O Iêmen e as implicações do conflito na Ucrânia | Guadi Calvo

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Por Guadi Calvo

As consequências da contra-ofensiva que a Rússia teve que lançar contra a OTAN, direta ou indiretamente, em território ucraniano, produziram efeitos negativos em praticamente todo o mundo e talvez quanto mais extremas as condições dos países, mais cedo ou mais tarde, mais severas serão essas consequências, já que os Estados Unidos, entrincheirado em sua ilha, cercada de ignorância e interesses, deixa de fora seus parceiros europeus, cada vez mais apequenados pelas próprias políticas que Washington os obrigou a seguir, não só em relação à Rússia, mas em todas as guerras, concebidas pelo Departamento de Estado, praticamente desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Mas uma coisa deve ser dita, os europeus tiveram a possibilidade de escolher esse destino de ‘vagão de trem’, do qual hoje figuras tão menores como Macron, Johnson ou o microscópico Pedro Sánchez, inclinados a degradar a Espanha de todas as maneiras possíveis, parecem se orgulhar. Embora existam outras nações que não tiveram a opção de escolher nada e só ficaram com a possibilidade de se resignarem ao seu destino de serem invadidas, saqueadas e massacradas, ou tentarem resistir a isso, a qualquer custo, como o grupo Ansar Allah  (Partidários de Deus), também conhecido como Houthies, tem feito no Iêmen, que não só impediram que seu país caísse nas mãos da Arábia Saudita, em seu papel de ‘killer’ de Washington no Oriente Médio, como também entraram na ofensiva, realizando ataques perto de Riad ou nas refinarias da Aramco, e também no emirado.

Desde 2015, quando Riad lançou uma guerra de extermínio contra seus vizinhos do sul, usando como desculpa a defesa do governo do Presidente Mansour Hadi, que, após ser derrubado pelos Houthis, renunciando ao seu exílio em Riad, e então, sob pressão dos sauditas, retomou o cargo, sem qualquer outra base legal além da necessidade prática dos Estados Unidos e seus parceiros no Oriente Médio de cercar o Irã.

Desde o início da guerra até hoje, os invasores mataram quase 400 mil iemenitas e tornaram seus quase 29 milhões de habitantes inseguros em termos de alimentação e saúde. Os constantes bombardeios sauditas e dos Emirados não apenas visaram a infra-estrutura e os centros de produção, mas também ataques premeditados como casamentos, funerais, ônibus escolares e, em um dos últimos ataques, a um centro de detenção em Sana’a, em que mataram sessenta imigrantes africanos ali detidos.

Em uma tentativa de camuflar o genocídio, à luz dos crimes que a imprensa atlanticista está tentando impingir à Rússia na Ucrânia e apelando para a ignorância, a malícia ou o desprezo direto que a maioria dos ocidentais sente por esses povos remotos e “selvagens”, foi estabelecido, instados pelas Nações Unidas (ONU), um cessar-fogo entre os sauditas, seus aliados, principalmente os Emirados Árabes Unidos (EAU), e a resistência iemenita depois de pouco mais de sete anos, com a desculpa de que será prorrogado por pelo menos dois meses, tendo começado em 3 de abril. Entretanto, o acordo foi quebrado algumas horas depois de iniciado na província central de Marib, onde a batalha mais importante da guerra vem sendo travada há quase um ano. A coalizão saudita violou o acordo 34 vezes somente no primeiro dia da trégua.

Tendo destruído a economia do país, a guerra deixou milhões de pessoas com fome, e agora há uma escassez de trigo, mais de 35% do qual foi importado pelo Iêmen da Rússia e da Ucrânia.

Isto está agravando a situação do povo iemenita, que não tem nenhum dos apoios que estão sendo fornecidos aos ucranianos deslocados, o que afetará o acesso a alimentos e combustível.

Numa tentativa de esconder os rostos e nomes da tragédia iemenita, Riad e Washington concordaram em retirar Mansour Hadi do “gabinete” e colocar a liderança do governo no exílio sob um conselho de oito membros liderado por Rashad al-Alimi, um homem do establishment com laços estreitos com Riad e forte influência no partido da Congregação Iemenita para a Reforma (al-Islah), um importante partido iemenita Wahhabi.

Os outros sete membros incluem Aidrous al-Zubaidi, chefe do Conselho de Transição do Sul (STC), apoiado pelos Emirados Árabes Unidos, que visa criar um Iêmen do Sul independente; Tareq Saleh, comandante militar e sobrinho do ex-presidente Ali Abdullah Saleh; e Sheikh Sultan al-Arada, governador da província petrolífera de Marib, peça central na produção de petróleo, onde uma batalha decisiva no conflito ainda está sendo travada.

Durante a trégua, eles deveriam poder entrar no porto de al-Hodeidah já ocupado pelos Houthies; Além disso, dois voos comerciais por semana devem ser autorizados a operar dentro e fora de Sanaa, capital também controlada pela resistência, e a abertura de rotas para a cidade de Ta’iz, sitiada pelos houthies desde 2015.

TERROR A QUALQUER CUSTO

A Arábia Saudita tentou aplacar os críticos da guerra no Iêmen, estabelecendo o terror a qualquer custo, não apenas no campo de batalha, mas também entre seus próprios cidadãos. Em 12 de março, 81 pessoas foram executadas, incluindo não apenas sete iemenitas, mas muitos nacionais críticos da guerra, crimes pelos quais o príncipe herdeiro da Arábia Saudita Mohammed bin Salman (MbS) não será julgado por nenhum tribunal internacional, enquanto seu país continuar sendo o principal comprador de armas e outros produtos fabricados nos Estados Unidos e na Europa.

Riyad comprou bens militares no valor de £14 bilhões desde 2010 do Reino Unido, colocando-o à frente dos Estados Unidos em £6,3 bilhões e da França em terceiro lugar, com £4,6 bilhões em moeda britânica.

Por exemplo, a França desrespeitou as proibições de venda de armas à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos enquanto a guerra no Iêmen estava se intensificando. As vendas francesas para Abu Dhabi tornaram o pequeno estado o quinto maior comprador de equipamentos militares franceses no mundo, além das compras dos Estados Unidos e do Reino Unido. Todo este material de guerra, que tem sido utilizado principalmente no Iêmen, faz com que as três nações, que hoje impulsionam as demandas contra Moscou por sua contra-ofensiva na Ucrânia, sejam parceiros-chave no genocídio do Iêmen. Tanto que agora estão tentando ocultá-lo por trás do conflito ucraniano.

O envolvimento de seus parceiros ocidentais no holocausto iemenita, juntamente com o regime saudita, tem sido evidente, enquanto esses mesmos setores têm tentado por todos os meios envolver o Irã nessa guerra, da qual não há provas concretas, embora se houvesse, ninguém poderia censurar Teerã, que como qualquer conhecedor da geopolítica do Golfo Pérsico pode entender, o Iêmen, é apenas um estágio anterior ao grande salto contra o governo dos aiatolás e todas as suas políticas independentes da hegemonia americana desde o final da Revolução de 1979, que o Departamento de Estado, sem dúvida, vê como um péssimo exemplo para todas as nações islâmicas e do Terceiro Mundo, tais como Cuba, Venezuela ou Coréia do Norte.

O Iêmen, além de sua proximidade geográfica e religiosa com o Irã, possui dois elementos geoestratégicos críticos para o comércio ocidental e particularmente o transporte de petróleo que, a partir dos portos do Golfo Pérsico, controlados à vontade por Teerã, atravessando o Estreito de Ormuz, tentam chegar ao Mar Vermelho, buscando o Canal de Suez, mesmo que antes desses dois longos braços, que os levariam ao Mediterrâneo, tais embarcações precisem atravessar o Estreito de Abu al-Mandeb ou as Portas das Lamentações, que ligam o Golfo de Aden com o Mar Vermelho. Então, se a resistência Houthi triunfar no Iêmen, colocaria sob seu controle este passo crucial, que no novo mapa-múndi, com a resolução do conflito na Ucrânia, ganharia ainda mais relevância.

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Guadi Calvo é escritor e jornalista argentino. Analista internacional especializado em África, Oriente Médio e Ásia Central

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