1951 foi eleito como primeiro-ministro, Mohammed Mossadegh, nacionalista, patriota, não era de esquerda nem socialista, que fez algo inaceitável para o imperialismo, tanto o inglês, quanto o estadunidense: ele nacionalizou o petróleo do Irã, que passou para o controle do Estado, que era governado por uma monarquia reacionária, de direita, pró-Estados Unidos, que era o Xá Reza Pahlev. Era um primeiro Ministro extremamente popular. A mobilização em favor do primeiro-ministro era tão grande que o Xá chegou a sair do país, pois o clima ficou ruim para ele.

Passaram-se dois anos e Mossadeh ainda era extremamente popular. Num certo momento, agosto de 1953, a opinião pública se voltou contra ele. A CIA gastou milhões de dólares, comprou entidades, subornou parlamentares que eram incitados a serem contra o primeiro Ministro.

O cenário inverteu-se e ele sofreu um golpe. Um general iraniano o derrubou e prendeu o primeiro-ministro. Ele morreu em casa, de morte natural, mas amargou longo período na prisão. O Xá retornou do exílio e o petróleo voltou para as mãos de Inglaterra e EUA. Esse episódio é importante termos em mente, porque, esta técnica, o laboratório original, de onde tudo começou, foi no Irã.

O Aiatolá Ruhollah Khomeini teve que se exilar em 1963 ou seria assassinado, porque fazia oposição ao Xá. Ele passou 15 anos exilado, sendo que os últimos ele viveu em Paris. Ele mandava fitas gravadas, que eram reproduzidas para centenas de milhares de pessoas que ouviam no Irã. Era a forma como ele organizava a oposição ao regime do Xá.

No meu último ano de faculdade, em 1979, nós fundamos um Comitê de Apoio à Revolução Iraniana. Essa revolução, em um primeiro momento, é bom que fique registrado, foi bastante ampla, reunindo comunistas, socialistas, junto com os muçulmanos que ajudaram a derrubar o Xá. Mas, em determinado momento, o setor mais da esquerda perdeu o comando do processo. Eu diria que perdeu o comando da direção e o poder.

A revolução então, assume um caráter mais religioso e islâmico. Khomeini desembarca no país, no dia primeiro de fevereiro. As manifestações duram 10 dias. No aeroporto, há livros de história que registram que havia dois milhões de pessoas à sua espera. Um apoio em massa impressionante. Esta foi uma revolução feita sem dar nenhum tiro.

Nós que temos formação marxista clássica, leninista, acreditamos em tomada do poder pela revolução armada. Por isto estudamos a revolução iraniana, que é um modelo de revolução chamado insurrecional. O povo todo se levanta e enfrenta de peito aberto a força do exército oficial. Morreram muitos iranianos nos confrontos. A partir de um certo momento, os soldados começaram a perceber que podiam estar matando seus próprios irmãos, primos e já não atiravam mais. Houve a sublevação das Força Armadas.

E, no dia 10, o Xá, definitivamente, sai do país e se exila nos Estados Unidos. Eles sempre deram toda proteção para os ditadores que apoiaram no mundo inteiro. E eles ainda tem a cara de pau de bater na tecla da defesa dos direitos humanos. Eles não respeitam os direitos humanos nem dentro do país e fecham os olhos para os seus ‘amigos’ que cometem violações.

Eles têm uma indignação seletiva, eles só ficam indignados pela violação dos direitos humanos que são governados por pessoas que não gostam dos EUA. Por aí percebe-se que, quando cobram direitos humanos, na China ou na Rússia, isto nada tem a ver com direitos, mas sim com a intenção de desgastar o governo.

O Xá morreu no exílio, sem nunca ter retornado ao Irã. E iniciam um processo que, até hoje, eles chamam, de Processo Revolucionário Islâmico. Isso acarreta mudanças na estrutura de poder iraniana, de forma substancial, jamais vista em toda a história mais recente do país.

O período pós revolucionário no Irã

Em 1979 eles fizeram uma nova Constituição no Irã, de forma que o sistema adotado havia sido o parlamentarismo. Após isso, em 1989, com a morte de Khomeini, alteraram o modelo para parlamentarista, que vigora até os dias atuais. O parlamento ficou unicameral, que é chamado de Majlis, composto por 290 deputados.

O Parlamento tem poder consultivo e não deliberativo. Existem outras instâncias que podem legislar no Irã. Lembremo-nos que o Irã é um Estado Teocrático. Quando aprendemos na escola sobre o iluminismo, especialmente, na Europa, ou na França, sobre a separação dos poderes, por certo estranhamos o fato de, em pleno século XXI ainda vermos estados teocráticos. Sobre essa separação de poderes pela primeira vez foi Montesquieu (1), que escreveu o livro O Espírito das Leis, onde defende que a melhor forma é a separação de poderes.

Na Comuna de Paris, que durou 75 dias, o Poder Legislativo Municipal era também Executivo, não havendo essa separação. O vereador fazia as leis ao mesmo tempo em que governava a cidade, como se não houvesse prefeito, como é no Irã.

O Estado Teocrático não separa as questões religiosas (espirituais) das seculares (temporais). Não vamos entrar nesse mérito, porque cada povo tem a sua forma de se organizar e de como governar seu país e não cabe a nós julgarmos. Aliás, Xi Jinping e Vladimir Putin têm falado muito nos últimos tempos, que não existe um modelo único de democracia. 

Quando George Bush (Júnior) invadiu o Iraque em 2003, foi com o pretexto de levar a ‘democracia’ ao mundo árabe. Como se isso fosse possível. Mas, não era para todo o mundo árabe, mas para alguns países em que eles tinham interesse. Na Arábia Saudita, por exemplo, não tem democracia nenhuma. Não tem partido funcionando, parlamento, nem Constituição eles têm, pois para eles uma constituição é desnecessária quando se tem o Livro Sagrado, que é o Alcorão.

No Irã, o livro sagrado tem um poder muito forte, mas eles têm a sua Constituição. Aliás, Israel também não tem Constituição e, de certa forma, é também um Estado Teocrático. Tem um caráter judeu e religioso. O fato de o Irã ser um Estado Teocrático, não lhe torna um país antidemocrático, ao contrário, foi a partir da Revolução Islâmica que o país foi democratizado.

As últimas eleições presidenciais iranianas, ocorridas em 18 de junho, que contou com a participação de quatro candidatos, foi a 13ª eleição, em 42 anos, do qual este atual eleito será o 8º presidente do país. Vários deles foram reeleitos para um segundo mandato de quatro anos. Inclusive o atual, Hassan Rohani, que encerra em agosto, também foi reeleito.

A democracia do Irã, do meu ponto de vista, tem uma peculiaridade. O maior poder lá é o religioso, encarnado na figura de um líder espiritual que, atualmente, é Ali Khamenei. Ele assumiu em 1989 depois da morte de Khomeini e continua até hoje, pois é um cargo vitalício. Mas, quem escolhe a pessoa para este cargo?

A Constituição do Irã prevê a existência de um Conselho de Especialistas – espertos, em espanhol. Se for pesquisar em alguns livros ou sites na Internet, eles traduzem como Conselho de Peritos, cujo termo acho inapropriado. Especialista significa que a pessoa é ‘fera’ naquele assunto que, no caso, é o Islã, a Sharia, a lei islâmica.

Os 88 membros do Conselho, sabem recitar o alcorão inteiro de memória. Esta é uma das condições para integrar. Eles são eleitos pelo povo em uma disputa que é mais acirrada que a do Parlamento. Porque, este é o órgão de poder espiritual mais importante, que elege o Aiatolá. São pessoas de reputação ilibada e alto saber jurídico dentro da legislação corânica, claro.

Portanto, o poder do Aiatolá, tem uma derivação indireta. O poder originário, do povo, vai para o Conselho, que, por sua vez, elege o líder de forma indireta. Isso lhes concede ampla representatividade. E completamente diferente das monarquias, quando o rei continua e não tem nenhum critério, nenhuma votação. O papa também é eleito. A igreja católica é monarquista, do tipo imperial, mas o papa é eleito, pelo colégio de cardeais. No caso do Irã, o Aiatolá é eleito por esse Conselho de Especialistas.

O papel do Aiatolá, em alguns aspectos, é mais importante do que o do presidente, porque ele comanda as Forças Armadas e a política externa. É uma outra esfera de poder no Irã. Tem a Presidência da República e o Parlamento Nacional; tem o Conselho de Especialistas e tem o Aiatolá. Entre o Aiatolá e o Conselho, tem um outro órgão, chamado Conselho dos Guardiões, formado por 12 pessoas. Desses, seis são indicados pelo Aiatolá e os outros seis pelo Poder Judiciário.

Quem venceu esta última eleição foi o advogado, doutor em Direito, professor Ebrahim Raisi. A Guarda Revolucionária Islâmica, que é como se fosse uma Internacional Revolucionária, está sob o comando desse órgão de Guardiões. Não conhecemos no Ocidente nada que se assemelhe a isso em qualquer outra parte do mundo. Por mais que eu estude os países e suas estruturas, não conheço. Eles criaram o seu modelo e vem dando certo.

Sobre as eleições e a vitória de Raisi

O voto no Irã é facultativo, não é obrigatório. Na maioria dos países onde o voto é facultativo, o índice de abstenção é altíssimo. Normalmente, na casa dos 40 a 50%. Quando a eleição é muito acirrada, como nos Estados Unidos, o índice cai para 20 a 40%, que ainda é alto. Na Venezuela foi perto dos 50%. E, nessa última eleição no Irã, foi de 51,02%. Mesmo no Brasil com a obrigatoriedade, temos algumas eleições que chegam perto de 30% de abstenção.

As últimas eleições do Irã sofreram uma particularidade. No início eram sete candidatos, e chegaram a fazer três debates. Mas, faltando dois dias para as eleições, três deles desistiram. As pesquisas indicavam dr. Ebrahim disparado na frente. Na última pesquisa publicada ele tinha 58%. E, a soma dos outros seis, antes dos três se retiraram, dava 16%. Era mais do que o triplo da votação somada.

Mas, houve um ataque externo, numa tentativa de interferência no processo eleitoral. A Arábia Saudita, dizem os jornais iranianos e também alguns amigos com quem converso lá no Irã, me informaram que foram jogados milhões de dólares com dois objetivos: o primeiro era apoiar as campanhas dos adversários para tentar impedir a vitória de Raisi. E, o segundo objetivo era convencer as pessoas a não saírem de casa para votar. O processo de pandemia influenciou a baixa votação.

Esta interferência externa tinha objetivos claros de fortalecer os adversários, as candidatura que não eram do ‘stablishment’ iraniano. A candidatura que venceu é da estrutura do poder espiritual, do clero. Lembrando que o clero seja ele xiita, seja sunita, é sempre horizontal no Islã. Não existe papa, cardeal ou bispo. Existe o Sheik e mais nada. No judaísmo também é assim. Cada rabino cuida de uma sinagoga e não vem orientação de lugar nenhum. Porque tem os livros sagrados que eles seguem e não precisam de mais nada.

Portanto, desacreditar o processo eleitoral iraniano era o máximo que essas monarquias feudais, pró-Estados Unidos poderiam fazer. Invadir o país eles não podem e não conseguem, então, tentam interferir de fora para dentro. Mas, perderam fragorosamente.

O resultado saiu no mesmo dia 18 de junho, e compareceram cerca de 30 milhões de eleitores. Talvez tenha dado um pouco mais, porque os votos brancos e nulos são muito poucos. E, o dr. Ebrahim teve 17,9 milhões de votos, equivalente a 62% do total dos votos válidos. Foi uma vitória espetacular. Não foi como a que o dr. Bashar obteve na Síria, onde ele venceu dois candidatos com 95,1%. Ele é muito querido pelo povo sírio.

Irã, a história recente de uma Revolução | Lejeune Mirhan 1

Quem é o dr. Ebrahim Raisi e qual é o seu plano de governo.

Ele é promotor de Justiça de primeira instância desde a década de 1980. A partir daí, ocupou cargos importantes como os de procurador geral da República e também vice-chefe do Poder Judiciário. E, a partir de 2019, ele foi nomeado pelo atual Aiatolá Ali Khamenei, chefe do Poder Judiciário.

Ele fez doutorado em Direito Privado. No Irã há duas estruturas de Poder Judiciário, o Poder espiritual, a Sharia, que é uma consolidação das leis originadas do Livro Sagrado. E tem o Poder normal, o temporal, secular, que é o direito tradicional. Por exemplo, se você quer se divorciar, pode optar pelo julgamento da justiça islâmica. A documentação e todas as certidões são consideradas oficiais em ambas as formas. Raisi, então, exerceu a chefia do Poder Judiciário.

O Irã é muito temido, tanto quanto se fosse um país comunista, mas não é. O Irã exporta revolucionários para onde houver luta anti-imperialista. No entanto, é um país capitalista, ainda que de certa forma keynesiano. Existe muita participação do Estado na economia. É um Estado provedor, um Estado de bem-estar, que cuida da sua população. Mas, existe a propriedade privada dos meios de produção, tem burguesia iraniana. Mas, todos estão no mesmo projeto.

É igual à China, por exemplo. Tenho visto vários vídeos do Partido Comunista Chinês, que no dia 1º de julho, completou 100 anos. E, foi esse Partido que levou a China a ser o que ela é hoje. Ela tem uma estação espacial internacional sozinha. A outra estação que ela participava era um projeto que envolvia oito países. Neste exato momento que escrevemos este pequeno ensaio, temos três astronautas morando lá, onde ficarão por 90 dias.

Eu assisto todos os dias a TV chinesa CGTN, que veicula notícias em espanhol. Por esses dias, Xi Jinping falou com os astronautas por teleconferência. É uma estação maravilhosa tendo inclusive quartos de dormir individuais. Esta é a grande China. E ela tem propriedade privada dos meios de produção, mas tem também a propriedade coletiva e muitas empresas estatais.

Sobre a mulher no Irã podemos dizer que ela é muito respeitada, porque eles têm que cumprir o que está escrito no Alcorão. O profeta, Mohammed, conhecido no Ocidente como Maomé, foi um revolucionário para o seu povo. Nasceu em 571 e morreu em 632. Ele aboliu a escravidão. O Mundo Árabe era apenas a Península Arábica, onde é hoje a Arábia Saudita. Todos os escravos foram libertados, porque o Alcorão proíbe esta exploração humana. Seu escravo pessoal chamava-se Bilal e foi nomeado o chamador da reza, cinco vezes ao dia. Uma tarefa importante para um ex-escravo.

O Alcorão tem muitas passagens sobre as mulheres, de proteção, garantia de direitos, mas, especialmente, o direito ao divórcio e à herança. Isto não se encontrava em nenhum outro povo ou país. O conceito de país, na época, não existia como nós conhecemos hoje. Maomé estabelece uma religião, de certa forma, revolucionária para a sua época, muito avançada.

No Irã a gente vê mulheres que cobrem quase todo o rosto. Isso não é obrigatório, mas uma opção que elas fazem. O que é obrigatório no Irã é a cobertura do cabelo e está em alguma passagem do livro. Nas fotos que eu vi da votação, a maioria das mulheres não cobre o rosto todo. Nem usam roupas inteiramente pretas. Existem muitas mulheres deputadas no Irã em uma proporção quatro vezes maior do que no Brasil. Aqui tem uns 10%, cerca de 50 mulheres deputadas.

As mulheres são maioria no Irã, são pesquisadoras e professoras universitárias. O número de mulheres doutoras, PhD é o maior ou mais elevado de todo o Oriente Médio. Aliás, o nível de escolaridade também é mais elevado por lá. Trata-se, portanto de um povo com história milenar, bastante culto. E, a Revolução Islâmica cuidou desse assunto: direito das mulheres, dos trabalhadores, e a elevação da consciência.

Em um dos meus livros eu estudei aquela região. Chamei de Oriente Médio expandido que envolve todos os 22 países árabes e mais a Turquia e o Irã. Há um capítulo em que eu escrevo que os xiitas no mundo são 500 milhões, os sunitas, 1,5 bi, mais ou menos. Eu costumo dizer que: todos os xiitas que eu conheci na vida – e não são poucos –, são anti-imperialistas (2).

Não conheço na atualidade nenhum xiita que seja amigo do imperialismo, amigo do sionismo, amigo de Israel. Mas, conheci muitos sunitas amigos dos Estados Unidos. As sete monarquias do Golfo são todas pró-Estados Unidos, são traidores do povo árabe e não defendem seus interesses.

A Arábia Saudita é uma base militar dos Estados Unidos. Ela é inteiramente ocupada. Os muçulmanos do mundo inteiro têm vergonha disso, porque, o rei da Arábia Saudita é o guardião das mesquitas sagradas, de Meca e Medina. E o país está ocupado por forças militares de potência estrangeira. A terceira mesquita mais sagrada é Al-Aqsa, em Jerusalém.

Jerusalém é a terceira cidade mais importante para o Islã, porque Maomé esteve ali, pessoalmente. No período de expansão do império, do qual ele foi chefe e não apenas líder de uma religião. Ele passou ali e diz a tradição, que daquele local onde hoje existe essa mesquita, ele ascendeu aos céus em seu cavalo branco e esteve com Deus. Então, eles erigiram ali uma mesquita.

É uma cidade sagrada para metade do planeta, dois bilhões de cristãos e dois bilhões de muçulmanos. Israel quer transformar essa cidade sagrada em capital do seu Estado judeu e sionista. Isto é uma violação ao direito internacional. A ONU proíbe isso. Nenhum país pode instalar por lá a sua embaixada. Donald Trump fez isso e o Brasil quase fez, mas a pressão dos países árabes impediu.

O programa de governo do novo presidente

O ponto central de seu programa é a resistência anti-imperialista. Esta será a sua política externa. É por isso que eu digo que os xiitas no mundo inteiro são revolucionários. São nossos aliados. Eles não são socialistas, mas isso não é um problema. Eles convivem conosco em uma aliança política e, lá no Oriente Médio, isso é chamado de Eixo da Resistência, que é liderado pelo Irã, porque hoje não tem um país árabe capaz de fazer isso.

Dr. Bashar, na Síria é um grande estadista, mas de um país de 20 milhões de habitantes, do tamanho de Cuba, dos quais cinco milhões estão deslocados por causa da agressão dos terroristas financiados pela Arábia Saudita, que destruiu quase toda a Síria, que está sendo reconstruída. Todo o seu território já foi reconquistado, faltando apenas 5% em mãos da Turquia que invadiu o Noroeste do país.

O tamanho do território e o da população jogam peso na geopolítica mundial. É por isso que o Brasil, mesmo sendo governado por um agente do imperialismo, um subalterno, um capitalista neoliberal, sionista cristão, mesmo ele sendo tudo isso, o Brasil é grande, tem uma população numerosa e, mesmo caindo para a 13ª economia, é uma boa posição no ranking mundial com 200 outras economias. O Irã tem grande território e sua população é de quase 100 milhões de habitantes, maior que o Egito, que é o maior país árabe.

Eu falei da guarda revolucionária que exporta militantes para lutar onde haja necessidade e, no caso da Síria, houve esta necessidade e eles foram para lá. Foi o caso do Iraque também, para expulsar os estadunidenses que agora estão saindo com o rabo entre as pernas. Estão abandonando suas últimas cinco bases militares.

Os muçulmanos são hoje internacionalistas e os comunistas já o foram nas décadas de 1930 e 1940. Nessas décadas, houve a Revolução Espanhola, onde comunistas brasileiros lá estiveram para dar a sua vida para aquela revolução. Na Segunda Guerra Mundial, os partigiani (3), que eram a resistência antifascista, também muitos brasileiros foram lutar na Itália. Hoje não tem mais isso. Os muçulmanos, desse destacamento, fazem isso. A consciência política deles é muito elevada.

Mas, poderemos ter surpresa. Espera-se que a Arábia Saudita, por exemplo, possa, em algum momento, voltar a ter relações diplomáticas com o Irã. É possível, no limite que os Estados Unidos também voltem a ter relação, mas em uma outra conjuntura.

O programa interno do dr. Ebrahim defende o desenvolvimento nacional; a diminuição das desigualdades; uma grande assistência social (ele quer triplicar a ajuda às famílias mais necessitadas); o fortalecimento da indústria nacional e; algo que foi mais destaque na campanha, o combate à corrupção. Mesmo sendo um Estado Islâmico, onde as pessoas são muito respeitadoras das leis e muito devotas, lá tem corrupção. Onde tem dinheiro, tem corrupção. E, ele combateu a corrupção, tendo visitado todas as 24 capitais das províncias. Aliás, em todas essas capitais, o voto nessas eleições foram 100% eletrônicos. No restante ainda não.

Na política externa, além de combater o imperialismo estadunidense e reforçar o campo da resistência, eles vão combater o sionismo internacional, que governa Israel e que influencia a política externa de muitos países, especialmente dos Estados Unidos. Não por acaso Israel está desesperado com a vitória do Dr. Ebrahim Raisi.

Quando me perguntam: quando é que o Estado da Palestina será construído? Eu costumo responder assim: quando o sionismo internacional enfraquecer, quando modificar a correlação de forças no mundo hoje, de maneira a ter um mundo mais multipolar do que unipolar, ou seja, com a perda da hegemonia dos EUA. Nessa nova situação eu vislumbraria a possibilidade de ter um cenário de paz, que poderá vir a ser mediada pelos Estados Unidos.

Dois ex-presidentes dos EUA têm o trunfo de ter mediado algum tipo de paz no Oriente Médio: Jimmy Carter (em 1979) e Bill Clinton (1993). Ambos ainda estão vivos. Carter mediou a paz entre Israel e Egito e Clinton, os acordos de Oslo, entre Yasser Arafat e Itzshak Rabin, que reconheceu a Autoridade Nacional Palestina, que é quase um Estado. Em setembro de 1993. Mas, apenas dois anos depois, Itzshak Rabin foi assassinado por um fundamentalista judeu chamado Ygal Amir, que não aceitava a paz com a Palestina (4).

No dia 15 de junho houve uma passeata de fundamentalistas em Jerusalém chamada de Marcha das Bandeiras. Eles cantavam: “Morte aos árabes”. Eles não usam nem o termo palestinos. Eles não aceitam viver em paz com os palestinos. Os sionistas e o sionismo moderno, que é uma nova forma de colonização, querem expulsar todos os palestinos das suas próprias terras (5).

Acabo de lançar pela minha Editora Apparte, a segunda edição do meu livro Palestina, história, sionismo e suas perspectivas, prefaciado pelo embaixador da Palestina, Dr Ibrahim Alzeben. Tem um capítulo grande sobre o sionismo, e sobre o sionismo cristão, que na atualidade é muito forte, em especial entre os evangélicos neopentecostais (6).

O Irã vai combater esse movimento e é por isso que ele está sendo odiado por Israel e pela mídia dos Estados Unidos. O Biden, propriamente, não fez o pronunciamento lamentando a eleição, ele não é tosco para chegar nesse nível. Provavelmente não cumprimentou o vitorioso Dr. Raisi, pois os EUA e o Irã não têm nenhuma relação.

Donald Trump, em quatro anos, baixou mais de mil sanções contra o Irã. Contra Cuba foram mais de 250, e são dezenas contra a Venezuela. É impressionante que os Estados Unidos usem ainda hoje a força do seu poder econômico e militar, como potência mundial, para impor sanções contra os governos. Querem impor a sua vontade, através das sanções. Cuba, inclusive, sofre o embargo econômico desde 1962, o que é pior do que uma sanção, pois nada pode ser comercializado com Cuba (7).

Mas, os Estados Unidos não suspendem essas sanções que impõe imenso sacrifício ao aguerrido povo cubano, que jamais se dobrou a essas pressões. Quem vive à margem do direito internacional, como os Estados Unidos, tem um nome: são considerados estados bandidos ou párias, que é a situação do Brasil hoje, onde somos considerados um pária diplomático.

O Dr. Ebrahim é um homem de bem, um clérigo pacifista. Os xiitas são pacifistas. É bom que se saiba, espero que os leitores nunca mais falem: “aquela pessoa é xiita”, como sinônimo de radical, está enganado. O radical é o sunita. Os cortadores de cabeça de cristãos, lá na Síria, são todos sunitas. O xiita é quietista, reflexivo.

Eu já não uso esse termo para designar “radicais” há mais de dez anos. É comum ouvirmos coisas como “aquele é da ala xiita, do PT”. Como assim, ele é radical? Não, radicais e fundamentalistas são os sunitas. E a história mostra isso. É só ver a que corrente pertencem os cortadores de cabeça de cristãos na Síria do chamado Estado Islâmico, bem como todas as monarquias feudais do Golfo.

Aliás, a violência é proibida. Deus não perdoa os agressores. Há uma passagem que diz que, no entanto, que Deus aceita que você aja em legítima defesa. É diferente do cristão que leva um tapa e mostra o outro lado da face. O muçulmano não toma a iniciativa de agredir. Mas, se forem para cima dele, ele tem todo o direito de responder, com base na religião. E precisa ter religião? Dependendo da circunstância, alguém te agride e você responde.

Então, o muçulmano xiita tem este elevado grau de consciência política. Isso eu atesto, em qualquer lugar. Já publiquei artigo, já escrevi capítulo de livro em que digo isso, sem medo de errar. Esse xiita que ganhou a eleição no Irã, o Dr. Ebrahim Raisi é claramente anti-imperialista.

A imprensa ocidental, em especial a israelense, o está chamando de “ultraconservador”. Meus amigos iranianos me explicam que o que é direita aqui, é esquerda lá e o que é esquerda lá, é direita aqui. É invertido.

Ser conservador lá, é ser de esquerda, mas eles não usam essa terminologia. O que eu sei é que ele é ultra-antiimperialista. A primeira entrevista que ele deu, na segunda-feira, dia 21 de junho, ele disse que não vai procurar o Joe Biden para o diálogo, enquanto os Estados Unidos não voltarem para o Acordo Nuclear, que é a bandeira principal do seu programa.

O programa está em andamento e tem sete assinaturas, originalmente tinha os cinco membros do Conselho de Segurança: Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia e China, mais a Alemanha. Os Estados Unidos saíram do acordo, mas o programa continuou. Eles têm que voltar e, eu acho, que vão voltar.

Mas, existe uma forte pressão para que não voltem. E isso vem de Israel que não aceita o programa nuclear iraniano, que é para fins pacíficos. Israel que tem 200 bombas nucleares e jamais admitiu isso. Não permite que um país soberano desenvolva sua energia nuclear para fins energéticos, científicos, medicinais. Aí dizem que o Irã quer construir a bomba. Não quer e não irá construir. Construir armas que matam muitas pessoas é vedado no Islã. O Irã quer a paz no mundo, desenvolvimento, igualdade, harmonia e soberania.

Na semana passada, para minha surpresa, os EUA deram um palpite sobre a eleição do Peru e, pela primeira vez, eu fiquei satisfeito com o palpite. A chancelaria dos Estados Unidos emitiu uma nota saudando, não a eleição do Prof. Pedro Castillo, que foi um processo limpo, ou seja, não houve fraude, e que o Peru é um exemplo de democracia para o Ocidente.

Todos os jornais de Israel estão dizendo que as forças armadas israelenses, que lá eles não chamam de exército, mas de Forças de Defesa de Israel-FDI (Israel Defense Forces-IDF na sigla inglesa) que Israel só se defende, eles nunca atacam. Israel é um país ocupante, ocupa a Palestina que não pertence historicamente àquelas pessoas que estão lá, que são forasteiras. Isso é a colonização da Palestina. Em Israel diz-se que estão preparando um ataque ao Irã.

Como Israel poderia atacar o Irã hoje? Por terra, é impossível. Teria que passar por dentro da Síria, do Iraque e não consegue. Mas, teria a possibilidade de atacar pelo ar. Eles têm uma força aerea de 700 aviões, tudo da linha dos F-16 ou superiores, fornecidos pelos Estados Unidos.

A autonomia de voo de um F16 é de quatro mil km. Em linha reta, a distância entre Teerã e Tel Aviv é de três mil Km. Então daria? Não, porque eles teriam que passar no espaço aéreo da Síria e do Iraque, que são países do Eixo da Resistência e isso não seria permitido. As baterias antiaéreas da Síria e do Iraque, ao detectarem aviões violando seu espaço aéreo, sabendo que eles estariam indo em direção ao Irã, eles reagiriam. Isso não aconteceria.

Assim, eles teriam que dar uma volta muito grande pelo Mar Mediterrâneo. Mas, teriam que passar pelo espaço aéreo da Turquia também. Por isso avalio como muito difícil de ser concretizado esse ataque. Mas, tudo é possível na atualidade.

As consequências políticas, caso isto venha acontecer, são incalculáveis. Por causa dos mísseis, e aí me refiro mesmo a mísseis e não simples foguetes que o Hamas faz, que são bombas de fabricação caseira. Qualquer nerd de ensino médio faz em casa, na garagem. Têm pequeno poder destrutivo. A cratera que abre no solo quando um desses cai é pouco maior do que uma bola de futebol.

Eu temo por isso e, se isso acontecer, inclusive neste momento que se encerrou a era Nethanyahu, nefasta, com mais um fascista saindo de cena com a formação de um novo governo, ainda que cheio de polêmica, cheio de contradições.

Qual é o objetivo de Israel hoje? Fazer tudo para que os Estados Unidos não voltem ao acordo nuclear, assinado pelo Obama, quando o Biden era o seu vice. Não há por que não voltar, mas eles querem discutir algumas cláusulas. Isso não está certo. Eles têm que voltar de forma incondicional. Você só pode discutir alguma cláusula de um acordo se estiver no acordo. Então, tem que voltar e tomar assento à mesa. Aí sim você levanta e apresenta sua proposta para qualquer cláusula que ache que não esteja certa.

Neste momento, o Irã não fará concessão alguma, até porque, os outros membros do acordo não estão reclamando. O acordo está em andamento e a Agência Internacional de Energia Atômica tem seus fiscais que atuam quando requisitados. Quando vai fazer o aumento do enriquecimento do urânio, o Irã comunica. O Irã cumpre o acordo.

Algumas conclusões

Vejo com otimismo a posse em agosto do novo presidente do Irã, Dr. Ebrahim Raisi. Ele reforçará o eixo da Resistência. Apoiará todas as lutas de libertação nacional e anti-imperialistas. Terá relações de amizade e de cooperação com a China e a Rússia, cujos laços serão aprofundados. Bem como com a República Bolivariana da Venezuela.

Acho que, mais dia menos dia, haverá por parte da comunidade internacional dos países, um reconhecimento e reatamento de plenas relações com o país persa, de história milenar. O Irã não quer exportar a sua revolução. O Irã quer a soberania nacional e o seu direito à autodeterminação, sem que qualquer país do mundo lhes diga o que deve ser feito. Eles sabem o que deve ser feito e o que é melhor para o Irã.

Como venho dizendo, vivemos em um mundo que caminha cada dia mais e de forma mais acelerada, para a multipolaridade, abandonando a unipolaridade advinda do fim da URSS em dezembro de 1991. Os países com governos reacionários e de direita vão caindo um a um. E isso já é possível vislumbrar na atualidade.

Notas

1. Charles-Louis de Secondat, barão de La Brède e de Montesquieu que viveu entre 1689 e 1755;

2. Reflexões sobre o Oriente Médio, para entender a Geopolítica, daquela região, Editora Apparte, 2019, 514 páginas e que pode ser adquirido a partir deste endereço: <https://bit.ly/2WLPfWT>;

3. Partigiani – Partisans. A Resistência italiana foi um movimento armado de oposição ao fascismo e à ocupação da Itália pela Alemanha Nazista, bem como à República Social Italiana – fundada por Benito Mussolini;

4. Vejam informações sobre um filme excepcional sobre esses acordos, intitulado Oslo, da HBO neste link: <https://bit.ly/3662hlO>;

5. Vejam mais detalhes dessa notícia neste link: <https://glo.bo/3qBZwCh>;

6. Maiores detalhes sobre como adquirir este livro pode ser obtidos neste link: <https://bit.ly/3hLh4cH>;

7. Na Assembleia Geral das Nações Unidas no dia 23 de junho, por uma esmagadora maioria de 184 votos pelo fim do embargo contra apenas dois votos a favor (EUA e Israel) e três abstenções (Brasil, Colômbia e Ucrânia), veja mais detalhes neste link: <https://bit.ly/3Asfzai>.

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Prof. Lejeune Mirhan é sociólogo, professor universitário (aposentado) de Sociologia e Ciência Política, escritor e autor de 14 livros, é também pesquisador e ensaísta

Irã, a história recente de uma Revolução | Lejeune Mirhan 2

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