O Equador entra no segundo turno profundamente dividido | Eduardo Vior

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Por Eduardo Vior

A vitória do candidato Correista Andrés Arauz no primeiro turno das eleições presidenciais realizadas no último domingo no Equador não foi nenhuma surpresa. A traição, a inépcia e a corrupção do governo de Lenín Moreno (2017-21) fez com que 80% dos eleitores votarem contra o neoliberalismo. Ao mesmo tempo, a memória das conquistas da “Revolução Cidadã” (2007-17), a perseguição sofrida por Rafael Correa e seus camaradas e as violentas repressões de 2019 impulsionaram o triunfo do candidato da União Nacional pela Esperança (UNES). Entretanto, o excelente desempenho do candidato indígena Yaku Pérez e do empresário social-democrata Xavier Herbas foi surpreendente. Perez ultrapassou 19 pontos e pode passar para o segundo turno em vez do banqueiro Guillermo Lasso, da coalizão CREO, a quem venceu por apenas 0,27%. O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) ainda tem que contar alguns milhares de votos e rever os votos observados, portanto levará vários dias para decidir quem será o adversário de Araúz no segundo turno do dia 11 de abril. A forma da campanha eleitoral e, muito mais, a governabilidade futura de um país profundamente dividido dependerá de seu perfil.

Com 98,81% dos votos contados a nível nacional, já está ficando claro como será a próxima Assembléia Nacional. A UNES, liderada por Pierina Correa, irmã do ex-presidente Rafael Correa, tem a maior porcentagem de votos com 31,66% dos votos para a legislatura. Por sua vez, a Unidad Plurinacional Pachakutik se tornaria a segunda força parlamentar com 17,37% dos votos. A Izquierda Democrática ficou em terceiro lugar com 12,25%. Em quarto e quinto lugar ficou o CREO, com 9,71%, e o Partido Social Cristão (PSC), com 9,38% das cédulas.

 
Segundo dados da CNE, Yaku Perez venceu em 13 províncias da Sierra (região andina do Equador) e da Amazônia, enquanto Andrés Arauz venceu em 8 províncias da Costa. Guillermo Lasso ganhou em Pichincha (onde está localizada a capital, Quito) e Galápagos. Finalmente, o empresário Xavier Herbas ganhou para a Izquierda Democrática em Carchi, na fronteira com a Colômbia.

Yaku Pérez é, no mínimo, uma figura pouco transparente. Registrado ao nascer em Cuenca em 1969 como Carlos Ranulfo Pérez Guartambel, de 2013 a 2019 foi presidente da Confederação dos Povos da Nacionalidade Kichwa (ECUARUNARI), de onde participou de manifestações contra o governo de Rafael Correa. Nas eleições seccionais de 2019 foi eleito Prefeito de Azuay (cuja capital é Cuenca) e participou das manifestações de outubro de 2019 contra o governo de Lenin Moreno.

Em diferentes ocasiões ele criticou “as ditaduras” de Evo Morales e Nicolás Maduro. Por seu apoio mutável a figuras da elite política desde sua entrada na política em meados dos anos 90, sua identidade indígena autoatribuída (que muitos questionam), o apoio que recebeu desde os anos 2000 de organizações ambientais americanas, seus confrontos com a liderança colegiada da CONAIE (Confederação Nacional de Organizações Indígenas do Equador), seu estilo autoritário e aparente desvio de fundos como Prefeito de Azuay, não apenas Correa, mas também amplos setores do movimento indígena questionam sua honestidade e seu suposto esquerdismo.

Enquanto isso, a força que ele lidera hoje, o Movimento de Unidade Plurinacional Pachakutik, fundado em 1995, serviu durante anos como o braço eleitoral da CONAIE. Após a vitória de Rafael Correa em 2006, Pachakutik juntou-se à coalizão governante e foi fundamental na aprovação da Constituição de 2008 equatoriana, que tem um caráter intercultural avançado. No entanto, a partir de 2009, rompeu com o governo por discordância com a nova lei da água. Desde então, até 2017, ele foi um enérgico oponente do governo da Revolução Cidadã.

Quando em 2017 Lenín Moreno sucedeu a Correa e reverteu o rumo político, a CONAIE aderiu ao chamado “diálogo nacional”, enquanto na Assembléia Nacional os legisladores Pachakutik votaram com o partido governista e formaram uma coalizão com a Izquierda Democrática e partidos da direita. Quando em 2019 o movimento popular pressionou o governo Moreno em suas tentativas de privatização, a liderança Pachakutik deixou o governo operar por 13 dias antes de exigir a revogação do respectivo decreto. Era o tempo que Moreno precisava para arbitrar a imposição das mesmas medidas por outros meios.

O Movimento Pachakutik defende o estabelecimento de um estado plurinacional com ampla autonomia para as regiões e comarcas, embora, após Wall Street ter começado a fixar o preço da água como mercadoria, é fácil imaginar o que poderia acontecer se uma pequena comunidade indígena (alguns com apenas 1.000 habitantes) tivesse que negociar com uma grande corporação internacional para o uso de seus recursos hídricos. “Somente o Estado nacional (na verdade, somente um bloco regional) pode defender a soberania da água”, diz Pedro Páez Pérez, ex-ministro da economia de Rafael Correa.

Já em 2017 Perez  pediu votos para Lasso para derrotar o Correismo (dizia ele “um banqueiro é preferível a um ditador”) e se acredita que ele dirá o mesmo caso não chegue ao segundo turno. Lasso, por sua vez, já tornou público seu apoio a Pérez se ele não conseguir chegar à segunda rodada.

Com um forte impulso da mídia, a Yaku Pérez tornou-se a carta alternativa para evitar o triunfo de Correa. Não se trata de uma clivagem regional ou étnica”, asseverou Jhajaira Urresta, da Assembléia da UNES, em entrevista ao autor deste artigo, “mas de uma mudança de época”. A maioria dos eleitores da Sierra são jovens que não viveram a presidência de Correa e se deixaram arrastar pela retórica supostamente revolucionária de Pérez”, diz ela. “Devemos ouvi-los e atender às suas demandas”, concluiu.

Dada a incerteza sobre o segundo lugar (sobre o qual existem receios bem fundamentados), abundam as especulações. Muitos argumentam que seria mais fácil para Arauz enfrentar Lasso no segundo turno, porque o contraste entre os dois é claro e, além disso, o banqueiro “co-governou” com Moreno e terá que se encarregar do desastre no qual ambos mergulharam o país. Isto é verdade, mas deve-se levar em conta que Lasso tem enormes recursos financeiros, de mídia, políticos e jurídicos que ele não hesitará em mobilizar na campanha. Outros na comitiva de Arauz preferem enfrentar Pérez, para desmascarar sua retórica supostamente esquerdista e ambientalista.

Entretanto, até que a contagem definitiva dos votos seja concluída e seja confirmado quem será o concorrente de Andrés Arauz no segundo turno, será muito difícil determinar as principais linhas da campanha eleitoral e prever como as alianças serão formadas. Em princípio, parece muito provável que a ala direita e o Pachakutik se unam em uma coalizão anti-correista, embora esta opção possa custar a Pérez a divisão de setores genuinamente antioligárquicos. Por outro lado, não está claro se a social-democracia unirá forças com a UNES e a que custo. Em todo caso, o primeiro turno das eleições equatorianas já mostra que, embora o neoliberalismo seja unanimemente repudiado pelos povos sul-americanos, ele ainda não foi derrotado e está em condições de contra-atacar em linhas internas, provocando o confronto entre setores populares. O futuro do Equador e muito do que acontece no resto da região dependerá da capacidade do Correísmo de construir pontes.

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Eduardo Vior é cientista político argentino

Originalmente em infobaires24.com.ar

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