O atraso como projeto | Fabio Sobral

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Por Fabio Sobral

Segue o processo de transformação do Brasil em economia fundamentalmente exportadora de produtos agropecuários, de extração mineral e vegetal. Talvez o correto fosse afirmar que não é uma transformação, mas um retorno.

Somos empurrados de volta a uma economia primário-exportadora. Uma economia com baixíssima capacidade de inovação, pesquisa e descoberta. Afinal, não é possível retroceder no tempo sem pagar um tributo ao atraso. É inevitável.

E o pior é que esse caminho é trilhado como se fosse a expressão do sucesso. Há recordes de exportações dos setores de petróleo bruto, minério de ferro, carne e soja; “commodities”. É estranho que o retrocesso esteja com os trajes do sucesso.

Ao mesmo tempo os setores industriais reclamam que a economia brasileira enfrenta a terceira pior taxa de importação por parte dos outros países. Sobretaxas sobre os produtos manufaturados. Só estamos em melhor situação que a Argentina e a Índia. O Ministério da Economia segue a desastrosa política de diminuir taxas dos produtos importados unilateralmente, sem pedir nada em troca dos outros países.

A economia cresce em um setor que cada vez emprega menos gente, o agronegócio. A modernização da produção dispensou mão de obra e foi automatizada. Um ar de modernidade parece dominar esse setor.

Porém, a tecnologia da mecanização, as máquinas, os sistemas de satélites, as sementes, softwares são predominantemente importados. As exportações crescem, mas as importações do setor apresentam um vazamento de recursos e com pouca capacidade de gerar dinâmicas locais. Uma modernidade fictícia, dominada pela dependência, com baixa taxa de geração de empregos e renda extremamente concentrada.

O desemprego cresce em meio aos recordes de exportação de “commodities”. A renda média familiar está abaixo do valor legal do salário mínimo. A fome atinge 19 milhões de brasileiros.

Há um modelo sendo produzido. Não é um acaso. As políticas governamentais estão direcionadas para atingir esse fim. O atraso se tornou o objetivo. O “projeto” é o de um Brasil como uma enorme sucessão de fazendas e minas. Um Brasil rural, onde não há espaço para os brasileiros.

Fábio Sobral é membro do Conselho editorial de A Comuna e professor de Economia Ecológica (UFC)

Originalmente em Diário do Nordeste

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