Nossas vidas entre as capas dos frenéticos anos vinte | Pepe Escobar

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Por Pepe Escobar

Acabo de publicar um novo livro, Raging Twenties: Great Power Politics Meets Techno-Feudalism (Os Frenéticos Anos Vinte: A Política da Grande Potência encontra-se com o Tecnofeudalismo). Para os que não usam a Amazon, aqui vai um mini-guia sobre como encomendar e comprar o livro.

A jornada de um livro encontrando seus leitores é um processo sempre idiossincrático, misterioso e fascinante. Para montar o cenário, permitam-me uma curta apresentação tirada da introdução do livro.

Os Frenéticos Anos Vinte começaram com um assassinato: um ataque de míssil contra o General Soleimani no aeroporto de Bagdá, em 3 de janeiro. Quase que simultaneamente, essa letalidade geopolítica foi amplificada quando um vírus dirigiu seus mísseis microscópicos contra toda a humanidade.

Desde então, foi como se o tempo houvesse parado – ou implodido. Não conseguimos ainda nem começar a imaginar as consequências da ruptura antropológica causada pelo SARS-CoV-2.

Ao longo de todo esse processo, a linguagem vem se metastizando, fazendo brotar toda uma nova cesta de conceitos. Interruptor de circuito. Biosegurança. Ciclos de feedback negativo. Estado de exceção. Necropolítica. Novo brutalismo. Novo paradigma viral.

Essa nova terminologia confere com os contornos de um novo regime, na verdade um modo híbrido de produção: o turbocapitalismo reformulado como capitalismo rentista 2.0, onde os gigantes do Vale do Silício tomam o lugar dos estamentos, e também do Estado. Essa é a opção tecnofeudal, tal como definida pelo economista Cedric Durand.

Esmagados e intoxicados pela informação desempenhando o papel da dominatrix, fomos apresentados a um novo mapa da Distopia – embalada como o “novo normal”, trazendo a dissonância cognitiva, um paradigma de biossegurança, a inevitabilidade do trabalho virtual, o distanciamento social como programa político, a infovigilância e o triunfante transhumanismo.

Um choque sanitário se sobrepôs ao choque econômico em curso – onde a financialização sempre tem precedência sobre a economia real.

Mas então, um vislumbre de um futuro cor-de-rosa foi oferecido, prometendo um “capitalismo mais inclusivo”, na forma de um Grande Reset projetado por uma minúscula oligarquia plutocrática devidamente autodesignada como os Salvadores.

Todos esses temas são desenvolvidos ao longo dos 25 capítulos deste livro, interagindo com o grande tabuleiro geopolítico.

A SARS-CoV-2 só fez acelerar o que já vinha acontecendo, como a transferência do centro de poder do mundo para a Ásia.

Desde a Segunda Guerra Mundial, grande parte do planeta tem vivido como meros dentes de engrenagem de um sistema tributário, onde o hegêmona, incessantemente, transfere riqueza e influência para si mesmo – por intermédio daquilo que o analista Ray McGovern descreve como o SS – security state, o estado de segurança, colocando em vigor a vontade do complexo MICIMATT (militar-industrial-parlamentar-serviços de inteligência-mídia-academia-think-tanks).

Esse sistema mundial está se dissolvendo irrecuperavelmente – principalmente em razão das interpolações da parceria estratégica Rússia-China. E esse é o outro grande tema deste livro.

Como uma proposta para escapar a nosso show excessivamente hiper-realista, este livro não oferece receitas, e sim trilhas: configurações onde não há plano-diretor, mas múltiplas entradas e múltiplas possibilidades.

Essas trilhas interligam-se em rede a uma narrativa do surgimento de uma possível configuração, no artigo-âncora intitulado Eurasia, the Hegemon and the Three Sovereigns (Eurásia, o Hegêmona e os Três Soberanos).

Em um diálogo contínuo, teremos Michel Foucault conversando com Lao Tzu, Marco Aurélio conversando com Vladimir Putin, a filosofia conversando com a geoeconomia – o tempo todo tentando desativar a interação tóxica da Nova Grande Depressão com as variações da Guerra Fria 2.0. Com a exceção do ensaio-âncora, trata-se de uma série de colunas, organizadas cronologicamente, originalmente publicadas aqui no Asia Times e também no Consortium News/Washington D.C. e no Strategic Culture/ Moscou, amplamente traduzidos e republicados por todo o Sul Global.

Tudo isso vindo de um nômade global. Desde meados da década de 1990, vivo e trabalho (principalmente) entre o Oriente e o Ocidente. Com exceção dos dois primeiros meses de 2020, passei a maior parte dos Frenéticos Anos Vinte em terras budistas.

Vocês, portanto, sentirão nessas palavras um aroma inescapavelmente budista, embora, em muitos aspectos, ainda mais taoísta e confucionista. Na Ásia, aprendemos que o Tao a tudo transcende ao oferecer serenidade. Há muito que podemos aprender com o humanismo taoísta, sem a necessidade de qualquer metafísica.

O ano de 2021 talvez seja ainda mais feroz que o de 2020. Mas nada nos condena a nos perdermos em uma selva de espelhos enquanto, como Pound escreve:

um espalhafato vulgar/ reinará por todos os nossos dias.

O “segredo” oculto deste livro talvez seja mesmo um anseio – o de que sejamos capazes de reunir nossa força interior e escolher uma trilha taoísta para cavalgarmos a baleia.

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Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

Tradução de Patricia Zimbres, para o Brasil 247

Originalmente em Asia Times

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