Moçambique: Terror, Martírio e Morte. Em nome de Deus? | Antônio Caubí Ribeiro Tupinambá

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Por  Antônio Caubí Ribeiro Tupinambá

A província de Cabo Delgado localizada a Nordeste de Moçambique tem 17 distritos e cinco municípios; Pemba é sua capital portuária que desfruta o título de terceira maior baía do mundo. A província também é rica em gás em um país que contabiliza uma das maiores reservas mundiais desse recurso natural. Cabo Delgado faz fronteira a norte com a Tanzânia, dela separada pelo rio Rovuma, a oeste com a província do Niassa e a sul com a província de Nampula, na margem posterior do rio Lúrio, que deságua no Oceano Índico. Cabo Delgado.  além das grandes reservas de gás natural, possui petróleo na Bacia do Rovuma. Durante a guerra de libertação de Moçambique contra o colonialismo de Portugal, Cabo Delgado foi um bastião da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique). Nos dias de hoje, a província passou a frequentar os noticiários não por sua riqueza natural, mares de água cristalina, diversidade marinha que convidam principalmente europeus a visitar um outro lado de um paraíso quase desconhecido com mares azuis tocando um céu de anil, também um convite para os amantes do mergulho e da pesca. Desta feita o que motiva a província a estampar manchetes do noticiário internacional são doutra natureza e muito graves. A província de Cabo Delgado vem sofrendo, há três longos anos, uma guerra provocada por agentes malignos de além fronteiras e estranhos a sua vida e cultura.

Adeptos ao Estado Islâmico levam a Cabo Delgado suas ações de escárnio e terror, destruindo qualquer rastro do que se preservou de cultura autóctone e, apesar dos desmandos coloniais, do que se atingiu de civilidade humana em terras já tão castigadas pelas brutais ações de pilhagem dos invasores europeus. Recuperando-se desse rastro de destruição do passado colonial e ainda buscando a reconstrução nacional, o país sofre reveses em sua caminhada para o futuro sonhado de independência e autoafirmação por conta da ingerência bélica e prática do terror do Estado Islâmico  (E.I.) em suas terras.  As inimagináveis atrocidades do E. I. contra o país irmão Moçambique beiram a catástrofe e desafiam qualquer julgamento sobre onde pode chegar a maldade humana.  Desta feita os infames ataques terroristas atingiram as aldeias da província de Cabo Delgado. Um fato recente: o grupo terrorista atacou disparando sua artilharia contra a população local e incendiou muitas de suas casas. O quadro de terror é abominável: os testemunhos relatam várias decapitações e violações de mulheres. “Os atacantes gritaram “Allahu Akbar” (Alá é grande) antes de dispararem”[1].Mas o que pode haver de “grande” no ato de estuprar mulheres e matar pessoas inocentes? O que há de humano em tamanha barbárie? Qual religião aceitaria essas práticas de destruição e crueldade?

Mas não para por aí o rol de atrocidades. Os atos chegaram  ao ponto mais alto do macabro para assinalar os ditames da disfunção religiosa desses algozes e para anunciar ao mundo o grau de fanatismo dos jihadistas. Ao transformarem um campo de futebol em campo de extermínio e continuarem sua sanha de degenerados assassinos, o feito macabro culmina com a decapitação de meia centena de pessoas. Sua desumanidade é  coroada por essa prática medieval para que a marca indelével dos seus demônios fosse identificada e não permitisse ser ultrapassados nem pelos piores crimes de guerra já praticados contra a humanidade. Os jihadistas do Estado Islâmicos em ação em Moçambique se juntam, em perspectiva histórica, aos contra-exemplos de destruição e barbárie: Hitler,  Pol Pot, Suhato… Deixam-se, voluntariamente, se contaminar pelo veneno da pseudo-religião que querem impor para continuar destruindo e matando, negando qualquer fio de humanidade que lhes pudesse restar. Atos que se repetem face à impotência do governo moçambicano em frear a catástrofe islamita/jihadista. Surpreendem as populações com seus ataques e tentam recrutar jovens locais para seus exércitos de perversos e dessa forma, compulsoriamente, aumentar sua influência islâmica na região. Mais de 2.000 pessoas já foram assassinadas e centenas expulsas das suas casas por esses grupos fanáticos. O que precisa mais acontecer para que a ajuda internacional se una às forças moçambicanas em combate aos assassinos travestidos de religiosos? A simples, apesar de veemente, condenação do Secretário Geral da ONU sobre os ataques terroristas não é suficiente para dete-los. Há de se pensar estratégias de defesa incisivas para levar à região e combater de fato o exército de fanáticos, única linguagem que os bárbaros do Estado Islâmico reconhecem e pela qual podem ser intimidados e contidos em suas investidas contra o que nos resta de civilização.  A Anistia Internacional (AI) defendeu a criação de um mecanismo internacional independente para lidar com os crimes e violações de direitos humanos em Moçambique e criticou a inação da comunidade internacional face aos graves fatos ocorridos. “Há demasiado tempo que a comunidade internacional tem ignorado os horrores que acontecem em Cabo Delgado, e os nossos alertas sobre responsabilização pelos crimes chocantes ao abrigo da lei internacional e violações de direitos humanos, incluindo tortura, desmembramentos e execuções extrajudiciais têm sido ignorados pelas autoridades moçambicanas”.[2]

Donde provém estas forças malignas para o território de Moçambique? No caso específico de Cabo Delgado chegou a ser detido no passado recente um grupo de 12 iranianos em apoio ao terror jihadista. Iranianos que transportavam, numa embarcação, armamentos pesados na baía de Pemba foram detidos e feitos prisioneiros por suas ações de envolvimento com o terrorismo. Ainda há muito o que se descobrir sobre lideranças e origens desses grupos terroristas e jihadistas para que se evite seu crescimento e a consequente matança e recrutamento forçado do povo moçambicano seja freada. Uma crise humanitária naquele país está sendo moldada pelos canos de fuzis dos jihadistas a poucos palmos da visão das autoridades de Maputo e da ONU.

O terror  jihadista deve ser combatido  pois só dessa forma se frustará o gozo que têm ante a entrada do reino dos mortos que se acumulam por onde passam deixando, como uma Medusa, suas vítimas desfiguradas e inertes adornando esse covil.

Apesar dos massacres por grupos armados já durarem mais de três anos e a província de Cabo Delgado ter sido rapidamente dominada pelo medo e terror, a maior parte do mundo continua desconhecendo e indiferente aos que lá vivem e tentam escapar dos ataques. Dominados pelos terroristas, seus habitantes fogem para as matas e não conseguem retornar e sequer velar os seus mortos que ficaram para trás. Como diz o bispo[3] da província, é um verdadeiro martírio o que vive a população de Cabo Delgado.

Notas

[1] Grupo do Estado Islâmico decapitou mais de 50 pessoas em Moçambique. Disponível em: <https://observador.pt/2020/11/10/grupo-islamico-decapitou-mais-de-50-pessoas-em-mocambique/>. Acesso em novembro de 2020.

[2] Cabo Delgado: ONG defende mecanismo internacional independente contra a violência. Disponível em: <https://www.plataformamedia.com/2020/11/12/cabo-delgado-ong-defende-mecanismo-internacional-independente-contra-a-violencia/>. Acesso em: novembro de 2020.

[3] Salcedas, R. “Martírio” em Cabo Delgado sem fim à vista: 50 decapitados em campo de futebol. Disponível em: <″Martírio″ em Cabo Delgado sem fim à vista: 50 decapitados em campo de futebol

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Antônio Caubí Ribeiro Tupinambá é pós-doutor e professor titular da Universidade Federal do Ceará (Brasil) e integrante do PÓLIS – Estudos em Psicologia Política – UFC

Originalmente em  PÓLIS – Estudos em Psicologia Política – UFC

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