Irã atinge Israel em Viena | Elijah J. Magnier

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Por Elijah J. Magnier

Com o início do diálogo em Viena na quinta-feira (8), ninguém esteve tão preocupado e se mexeu  tão intensamente quanto Israel, numa tentativa desesperada de impedir que os EUA e o Irã cheguem a um acordo nuclear, mesmo que esteja longe da possibilidade de ser alcançado. Tel Aviv está procurando apoio em Washington e nas capitais do continente europeu, na esperança de impedir um acordo nuclear, que, no entanto, parece ter recuperado sua velocidade em Viena.

O primeiro e mais explícito sinal veio de Israel quando o Primeiro Ministro israelense Naftali Bennett se recusou a se reunir com o enviado especial dos EUA para a questão nuclear, Robert Malley. Bennett não acredita que Malley seja o principal motivo por trás da pressão da administração dos EUA para o acordo com o Irã. Em vez disso, considera que foi o presidente Joe Biden quem nomeou Malley para seu cargo porque é o mais qualificado para chegar a um acordo com o Irã, como acredita o presidente dos EUA.

Portanto, o descontentamento do primeiro-ministro israelense é dirigido à administração dos EUA, empurrando as negociações na direção que Israel teme: fazer um acordo com o Irã. Malley havia visitado Israel, os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita e Bahrein para explicar a posição dos EUA sobre o reavivamento das negociações com o Irã através de conversações indiretas EUA-Irã em Viena para discutir o complexo caso nuclear.

Em contraste, o Ministro das Relações Exteriores israelense Yair Lapid visitou Londres e Paris para puxar esses países para a posição israelense. Tudo o que ele recebeu foi uma declaração de apoio, ao estilo inglês vazio, de que Downing Street “trabalharia dia e noite para impedir o Irã de construir uma bomba nuclear” – que o Irã não quer construir.

O mundo está convencido de que todas as operações ilegais de sabotagem no reator nuclear iraniano, as operações secretas israelenses para interromper o programa nuclear, e o assassinato de vários cientistas iranianos não impediram o Irã de atingir um nível nuclear bastante avançado. Pelo contrário, e apesar das operações, o Irã chegou a um nível nunca antes alcançado. Portanto, não ofereceu ao mundo a tranquilidade que o acordo de 2015 assegurou, que foi violado devido à falta de cumprimento ao JCPOA assinado pelos EUA e pela UE.

O general israelense Isaac ben Israel disse que, na verdade, “teve uma conversa com (P.M. Naftali) Bennet logo após sua chegada ao cargo”, o aconselhando – como ele ” recomendou a seu antecessor – a acabar com a oposição de Israel ao retorno americano ao JCPOA”.

“O esforço de Netanyahu para persuadir a administração Trump a desistir do acordo nuclear se revelou o pior erro estratégico da história de Israel”, acredita o Major General. Tem um longo histórico na Segurança Nacional como ex-chefe da Inteligência da Força Aérea, comandante da agência de projetos de pesquisa avançada da defesa de Israel e conselheiro de Netanyahu.

Por seu lado, Teerã zombou dos ataques israelenses e das sanções máximas dos EUA e fez o Presidente Donald Trump esperar meses ao telefone para que o Irã o chamasse e o visse sair da Casa Branca sem falar com ele.

Quando Biden tomou posse, o Irã acreditava que tinha tempo suficiente para voltar às negociações nucleares e adiou a menção às conversações nucleares por alguns meses. O Irã o obrigou a correr para a reunião com a chegada do Presidente Ibrahim Raisi, aumentando seu enriquecimento de urânio. Posteriormente, o país decidiu adiar a data da negociação por cinco meses antes de concordar em estar nas reuniões de Viena, impondo a data da primeira reunião e a ausência da bandeira dos EUA no salão de negociações.

O comportamento iraniano é muito provavelmente um golpe contra Israel, que queria empurrar Washington para um confronto militar com o Irã já que Tel Aviv não pode ser deixada sozinha para destruir todas as instalações nucleares iranianas. Se Israel atacar o Irã, sem dúvida, causará algumas baixas e danos a alguns locais. Entretanto, estará muito longe de destruir todo o programa nuclear. Tel Aviv sabe muito bem que as capacidades de mísseis do Irã – sem mencionar as capacidades de seus aliados – oferecem uma possibilidade excepcional de infligir danos massivos à infra-estrutura israelense. Portanto, Israel está tentando arrastar muitos países sem apetite para a guerra em uma aliança relutante. Eles não têm nenhum desejo de ir à batalha contra o Irã sem uma cobertura das Nações Unidas – especialmente sem nenhuma garantia do resultado.

Os EUA compreendem pela capacidade de resposta que o Irã não está fragilizado. Todos os ataques cibernéticos e assassinatos contra cientistas iranianos e ataques contra navios iranianos levaram o Irã mais perto do que nunca de atingir 90% do urânio enriquecido.

Além disso, o Irã está a uma “distância zero” de Israel através do aliado vital do Irã no Líbano, o Hezbollah. Portanto, qualquer guerra com o Irã e seus parceiros infligirá golpes dolorosos a Israel e aos outros países aliados dos EUA e no Oriente Médio que abrigam bases militares americanas e estão ao alcance de mísseis de precisão e drones suicidas iranianos.
Israel tentou de tudo para evitar um acordo nuclear, que ainda está longe da linha de chegada. No entanto, todas as suas tentativas fracassaram e até empurraram o mundo a ver o Irã chegar muito perto de possuir uma verdadeira energia nuclear militar. Israel não tem outra opção a não ser ir para seu cantinho lamber suas feridas. Israel deve agora aceitar que não pode mudar os fatos. Realmente, o Irã já ganhou uma rodada essencial a seu favor ao ser ele mesmo o iniciador da negociação de Viena e ao impor seu próprio ritmo e condições.

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Elijah J Magnier é correspondente de guerra veterano e analista de risco político sênior com mais de três décadas de experiência

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