O avanço militar sobre o poder agrava a crise nos EUA | Eduardo Vior

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Mesmo que Bob Woodward enalteça o chefe das forças armadas como o salvador da democracia e da paz, Mark Milley violou a Constituição e representa um risco para seu país e para o mundo.

Por Eduardo Vior

Diante do impasse hegemônico entre continentalistas e globalistas, a atividade política e diplomática do General Marc Milley, presidente do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos EUA, representa um grave perigo para a democracia em seu país e para a paz no mundo. O aparecimento do último livro de Bob Woodward, Perigo (Peril), é mais um sinal do alarmante avanço autoritário que está se desdobrando diante de nossos olhos. Quando o senhor da guerra militar encontra um poeta para cantar seus louvores (hoje, um jornalista), deve estar em busca do poder imperial.

O chefe das Forças Armadas americanas se reuniu com seu homólogo russo na quarta-feira (22) para tentar suavizar a rejeição de Moscou a que os EUA use bases militares em países fronteiriços ao Afeganistão, supostamente para combater o terrorismo. A reunião aconteceu 40 quilômetros ao norte da capital finlandesa entre o General Mark Milley, Chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, e o Chefe do Estado-Maior russo Valery Gerasimov. Milley se recusou a dar detalhes da reunião aos repórteres que viajaram com ele, mas até agora não há indicação de qualquer progresso.

A reunião faz parte da diplomacia paralela que o General Milley tem conduzido desde que assumiu o comando conjunto em 2019 e que Bob Woodward, o principal jornalista do Washington Post, exalta tanto em seu último livro. Perigo é o terceiro livro que Woodward dedicou à administração de Donald Trump. Em 2018 publicou Medo (Fear) e em 2020, Fúria (Fury). Mas neste último mudou de assunto e o dedicou aos elogios do alto chefe militar.

Woodward tem um estilo próprio, que ele aplica sem nuances em todos os seus livros e que poderia ser apelidado de “Woodwardiano”. O principal herói de Peril é o General Mark Milley, que é apresentado como o guerreiro-salvador que manteve o mundo em paz durante os arroubos mais turbulentos de Donald Trump. Milley exagera e Woodward comemora.

O volume, co-escrito com Robert Costa, se espraia sobre o establishment militar. Quando o novo presidente do Estado-Maior Conjunto foi nomeado em 2018, Donald Trump se impôs sobre o Secretário de Defesa Jim Mattis, que queria nomear um oficial da Força Aérea, e colocou Milley no cargo. O presidente ficou impressionado com a sua força de vontade e suas medalhas. No cargo, o general poderia ter trabalhado no anonimato, mas em 1 de junho de 2020, após a morte de George Floyd, Trump usou a polícia para remover os manifestantes do caminho para que ele pudesse tirar sua foto com uma Bíblia em frente à Igreja de St. John, en Washington. O chefe militar recebeu muitas críticas por estar ao lado do presidente e usar uniforme de campanha, mas, de acordo com ele, foi ali que percebeu que Trump era muito perigoso. Com esta versão, Milley justifica sua reviravolta política no período que antecedeu as eleições.

Em dezembro de 2020, após o presidente ter perdido a eleição, Trump demitiu o Secretário de Defesa, tentou colocar um novo diretor da CIA e pôs alguém como conselheiro geral da Agência Nacional de Segurança. Vendo que Trump estava se preparando para permanecer no poder pela força, Milley começou a se preocupar com o uso de armas nucleares pelo presidente. Então convocou altos funcionários para rever os procedimentos e os lembrou que, enquanto o presidente dá as ordens de marcha, a política sobre isso exige que ele (Milley) também seja consultado. Então pediu que cada oficial afirmasse que assim entendia, o que, segundo Woodward, Milley considerou “um juramento”.

Na mesma época, o General Milley também chamou seu homólogo na China para tranquilizá-lo sobre o estado do país após 6 de janeiro e as eleições. Preocupado que Trump pudesse lançar um ataque nuclear contra a China, contatou o General Li Zuocheng, chefe do Departamento de Estado-Maior Conjunto da Comissão Militar Central, para dizer-lhe que se Trump preparasse um ataque contra a China, ele lhe daria muitos avisos. Perguntado pela Associated Press sobre o tema, disse que as chamadas eram “rotineiras” para “tranquilizar tanto aliados quanto adversários”, mas se recusou a dar mais detalhes, remetendo suas respostas ao depoimento que ele deve dar ao Congresso em 28 de setembro.

Neste livro e em outros relatos recentes Milley se apresentou como o salvador da democracia, mas, se for verdade, estas revelações sobre seu chamado ao chefe chinês representam uma grande ruptura nas relações civil-militares no mais alto nível. Como presidente do Estado-Maior Conjunto, Milley é apenas um conselheiro do Presidente. Embora seja o oficial militar mais graduado e responsável por comunicar as intenções do presidente a outros comandos superiores, ele não é responsável pela execução da política ou estratégia militar, incluindo o lançamento de armas nucleares.

Em segundo lugar, estabelece um precedente potencialmente perigoso para futuros líderes militares.

Finalmente, as ações de Milley provavelmente politizarão ainda mais um exército já submetido a uma grande tensão. Os líderes militares estão se identificando cada vez mais com um partido político, expressando abertamente sentimentos partidários e menos freqüentemente obedecendo às normas estabelecidas. Os líderes políticos também têm utilizado cada vez mais os militares para promover suas agendas partidárias. Novas acusações de que o chefe de Estado Maior procurou minar a autoridade presidencial irão acelerar a politização das forças armadas.

Qualquer pessoa minimamente informada na capital dos EUA lê o Washington Post como órgão oficial da CIA e Bob Woodward como seu chefe de propaganda há quase 50 anos. No livro, todos os ataques democratas contra Trump são condensados: narcisista, paranoico e um golpista. Mas quando o escriba exalta o Presidente do Estado-Maior Conjunto como o salvador da democracia e da paz mundial, e esse salvador não apenas desobedeceu às ordens do presidente, mas também cuidou para que o livro fosse publicado e continuasse a ser o comandante supremo das forças armadas apesar da mudança de governo, isso significa que essa pessoa é o membro mais poderoso do estado norte-americano. Certamente existem outros mais poderosos no mundo empresarial, mas ele comandou todas as tropas do país e violou seus deveres constitucionais. Quem é então o golpista? A imagem do ex-presidente como golpista não teria sido assim construída para esconder um golpe de estado que está sendo executado passo a passo? O que sabemos sobre a conspiração que preparou, executou e explorou os ataques de 11 de setembro nos aconselha que pensemos mal, se quisermos estar certos em nosso julgamento.

Marc Milley nasceu em Winchester, Massachusetts, em 1958, e é católico. Em 1980 formou-se em política na Universidade de Princeton com uma tese sobre “Uma análise crítica das organizações guerrilheiras revolucionárias na teoria e na prática”. Em outras palavras, já estava preocupado com os problemas da “guerra anti-subversiva”.

Milley também tem um mestrado em relações internacionais pela Universidade de Columbia e outro em segurança nacional e estudos estratégicos pela Escola de Guerra Naval, passou a maior parte de sua carreira em missões de infantaria e ocupou vários cargos de comando e pessoal em oito divisões e forças especiais durante os últimos 39 anos. Ele participou de operações no Panamá (1989), Haiti (1994), Bósnia-Herzegovina (1995), Iraque (2003) e três no Afeganistão (2001-2021). Em 2015, se tornou Chefe do Estado-Maior do Exército, que manteve até se tornar Chefe do Estado-Maior Conjunto em 2019. Típico de sua geração de oficiais, ele adere aos princípios tecnocráticos da reforma das forças nos anos 2000: recrutamento-teste-aquisição. Ele abandona os procedimentos cuidadosos, até demorados, de outrora e se move para incorporar tecnologia que só recentemente foi provada no campo de batalha. A alternativa ideal para se gastar muito dinheiro em equipamento inútil.

Mark Milley é uma personalidade medíocre, um tecnocrata que responde mais às necessidades da grande indústria de armas do que às necessidades de seus comandantes, muito menos às do país. Falta-lhe um projeto, mas durante vários anos ele interveio repetidamente na política, primeiro em apoio a Donald Trump, depois contra ele. Ao mesmo tempo, está conduzindo sua própria diplomacia, sem controle por parte da autoridade eleita. Essas ações são ainda mais problemáticas porque em um momento de crise profunda, quando o confronto entre continentalistas e globalistas continua sem solução, o peso e o prestígio da corporação militar se sobrepõem ao dos políticos. Os militares não estão tão divididos em linhas partidárias quanto o contrário: sem os objetivos estabelecidos pela política, suas diferenças sobre doutrina, estratégia e liderança estão condicionando a agenda política em Washington, com a particularidade de que qualquer decisão sobre estas questões tem repercussões em todo o mundo.

Desde o final da Guerra Fria, os EUA regrediram para um regime oligárquico altamente concentrado, com uma maioria altamente empobrecida da população. É um capitalismo rentista, especulativo e de muito baixa produtividade. Ao mesmo tempo, a reforma militar Rumsfeld-Cebrowski de 2002 estabeleceu a estratégia de “guerra sem fim” e deu enorme autonomia de mando aos comandantes, que se tornaram assim o condottieri das empresas de armamento. Os objetivos geoestratégicos e/ou econômicos têm sido subordinados à necessidade de nunca acabar com as guerras.

Mark Milley encontrou em Bob Woodward seu próprio Virgílio, que o canta e o quer imperador, mas em um mundo onde a rivalidade hegemônica está sendo decidida em favor das potências eurasiáticas. Ele já violou a Constituição; pretende ir em frente e instalar a ditadura ou irá recuar e se render ao regime decadente? A democracia americana e a paz mundial dependem da resposta a esta pergunta.

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Eduardo Vior é cientista político argentino

Originalmente em infobaires.com

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