O Líbano à beira do precipício | Elijah J. Magnier

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Por Elijah J. Magnier

Não foi nenhuma surpresa ouvir o presidente israelense Reuven Rivlin e seu chefe de gabinete do exército Aviv Kochavi batendo à porta do Eliseu, residência do presidente da República Francesa, para criticar o Hezbollah e, é claro, o Irã. É inquestionável que Israel jamais engolirá de bom grado a presença de uma força poderosa em suas fronteiras, equipada com centenas de mísseis estratégicos de precisão que podem cobrir toda a área geográfica da Palestina. O Hezbollah também tem dezenas de milhares de mísseis modificados com alta precisão, mas com cobertura menor. Entretanto, Israel não havia conseguido enfrentar o Hezbollah frente a frente em 2006, mesmo quando a organização era menos experiente e com menos mísseis de precisão. Portanto, qualquer novo confronto será altamente dispendioso para Israel, e o resultado está longe de ser garantido. Assim, após o fracasso em dividir a Síria em 2011 e o Iraque em 2014 e a tentativa de submeter o Irã às sanções mais duras dos EUA desde o surgimento da “República Islâmica”, suas perspectivas de derrotar o Hezbollah estão agora mais reduzidas do que nunca.

Os EUA e Israel tentaram apoiar a “revolução libanesa“, as ONGs, e investiram mais de 10 bilhões de dólares para conter o Hezbollah, mas sem sucesso. Duas opções permanecem: fomentar o conflito sectário, ou matar a população de fome, enquanto culpa o Hezbollah e suas seções armadas e as forças de segurança doméstica. EUA e Israel podem ser bem sucedidos? Quais são os planos e as opções do Hezbollah?

As guerras síria, iraquiana e iemenita proporcionaram ao Hezbollah – um dos principais participantes – uma experiência de guerra inigualável. O Hezbollah lutou ao lado de um exército tradicional e o de uma superpotência, síria e russa. Utilizou tanques, mísseis auto-manufaturados, drones armados e operações de sabotagem atrás das linhas inimigas, para citar apenas alguns exemplos. Além disso, quando o Presidente Joe Biden chegou ao cargo, declarou a Rússia como “oponente” e a China como um “sério concorrente”, provocando uma aproximação incomum entre esses dois países e os inimigos da administração americana no Oriente Médio – principalmente o Irã e o Hezbollah.

Uma delegação do Partido Comunista Chinês visitou o Líbano e encontrou a liderança do Hezbollah, oferecendo projetos no valor de 12 bilhões de dólares para reconstruir a eletricidade, a comunicação, o transporte e as infraestruturas domésticas mais necessárias. Por outro lado, a Rússia convidou uma delegação liderada pelo deputado do Hezbollah Haj Mohamad Raad a Moscou, onde se encontrou com o Ministro das Relações Exteriores Sergei Lavrov e outras autoridades.

Também é essencial notar que o Hezbollah tem 131 pontos de posicionamento na Síria. O Irã tem 115, e a Rússia tem 95, excluindo o aeroporto militar Hmaymeem e as bases navais militares Tartus (sob o controle da Rússia). Portanto, a coordenação e uma relação estratégica entre o Hezbollah e a Rússia se tornou inevitável, especialmente porque os serviços de inteligência dos EUA conhecem e reconhecem o Hezbollah como uma potência regional e até o acusam de interferir nas eleições presidenciais americanas.

Entretanto, a situação econômica catastrófica no Líbano atingiu duramente a maioria dos libaneses, incluindo o Hezbollah. As sanções dos EUA ao Irã (desde 1979), que atingiram o nível mais alto em 2020, foram mantidas pelo Presidente Biden, impedindo que o Irã fosse generoso com seus aliados, mas sem cessar o apoio financeiro regular. O Irã considera os seus aliados como parte de sua segurança nacional. Embora o bem-estar dos aliados seja essencial, todos os excedentes foram retirados e a oferta financeira foi reduzida a seu nível mínimo necessário. Para o Hezbollah, os salários são os mesmos e estão pagos regularmente. Entretanto, 20% a 25% apenas, recebem seus salários em dólares americanos, cujo valor saltou de 1.500 para 13.000 liras libanesas por dólar. Uma grande parte dos membros do Hezbollah não recebe salário ou é paga em moeda local. A liderança do grupo criou um fundo de caridade interno chamado “Muwasat” (fundos de consolação). Os membros pagos em dólares americanos terão a liberdade de apoiar outros membros não remunerados e outras famílias necessitadas.
A deterioração da situação econômica no Líbano se deve a vários motivos. As longas décadas de corrupção desde os anos 1990 foram críticas para a dolarização das importações libanesas, neutralizando assim qualquer produção local. Nos últimos anos, a guerra dos EUA contra o governo de Damasco e as sanções de EUA e União Européia contra a vizinha Síria (Caesar Act) desempenharam um papel importante na sobrecarga da economia libanesa. Internamente, a desidratação de dólares do mercado libanês realizada pela má administração deliberada do presidente do Banco Central do Líbano, controlado pelos EUA, e a influência americana sobre os países ricos em petróleo do Golfo, impedindo que estes apoiassem financeiramente o Líbano, foram os últimos tiros contra a cabeça da economia libanesa. Todos estes elementos se reuniram em uma nação, causando o início da fome da população, onde remédios não estão mais disponíveis, a onipresente escassez de alimentos, e a deterioração da moeda local, criam uma inflação altíssima e torna quase impossível a sobrevivência de uma grande parte da população.

Alimentos e remédios podem não ser motivo para desencadear um confronto militar. O Irã poderia fornecer ao Líbano os remédios relativamente necessários, alimentos (já está contribuindo) e o Iraque se comprometeu a entregar ao Líbano combustível para sua eletricidade e transporte. Entretanto, a questão da segurança é a mais crítica, particularmente quando muitos grupos pertencentes ao campo dos EUA estão fechando as principais ruas em várias cidades, cortando a conexão entre os xiitas da capital e subúrbios, o vale de Bekaa e o sul do Líbano. O bloqueio da estrada é chamado de transtorno da “estrada de abastecimento” da resistência, um ato imperdoável e tão perigoso que o Hezbollah pode considerar seriamente um ato de guerra.

A sombra do 7 de maio de 2008 (quando o Hezbollah tomou partes de Beirute do governo apoiado pelos EUA) ainda paira sobre o país quando o governo pró-EUA decidiu fechar o sistema de comunicação do Hezbollah, um ato considerado, então, uma declaração de guerra contra o grupo. O objetivo era paralisar o sistema de comunicação em circuito fechado e fibra óptica do Hezbollah, essencial na luta para manter o comando e o controle encarregados de guiar a batalha. Durante a guerra de 2006, as ordens de ataque do Hezbollah foram coordenadas e nunca cessaram, mesmo quando Israel tentou destruí-lo, sem sucesso. A alternativa foi oferecida pelo governo do ex-Primeiro Ministro Fouad Siniora, um anti-Hezbollah e um político pró-EUA e pró-Saudita acusado de corrupção, mas salvo pelo falecido Primeiro Ministro Rafic Hariri, que o nomeou como Ministro das Finanças para protegê-lo da perseguição legal (somente no Líbano).

De acordo com fontes bem informadas no Líbano, durante as últimas semanas, as manifestações do Primeiro Ministro Saad Hariri apoiavam, sob a desculpa da fome e da forte desvalorização da Lira, o fechamento da estrada de Saadnayel que liga xiitas entre o Vale de Bekaa e a capital Beirute. A Estrada de Alay também foi fechada pelo líder pró-EUA Walid Jumblat, apoiador do líder druso, impedindo que os xiitas chegassem aos subúrbios de Beirute. A estrada de Jiyeh que leva ao sul do Líbano foi fechada pelos apoiadores do druso e Hariri. Todos estes movimentos foram coordenados, levando à conclusão de que era um cenário que servia para preparar o país para um golpe coordenado maior e testar a reação do Hezbollah.

Além disso, a liderança do exército libanês tinha contribuído para deteriorar a situação quando o comandante do general-chefe Josef Aoun recusou várias ordens do presidente Michel Aoun para abrir as estradas e permitir manifestantes à beira do caminho. O General Joseph Aoun é candidato à Presidência e parece acreditar (erroneamente) que o apoio dos EUA é suficiente para satisfazer suas ambições políticas.

Há mais de seis meses, uma situação semelhante de fechamento de todas as estradas utilizadas pelo “Eixo da Resistência” para o Vale de Bekaa e o sul do Líbano foi implementada. Após repetidos mas inúteis avisos, o Hezbollah chamou mais de 1000 homens das forças de mobilização que viviam nas áreas onde os manifestantes fecharam as estradas para se prepararem para desobstruí-las pela força. No último momento, o exército libanês, cuja liderança foi informada, interveio e liberou a rota de manifestantes instrumentalizados por partidos políticos pró-EUA.

O mesmo cenário está prestes a ser reproduzido: o fechamento da linha de abastecimento da resistência não será permitido. O “Eixo da Resistência” considera este ato de guerra como auxílio direto a Israel. Estima-se que entre 24 e 48 horas são necessárias para limpar todas as estradas, independentemente do número de pessoas na rua e de quão bem estas estejam armadas.

Não é permitido ao Líbano viver em paz enquanto seus líderes não estiverem prontos para abrir mão de parte de suas fronteiras marítimas ricas em petróleo e gás para Israel e enquanto o Hezbollah não for desarmado para agradar a Israel. Os EUA estão empurrando o Líbano para a bancarrota, na qual o país não pode receber apoio do Iraque, China e Rússia, mas tampouco os EUA estão prontos para compensar. As vozes internas – principalmente as forças libanesas pró-EUA e pró-Israel – apelam para desarmar o Hezbollah e descrevem Sayyed Hassan Nasrallah como o “head of the snack” (um vídeo distribuído nas mídias sociais).

O Hezbollah não entregará suas armas e tentará evitar a guerra civil, mas não em uma batalha, se necessário. O Hezbollah consolida seu grupo que faz parte da sociedade e continuará sua preparação militar para qualquer cenário possível de guerra doméstica ou em suas fronteiras. Ele moveu a maior parte de sua operação para o subsolo, onde cidades são construídas para enfrentar os futuros desafios contra Israel e os EUA.

As forças dos EUA continuarão colaborando com Israel para conter o Hezbollah. O Comando Central dos EUA (USCENTCOM), o Comandante Geral Kenneth McKenzie visitou o Líbano várias vezes no ano passado. Sua visita mais recente na semana passada foi a mais importante, com seis helicópteros fornecidos pelo exército libanês, explorando a área de Ghazzee-Mazraat Deir al Ashayer juntamente com uma equipe de oficiais de inteligência e especialistas em topografia. O General McKenzie visitou o chefe do exército libanês, General Joseph Aoun, mas não se encontrou com o Presidente ou qualquer outro líder político ou membro do governo.

Fontes acreditam que os Estados Unidos estão explorando a área estratégica que se estende além das fronteiras sírio-libanesas, a apenas dezenas de quilômetros da capital Damasco e que poderia servir como uma base do exército libanês (como uma fachada) sob o controle dos Estados Unidos. É também a área que liga o Vale de Bekaa com o sul do Líbano e muito perto do Monte Hermon, onde se acredita que o Hezbollah tenha muitas bases para seus mísseis estratégicos. A embaixada dos EUA em Beirute disse que o comandante máximo do USCENTCOM estava “inaugurando um bombeamento de água financiado pela USAID” que já estava em uso nos últimos dois anos, fornecendo água para uma vila quase vazia. Não está claro se a inauguração de uma bomba de água financiada pelos EUA faz parte da área de controle do general McKenzie, mesmo que o Comando Central dos EUA seja um dos dois comandos de guerra cujo quartel-general não está fisicamente localizado em sua área de responsabilidade, mas na Flórida.

Nenhuma solução futura viável para o Líbano chegará em breve, é um país que caminha na beira do abismo. Os países do Golfo, os EUA e Israel, decidiram quebrar o Líbano e derrubar o Presidente Michel Aoun e seu aliado Hezbollah. No entanto, será que estes países, juntos, conseguirão fazer a balança pender a seu favor? Eles fracassaram na Síria, no Iêmen e no Iraque. Israel fracassou na guerra de 2006, e os US$ 10 bilhões investidos para combater o Hezbollah não desencadearam uma revolução ou uma guerra civil. O Hezbollah impôs um equilíbrio de dissuasão a nível interno e com Israel. Entretanto, não está disposto a estar no comando do Estado, mas a viver em um país onde os políticos têm medo de enfurecer os EUA. O governo libanês e os políticos pró-EUA têm medo de pedir o apoio do Oriente. Eles estão sujeitos à hesitação do novo presidente dos EUA e de sua administração, que estão mantendo o status quo da administração trumpista anterior. A inação e as ameaças dos EUA estão empurrando o Líbano para o abismo.

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Elijah J Magnier é correspondente de guerra veterano e analista de risco político sênior com mais de três décadas de experiência.

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