O longo e sinuoso trajeto multipolar | Pepe Escobar

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Por Pepe Escobar

Vivemos tempos extraordinários.

Na Praça Tiananmen no 100º aniversário do Partido Comunista Chinês, em meio a toda pompa e circunstância, o Presidente Xi Jinping proferiu uma forte mensagem geopolítica:

“O povo chinês jamais permitirá que forças estrangeiras o intimidem, oprimam ou subjuguem. Qualquer um que tente fazer isso estará em rota de colisão com uma grande parede de aço formada por mais de 1,4 bilhões de chineses”.

Eu publiquei em outros lugares uma versão concisa do milagre chinês moderno – que não tem nada a ver com intervenção divina, mas tem sido baseada na “busca da verdade a partir dos fatos” (copyright Deng Xiaoping), inspirada por uma sólida tradição cultural e histórica.  

A “grande parede de aço” evocada por Xi agora permeia uma sociedade dinâmica, “moderadamente próspera”, um objetivo alcançado pelo PCC na véspera do centenário. Tirar mais de 800 milhões de pessoas da pobreza extrema – mesmo que os detratores apontem que a realização se baseia em um “padrão frugal” de 2010 a uma inflação ajustada de US$ 2,30 por dia – é algo inédito na história.

Como em tudo na China, o passado anuncia o futuro. Trata-se de xiaokang – que pode ser traduzido vagamente como “sociedade moderadamente próspera”.

O conceito apareceu pela primeira vez há cerca de 2.500 anos, no clássico Shijing (O Livro da Poesia). Com seu olhar de águia histórico, o Pequeno Timoneiro Deng o reviveu em 1979, logo no início da “abertura” das reformas econômicas.

Agora compare o avanço celebrado em Tiananmen – que será interpretado em todo o Sul Global como evidência do sucesso de um modelo chinês para o desenvolvimento econômico – com as imagens que circulam dos tanques T-55 capturados pelos Talibãs em aldeias empobrecidas no norte do Afeganistão.  

Os Talibãs agora controlam quase a mesma quantidade de território afegão que controlavam imediatamente antes do 11 de setembro. Controlam a fronteira com o Tadjiquistão e estão se aproximando da fronteira com o Uzbequistão.

Há exatamente 20 anos atrás, eu estava mergulhado em uma de minhas épicas viagens, de Karachi a Peshawar e às áreas tribais do Paquistão, ao Tajiquistão e, finalmente, ao vale Panjshir, onde entrevistei o comandante Masoud – que me disse que o Talibã, na época, controlava 85% do Afeganistão.

Três semanas depois, Masoud foi assassinado por comandos ligados à Al-Qaeda disfarçados de “jornalistas” – dois dias antes do 11 de setembro. O império, no auge do período unipolar, entrou nas Guerras Eternas com tudo. Enquanto isso, os chineses – e os russos – mergulharam na sua consolidação, geopolítica e geoeconomicamente.

Agora estamos vivendo as consequências dessas estratégias opostas.

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Essa parceria estratégica

O presidente russo Vladimir Putin acaba de passar três horas e 50 minutos respondendo perguntas, ao vivo, de cidadãos russos durante sua sessão anual de “Linha Direta“. Imagine líderes ocidentais do tipo Biden, BoJo, Merkel e Macron tentando lidar com algo mesmo remotamente semelhante, não roteirizado.

A chave para o sucesso: Putin enfatizou que as elites americanas entendem que o mundo está mudando, mas ainda querem preservar sua posição dominante. Ilustrou isso com a recente incursão britânica na Crimeia, uma “provocação complexa” que foi anglo-americana de fato: uma aeronave da OTAN conduziu anteriormente voo de reconhecimento.

Putin: “Ficou óbvio que o destroyer entrou [nas águas da Crimeia] perseguindo objetivos militares”.

No início desta semana, Putin e Xi realizaram uma videoconferência. Um dos itens-chave foi bastante significativo: a prorrogação do Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amigável China-Rússia, assinado originalmente há 20 anos.

Uma disposição chave: “Quando surge uma situação em que uma das partes signatárias considera que … é confrontada com ameaça de agressão, as partes signatárias devem imediatamente realizar contatos e consultas a fim de eliminar tais ameaças”.  

Este tratado está no centro do que agora é oficialmente descrito – por Moscou e Pequim – como uma “parceria estratégica abrangente de coordenação para uma nova era”.

Uma definição tão ampla se justifica porque se trata de uma parceria complexa em vários níveis, não simplesmente uma “aliança”, concebida como um contrapeso e uma alternativa viável à hegemonia e ao unilateralismo.  

Um exemplo gráfico é dado pela interpolação progressiva de duas estratégias de comércio/desenvolvimento, a Iniciativa Cinturão e Rota e a União Econômica da Eurásia, que Putin e Xi novamente discutiram, em conexão com a Organização de Cooperação de Shangai (SCO), que foi fundada apenas três meses antes do 11 de setembro.  

Um dos destaques em Pequim esta semana foi a realização de conversações comerciais entre os chineses e quatro “-istãos” da Ásia Central – todos eles membros da SCO.

‘Lei’ e ‘regra’

O roteiro definidor da multipolaridade foi esboçado em um ensaio do Ministro das Relações Exteriores russo Sergey Lavrov que merece um exame cuidadoso. Lavrov analisa os resultados das recentes cúpulas do G7, OTAN e Estados Unidos-União Europeia antes do Putin-Biden em Genebra:

Estas reuniões foram cuidadosamente preparadas de forma a não deixar dúvidas de que o Ocidente queria enviar uma mensagem clara: se mantém coeso como nunca antes e fará o que acredita ser o certo em assuntos internacionais, enquanto obriga outros, principalmente a Rússia e a China, a seguirem sua liderança. Os documentos adotados nas cúpulas de Cornwall e Bruxelas cimentaram o conceito de ordem mundial baseado em regras como um contrapeso aos princípios universais do direito internacional.

Assim, Lavrov escreve: “O Ocidente se afasta deliberadamente de enunciar as regras que pretende seguir, assim como se abstém de explicar por que elas são necessárias”.

Desprezando a forma como a Rússia e a China foram rotuladas como “poderes autoritários” (ou “iliberais”, de acordo com o mantra favorito do eixo Nova York-Paris-Londres), Lavrov esmaga a hipocrisia ocidental:

Enquanto proclama o “direito” de interferir nos assuntos internos de outros países para promover a democracia como a compreende, o Ocidente imediatamente perde todo o interesse quando levantamos a perspectiva de tornar as relações internacionais mais democráticas – inclusive renunciando a comportamentos arrogantes e comprometendo-se a cumprir os princípios universalmente reconhecidos do direito internacional em vez de “regras”.

Isso proporciona a Lavrov uma abertura para uma análise lingüística de “lei” e “regra”:

Em russo, as palavras “lei” e “regra” compartilham uma única raiz. Para nós, uma regra que é genuína e justa é inseparável da lei. Este não é o caso das línguas ocidentais… “Regra” não é tanto sobre a lei, no sentido das leis geralmente aceitas, mas sobre as decisões tomadas por aquele que rege ou governa.

Em poucas palavras: o caminho para a multipolaridade não seguirá “ultimatos”. O G20, onde os BRICS estão representados, é uma “plataforma natural” para “acordos mutuamente aceitos”.

A Rússia, por sua vez, está conduzindo uma Parceria para a Grande Eurásia. E uma “ordem mundial policêntrica” implica a necessária reforma do Conselho de Segurança da ONU, “fortalecendo-o com países asiáticos, africanos e latino-americanos”.

Será que os “masters” unilaterais irão percorrer este caminho? Sobre seus cadáveres. Afinal de contas, Rússia e China são “ameaças existenciais”.  

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Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

Originalmente em Asia Times

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