Novos cenários exigem novos roteiros | Eduardo Vior

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Por Eduardo Vior

No encerramento da cúpula do G7 no Reino Unido, o Presidente Joe Biden declarou triunfantemente no domingo que “a América está de volta à mesa”. O  idoso presidente deixou Cornualha no domingo para Bruxelas, onde se dirigiu à conferência anual da OTAN na segunda-feira, e de lá seguiu para Genebra, Suíça, onde se encontra com seu homólogo russo Vladimir Putin nesta quarta-feira (16).

Os estrategistas americanos esperam com esta viagem recuperar um elo fluido com a diplomacia européia, afirmar sua liderança e, se possível, atrair a Rússia para uma “coexistência pacífica” sem a China. Por via das dúvidas, eles já estabeleceram uma nova “aliança atlântica” com o Reino Unido, imitando a que foi assinada em 1941 entre Roosevelt e Churchill. Os americanos propõem ao Kremlin reverter os termos da segunda fase da Guerra Fria: se à época se aliaram à China (a viagem de Nixon a Pequim em 1972), para isolar a União Soviética, agora querem estabelecer com a Rússia uma cooperação que marginalize a República Popular. Estão repetindo as táticas britânicas dos séculos XIX e XX, sem se darem conta de que o cenário mudou. Uma estratégia correta não pode emergir de uma avaliação equivocada da realidade.

No final da cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em sua sede em Bruxelas na segunda-feira, os chefes de Estado e de governo presentes acordaram a agenda “Otan 2030”, uma iniciativa global para assegurar que a aliança esteja preparada para enfrentar os desafios do futuro. De acordo com a agenda, a OTAN intensificará a consulta política e a resiliência da sociedade, fortalecerá a defesa e a dissuasão, intensificará a vantagem tecnológica e desenvolverá seu próximo conceito estratégico a tempo para a cúpula de 2022.

Os líderes também tomaram decisões sobre as mais novas áreas operacionais: o ciberespaço e o espaço. O bloco concordou com uma nova política de defesa cibernética a este respeito, que deve assegurar que o bloco tenha fortes capacidades técnicas, consultas políticas e planejamento militar para “manter nossos sistemas seguros”. Sobre a Rússia, os líderes da OTAN disseram que estavam abertos a um diálogo político, mas se mantiveram “claros” quanto aos desafios que isso supostamente representa.

Em sua declaração sobre a situação internacional, eles disseram que a China representa “um risco de segurança”. O comunicado final afirma que as “ambições declaradas e o comportamento assertivo da China apresentam desafios sistêmicos para a ordem internacional baseada em regras”. A OTAN também adverte que está “preocupada” com as “políticas coercitivas” da China, a expansão de seu arsenal nuclear e sua “frequente falta de transparência e uso de desinformação”.

Nunca antes a China havia sido mencionada desta forma e com esta centralidade. No entanto, o resumo publicado pela agência oficial de notícias Xinhua não menciona os parágrafos mais agressivos do comunicado e relativiza sua importância dizendo que “quando se trata da China, as opiniões e interesses dos aliados europeus são diferentes dos de Washington. Após a cúpula, a chanceler alemã Angela Merkel disse que a decisão da OTAN de nomear a China como um desafio “não deve ser exagerada” porque a China, como a Rússia, também é um parceiro em algumas áreas”.

Por sua vez, o presidente russo Vladimir Putin reiterou domingo, durante uma entrevista com a emissora americana NBC, a necessidade de “previsibilidade e estabilidade” nas relações entre a Rússia e os Estados Unidos. Durante a tensa conversa em que o presidente repreendeu o jornalista por interrompê-lo várias vezes, Putin comentou sobre as acusações de Washington de que hackers russos perpetraram ataques cibernéticos nos EUA e os descartou como uma “farsa”. Neste contexto, Putin exortou Washington e Moscou a unir forças na luta contra o crime cibernético. O presidente também declarou que está aberto a uma troca de prisioneiros entre os dois países.

A cúpula entre os dois presidentes está sendo realizada a pedido dos americanos, depois que a Rússia, com um destacamento impressionante de tropas nas fronteiras da Ucrânia, colocou um claro limite à provocação britânica e ucraniana, cujo presidente, Volodymyr Zelensky, pretendia recuperar a Crimeia e o leste do país. Esse foi o ponto decisivo: Biden chamou Putin e propôs “uma reunião de cúpula em um terceiro país nos próximos meses para discutir toda a gama de questões que os Estados Unidos e a Rússia enfrentam”.
Segundo a Casa Branca, a reunião deve servir para iniciar uma discussão sobre “uma série de questões regionais e globais, incluindo um diálogo estratégico de estabilidade sobre controle de armas”.

A cúpula acontecerá em um momento em que as relações entre Moscou e Washington “se deterioraram até seu ponto mais baixo nos últimos anos”, disse Putin. O Ministro das Relações Exteriores russo Sergey Lavrov havia dito anteriormente que não tinha ilusões de que haveria um avanço em Genebra. No entanto, ambos os lados esperam que a reunião tenha um resultado positivo e que uma ampla gama de questões seja discutida.

Durante seu discurso no Ciclo de Conferências Primakov, um fórum internacional em homenagem ao ex-Primeiro Ministro russo e diplomata proeminente Yevgeny Primakov, o Ministro das Relações Exteriores russo disse na quarta-feira (9) que Moscou e Washington estão conduzindo “contatos bastante intensos” sobre estabilidade estratégica.

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“Francamente falando, observou, somos a favor de um enfoque integral, para levar em conta no diálogo com os EUA todos os fatores que afetam a estabilidade estratégica”. E especificou que isto inclui armas nucleares e não nucleares, ofensivas e defensivas.

Ao mesmo tempo, durante a cúpula de Moscou pretende lembrar aos EUA a proposta russa de uma moratória sobre o lançamento de foguetes de médio e curto alcance na Europa, bem como as medidas de verificação sugeridas. “Nós os convidamos a visitar a região de Kaliningrado e ver com seus próprios olhos os mísseis Iskander e, em troca, queremos que nossos especialistas visitem bases de defesa antimísseis [dos EUA] na Romênia e na Polônia “, explicou Lavrov.

Lavrov também lembrou que em setembro do ano passado Vladimir Putin propôs aos EUA “medidas práticas” para restaurar a cooperação entre os dois países no campo da segurança no uso das tecnologias de informação e comunicação. Na mesma linha, nesta terça-feira (15) o Vice Ministro das Relações Exteriores Sergey Riabkov sugeriu que um dos resultados da cúpula poderia ser o retorno dos embaixadores russo e americano respectivamente a Washington e Moscou de onde foram retirados em março passado.

Por sua vez, Joe Biden anunciou que pretende reclamar em particular sobre as violações dos direitos humanos. Ele também planeja abordar a suposta interferência russa nas eleições americanas, bem como os supostos ataques cibernéticos à infra-estrutura americana. Entretanto, o presidente dos EUA disse domingo que está “aberto” à proposta de Putin de entregar criminosos cibernéticos aos EUA se Washington fizer o mesmo com aqueles que atacam a Rússia a partir das redes.

O presidente americano também espera trabalhar em conjunto com a Rússia “em termos de alguma doutrina estratégica” e em questões relacionadas ao clima, disse ele. Espera-se também discutir a cooperação econômica.

Anteriormente, o Kremlin informou que os líderes planejam discutir o status e as perspectivas para o desenvolvimento das relações entre a Rússia, incluindo a luta contra a pandemia do coronavírus e a resolução de conflitos regionais.

Na semana passada, o Presidente Putin havia observado que entre os principais objetivos da Rússia para a cúpula estão a restauração dos contatos pessoais e o diálogo direto, bem como a criação de mecanismos de interação que realmente funcionem.

O maior influenciador para que Biden esteja adotando uma posição sensata é o chefe da CIA William Burns, que tem ampla experiência em lidar com a Rússia. Quando a administração de George W. Bush planejava tornar a Ucrânia e a Geórgia membros da OTAN em 2008, ele foi embaixador em Moscou. Em 1º de fevereiro de 2008, em um telegrama para Washington após uma reunião com o Ministro das Relações Exteriores russo Sergei Lavrov, o diplomata resumiu corretamente a posição russa sobre o assunto com o título “NYET MEANS NYET: RUSSIA’S NATO ENLARGEMENT REDLINES” (Nyet significa nyet: a linha vermelha dos russos contra a ampliação da OTAN). A fina e experimentada mão do agora diretor da CIA é perceptível no “Annual U.S. Intelligence Community Threat Assessment 2021”, lançado no início de abril, um relatório notavelmente equilibrado e franco sobre como Moscou vê as ameaças à sua segurança.

A Rússia não quer um conflito direto com as forças dos EUA, mas denuncia que os EUA vêm tentando há anos minar a Rússia, enfraquecer o presidente Vladimir Putin e instalar regimes pró-ocidentais nos estados da ex-URSS. É por isso que o Kremlin está buscando um acordo com Washington sobre a não-interferência mútua nos assuntos internos de ambos os países e o reconhecimento das esferas de influência um do outro.

Infelizmente, o realismo de Burns se opõe ao simplismo ideológico do Secretário de Estado Blinken. Em Washington há muitos burocratas ideologizados e mercadores da morte interessados no fracasso da cúpula. Até que os dois presidentes e seus conselheiros se encontrem e descubram um tom sensato e realista, não há certeza de que a reunião servirá para reduzir as tensões.

Reunindo-se em Genebra, Joe Biden e Vladimir Putin têm a chance de retomar um diálogo estratégico entre as duas potências que nunca deveria ter sido abandonado, mas para que eles possam embarcar neste caminho, os EUA devem parar de tentar separar a Rússia da China. O velho jogo britânico dos séculos XIX e XX serviu aos ocidentais para dominar a Eurásia, colonizar a China e ameaçar a unidade da Rússia, mas agora a situação mudou completamente: a aliança entre Moscou e Pequim é indestrutível, se aprofundando e se ampliando a cada dia. Entre os séculos XIII e XV, quando o Império Mongol unificou a maior massa continental do planeta, a Eurásia fala a uma só voz e as potências marítimas foram deixadas de lado. Esta é a nova realidade que enquadra a reunião de quarta-feira. Se os americanos deixarem de ouvir os britânicos e aceitarem a realidade, há uma boa chance de que eles sejam capazes de estabelecer regras de coexistência mutuamente benéficas com a Rússia. Se, ao contrário, insistem em aplicar esquemas ideológicos da Guerra Fria ou do período de expansão colonial, esbarrarão em janelas fechadas em um contexto no qual não são mais o único poder dominante. Novos desafios exigem novas soluções, mas para encontrá-las é necessário ater-se à realidade e esquecer as ideologias.

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Eduardo Vior é cientista político argentino

Originalmente em infobaires24.com.ar

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