Miami Connection: o Núcleo do Golpismo Latino-americano | Eder Peña

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Por Eder Peña

A cidade de Miami (Flórida, EUA) tem funcionado como um núcleo em diferentes operações de “mudança de regime” contra outros países. A partir de eventos recentes, e não tão recentes, seu enclave El Doral foi catalogado como uma espécie de bar da Guerra das Estrelas para aspirantes a “libertadores” e guerreiros de aluguel.

Sua reputação como refúgio para políticos latino-americanos acusados ou implicados em crimes de corrupção é, de certa forma, histórica, nesse sentido não há grande distinção no que diz respeito às suas nacionalidades. Desde o venezuelano Carlos Andres Perez, Jaime Lusinchi, passando por diferentes níveis hierárquicos que incluem ex-governadores, ex-ministros e até ex-presidentes, como Ricardo Martinelli do Panamá, o mais recente preso e sobre o qual se encontra pendente um pedido de extradição.

Fake news e conspirações também são forjadas em eventos públicos da ultra-direita que pedem por golpes e intervenções, como o suposto Fórum para a Defesa da Democracia nas Américas realizado em maio passado com a presença de outros ex-presidentes que estavam de passagem: Mauricio Macri (Argentina), Andrés Pastrana (Colômbia), Luis Guillermo Solís (Costa Rica) e Lenín Moreno (Equador), que acusou o presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos protestos na Colômbia, trabalhando arduamente para se estabelecer como conferencista exilado.

A lista é longa, mas não é a única atividade abrigada no território entre os Everglades e o Oceano Atlântico. Considerada uma cidade global devido a sua importância para o metabolismo especulativo do capital transnacional, aventuras anti-políticas são orquestradas porque há fundos de sobra, e se não há, são tomadas de assalto como num jogo de Monopólio com empreendimentos urbanos que servem para lavar dinheiro, de onde quer que venha.

A alta potência da máquina financeira, comercial e de mídia transformou a metrópole na “capital do Hemisfério Ocidental ao sul do Rio Grande e do Golfo do México”, como diria o jornalista e historiador T.D. Allman em seu livro Miami: A cidade do futuro. Assim, seus poderes factuais determinam as narrativas e exportam a violência, bem como os fundos, se tornando um elemento-chave na implementação de medidas coercitivas unilaterais contra outros estados.

O impacto de tais aventuras é tal que se tornaram políticas capazes de mudar o curso da história em alguns países. Vejamos alguns casos.

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ROUBO E FARSAS NA NICARÁGUA

Em julho de 2019, o colunista Nan McCurdy publicou no Grayzone que três membros da diretoria da chamada Associação Nicaraguense Pró-Direitos Humanos (ANPDH) acusaram seu ex-secretário executivo agora “exilado” na Costa Rica, Álvaro Leiva, de roubar até meio milhão de dólares do dinheiro dos contribuintes americanos de organizações de soft power dos EUA.

Estes foram fundos recebidos entre 2017 e 2019 do National Endowment for Democracy (NED), do National Democratic Institute (NDI) e da Open Society, entidades internacionais alinhadas aos processos de desestabilização dos governos de esquerda na América Latina.

Esta ONG foi fundada em Miami em 1986 sob o comando de Ronald Reagan para encobrir os abusos dos Contras durante a guerra suja da CIA contra a Nicarágua. Leiva foi ainda acusado de inflar o número de mortes durante a tentativa de golpe de 2018 de pedir mais recursos aos doadores americanos.

Também foi denunciado que a OEA, que se baseou em dados errôneos da ANPDH para instigar condenações e “sanções” contra o país centro-americano, permanece em silêncio até então.

A fim de desestabilizar tanto a política interna da Nicarágua quanto suas relações internacionais, a partir de Miami a habitual narrativa do “estado fracassado” foi instrumentalizada utilizando números inflados pela ANPDH, alegando que nos quatro meses em que a escalada violenta mascarada de protestos durou, houve mais de 400 mortes. Este número excedeu o número real, publicado pela Comissão de Verdade, Justiça e Paz, em pelo menos 150 mortes e, além disso, culpou falsamente o governo por cada morte.

Por outro lado, a única pessoa desaparecida relacionada aos eventos ocorridos entre abril e julho de 2018 foi Bismarck Martinez, um militante sandinista que foi sequestrado em 29 de junho de 2018 e encontrado assassinado em maio de 2019. A mídia mayamera escondeu os vídeos da tortura de Martínez que foram encontrados nos celulares de seus torturadores após sua prisão, mas ampliou os exageros da ANPDH em relação ao número de detentos, feridos e desaparecidos.

GIDEON, INCURSÃO FRUSTRADA NA VENEZUELA

No calor da campanha presidencial de 2020, o então candidato republicano e presidente dos EUA Donald Trump fez um discurso aos venezuelanos em Miami com o título “Make America Great Again”, um slogan da primeira campanha presidencial.

Naquele evento em fevereiro, o magnata falou por mais de uma hora afirmando que “os dias do socialismo e do comunismo estão contados, não apenas na Venezuela, mas também em Cuba e na Nicarágua”, acrescentando que  nunca seria permitido ao socialismo criar raízes no coração do capitalismo, nos Estados Unidos.

Três meses depois, em 3 de maio, embora o governo venezuelano tivesse advertido sobre a presença de campos de treinamento mercenários em território colombiano, houve uma invasão fracassada de 47 exilados venezuelanos e dois ex-membros das Forças Especiais do Exército dos Estados Unidos que foram presos e oito pessoas foram mortas.

O objetivo da Operação Gideon era capturar, deter ou remover o Presidente Nicolas Maduro, derrubar o governo e instalar o então deputado Juan Guaidó como presidente escolhido pelos Estados Unidos. A base da operação era a Colômbia, especificamente La Guajira, mas a realização do acordo que levou aos eventos ocorreu no campo de golfe do Campo Vermelho no Doral Resort.

O líder foi o ex-soldado norte-americano Jordan Goudreau, fundador da empresa de segurança privada Silvercorp USA, que então entrou com uma ação judicial de US$ 1,4 milhões contra Juan José Rendón, assessor de um esquema criminoso, chamado de “governo interino”, encabeçado por Guaidó, por quebra de contrato.

Goudreau expôs documentos nos quais demostrou que Guaidó sabia da tentativa de golpe que o teria colocado no poder, e a mídia em Miami, especialmente aqueles que não foram beneficiados economicamente pelo “governo interino”, mostrou gravações nas quais ele incentiva os mercenários, também um contrato assinado por um adiantamento de 1,5 milhões de dólares e por mais de 200 milhões que seriam arrecadados através de favores políticos.

Um participante da preparação, Hernán Alemán, declarou: “Falamos sobre o plano, uma operação tática para capturar grandes atores políticos na Venezuela que seriam entregues aos Estados Unidos”. Juan Guaidó assumiria o mandato como presidente interino, o que levaria à realização de eleições livres na Venezuela”.

Por sua vez, Goudreau financiaria a logística através de doações de pessoas físicas que colheriam recompensas financeiras em um eventual governo “transitório”.

Rendón disse à imprensa que “analisamos cerca de 22 cenários. Talvez um terço deles envolveu o uso da força”, produto de múltiplas reuniões realizadas em Miami das quais, certamente, alguns setores da administração Trump estavam cientes, depois declararam não ter conhecimento.

Além disso, Goudreau, médico, sniper, veterano do Afeganistão e do Iraque e laureado com três estrelas de bronze pelo Exército dos EUA, alegou ter se encontrado com dois assessores do governo e tinha sido contratado em fevereiro de 2019 para fornecer segurança no concerto patrocinado por outro magnata, Richard Branson.

Foi um evento musical que recebeu toda a divulgação e até mesmo comícios de apoio de Miami, mas foi realizado como uma ferramenta de pressão da mídia em Cúcuta, no lado colombiano da fronteira com a Venezuela, para que o governo venezuelano permitisse a entrada de doações humanitárias que acabaram sendo incendiadas pelos mesmos manifestantes anti-Chavez como desculpa, também fracassaram em gerar violência dentro do território nacional.

Em 2017, as autoridades americanas disseram haver desvendado uma rede que traficava ilegalmente armas daquele país para a Venezuela pelo menos desde 2013, no mês anterior o governo boliviano apreendeu 75 armas de grande calibre que saíram de Miami e entraram na Bolívia.

TRAMA MAGNICIDA NO HAITI

O cidade-portuária que abriga o maior volume de navios de cruzeiro do mundo e o maior número de bancos internacionais nos Estados Unidos também tem sido um fator chave no assassinato do presidente haitiano Jovenel Moïse, ocorrido na madrugada do dia 7 de julho.

O venezuelano baseado em Miami, Antonio “Tony” Intriago, foi o recrutador dos mercenários colombianos presos em Porto Príncipe pelo assassinato de Moïse e por ferimentos graves à sua esposa. Meios de comunicação como La Nueva Prensa revelaram sua ligação com o presidente colombiano Iván Duque no contexto do concerto em Cúcuta, do qual ambos participaram.

Intriago é proprietário de várias empresas registradas no estado da Flórida, entre elas  Somos Todos Venezuela, co-organizador do concerto, e a CTU Security (Counter Terrorist Unit Federal Academy LLC), empreiteira dos mercenários colombianos envolvidos.

Testemunhas afirmam que o empresário acompanhou Duque e Guaidó durante o evento ao qual este último chegou de mãos dadas com os líderes do grupo armado organizado narco-paramilitar Los Rastrojos, fato pouco divulgado pela imprensa cartelizada de Miami. O Cucutazo, desvio de fundos que seriam utilizados para o trabalho humanitário e para o qual a USAID ainda está fazendo questionamentos, também foi pouco divulgado.

Intriago e Duque coincidentementeestavam  em Miami durante um evento de campanha em fevereiro de 2018 quando este último era candidato presidencial; o governo venezuelano denunciou que o empresário ofereceu a CTU Security pelo contrato da fracassada Operação Gideon.

Outro personagem ligado ao golpe maia é o “ativista” colombiano Alfred Santamaría, sócio de Intriago no conselho de administração da Fundación Latino Americanos Unidos, Inc. sediada ali mesmo em Miami, que publicou fotos com Duque em suas redes sociais datadas de março passado. Ele foi candidato a prefeito da cidade, é apoiador de Martinelli (atual chefe de María Corina Machado) e alguns meios de comunicação mostraram fotos deste com Guaidó, seu ex-assessor J.J. Rendón e Álvaro Uribe Vélez.

Um dos dois haitianos americanos capturados foi identificado como James Solages, 35 anos, mora em Fort Lauderdale (Flórida), onde é diretor executivo da EJS Maintenance & Repair e dirige uma ONG. Ele trabalhou como guarda-costas chefe da Embaixada do Canadá no Haiti e, enquanto estava na Flórida, apoiou o ex-presidente Michel Martelly do Partido Haitiano Tèt kale (PHTK).

Ele também trabalhou como guarda de segurança para Reginald Boulos e Dimitri Vorbe, dois membros do que o próprio falecido presidente do Haiti chamou de “oligarquia haitiana”.

A CAMPANHA TÓXICA PERMANENTE CONTRA A CUBA

Os Estados Unidos persistem com um bloqueio ferrenho na ilha e este tem sido instrumentado a partir do sul da Flórida, juntamente com um ataque implacável de mídia e ações terroristas de intensidades variadas. A União Soviética havia oferecido a Cuba formas de contornar o bloqueio, porém, após a queda do bloco socialista, as elites americanas, encorajadas por uma oligarquia terrorista de origem cubana, atacaram a economia através da Lei da Democracia Cubana (1992) e da Lei de Liberdade e Solidariedade Democrática Cubana (1996). Os dois nomes não têm nada a ver com seus efeitos reais.

A partir de 1992, a grande maioria da Assembleia Geral da ONU votou a favor do fim do embargo nos Estados Unidos e até mesmo especialistas do Conselho de Direitos Humanos da ONU emitiram uma declaração pedindo a retirada de tais medidas, o que, além disso, tornou mais difícil a tentativa de Cuba de combater a pandemia da covid-19.

Somente em 2020, os Estados Unidos aplicaram 55 “sanções” ilegais das 243 que Trump implementou durante sua administração, todas baseadas nas leis acima mencionadas e no desejo de um colapso social para desalojar o Partido Comunista Cubano do poder. Em junho passado, o Ministro das Relações Exteriores Bruno Rodriguez denunciou perante a Assembleia Geral da ONU que só o setor da saúde foi afetado em 200 milhões de dólares entre abril e dezembro de 2020, 38 milhões a mais do que o reportado em 2019.

Apesar de Cuba ter conseguido administrar com sucesso a pandemia mantendo as taxas de infecção e morte relativamente baixas, a presença de variantes mais virulentas causou um ressurgimento de casos que sobrecarregaram a infra-estrutura sanitária. Isto exigiu o envio de pessoal de saúde de outras províncias e pedidos de solidariedade e doações.
As plataformas de mídia a serviço dos interesses coloniais, e financiadas pelas mesmas agências intervencionistas, saturaram as redes com notícias falsas e acusações contra o governo por rejeitar sua exigência de abrir um corredor humanitário ou a intervenção de organizações internacionais de saúde.

Há pelo menos dois anos, o Movimento San Isidro (MSI), ancorado no movimento cultural cubano, vem se desenvolvendo, com o apoio na Flórida, surgido de algumas revoltas artísticas que ocorreram em 2018. Devido às medidas controversas propostas pelo governo em relação ao meio cultural, os elementos já conhecidos nas tentativas de golpes suaves foram moldados. As mesmas encenações, os mesmos “ativistas” (artivistas, neste caso) que “desaparecem” quando são presos por violar a lei, simbolismos, canções, fake news, mais canções, superexposição de manifestações direcionadas….

Outra grande protagonista da mais recente onda colorida é uma ONG: Unión Patriótica de Cuba (Unpacu), fundada por José Daniel Ferrer García e financiada em 2011 pela Fundação Nacional Cubano-Americana com sede em Miami.

Vários músicos residentes naquela cidade, participaram de uma operação mista de marketing de discos e propaganda política que tomou a forma de uma canção chamada “Patria y Vida” (Pátria e Vida), na qual também participam membros do MSI que vivem em Cuba.

Um agente de mídia chamado Alex Otaola é quem determina e aponta a qualidade contra-revolucionária de um artista em Miami, portanto, depois de cada vez que um artista é apontado, ele deve decidir se o mesmo deve ceder às pressões ou desaparecer da cena midiática. Isto acontece na cidade onde os gostos e a moda artística do mercado cultural de língua espanhola são determinados “em nome da liberdade”.

O colunista José Manzaneda conta como Otaola conseguiu coagir artistas como a dupla Gente de Zona, que cumprimentou o presidente cubano Miguel Díaz-Canel durante um concerto em Havana. Eles foram vetados pelo prefeito de Miami em um concerto de Ano Novo e perderam sua dupla residência em Miami e Havana.

Outro artista coagido foi o compositor Descemer Bueno, que elogiou a cooperação médica cubana e condenou o bloqueio de seu país pelos Estados Unidos. Por estas duas razões Otaola conseguiu boicotar seus concertos em Miami. Embora Bueno tenha resistido e levado o  colunista ao tribunal, ele foi derrotado e acabou cedendo.

Em outubro passado, Otaola deu a Trump uma “lista vermelha” de cubanos a serem impedidos de entrar no país, no meio do processo de extorsão alguns deles parabenizaram sua luta pela “liberdade de Cuba”.

Outros ativistas do MSI que vivem em Cuba, como Denis Solis Gonzalez, reconheceram ligações com terroristas de Miami, como Jorge Luis Fernandez Figueras, acusado pelo sistema de justiça cubano de pertencer ao grupo paramilitar Lone Wolves (Lobos Solitários). Maykel Osorbo não seguiu a linha de que a canção é um apelo à paz e declarou que é “um hino de guerra”, além de declarar: “Sou a favor agora mesmo de uma invasão”. Você vai invadir Cuba? Venha pra cá.

Enquanto dentro e fora dos Estados Unidos a poderosa mídia cartelizada silencia as diversas organizações e entidades que pedem o fim do bloqueio, os artistas a serviço desses meios de comunicação viajam para países como a Espanha, onde elogiam sua “liberdade de expressão”, embora não se faça menção aos rappers presos em outras latitudes, como o catalão Pablo Hasel.

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Éder Penã é biólogo venezuelano formado pela UCV. Atualmente integra do grupo científico do Instituto Venezuelano de Pesquisa Científica em metais em plantas, agroecologia política e dinâmica nutricional em agroecossistemas

Originalmente em Misión Verdad

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