O momento China | Peter Koenig

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Por Peter Koenig

A China alcançou o quase impossível – um acordo de livre comércio com 14 países – os dez ASEAN, mais o Japão, Coréia do Sul, Austrália e Nova Zelândia, ao todo 15 países, incluindo a própria China. A chamada Parceria Econômica Integral Regional, ou RCEP, esteve em negociações durante oito anos – e conseguiu reunir um grupo de países para o livre comércio, ou seja, cerca de 2,2 bilhões de pessoas, comandando cerca de 30% do PIB mundial. Este é um acordo nunca antes alcançado em tamanho, valor e vigor. O RCEP foi assinado durante a 37ª Cúpula da ASEAN em 11 de novembro no Vietnã.

Além de ser o maior acordo comercial da história da humanidade, ele também se associa e se vincula à Iniciativa Cinturão e Rota (BRI ou ICR), ou One Belt, One Road (OBOR), ou também chamada Nova Rota da Seda, que por si só já compreende mais de 130 países e mais de 30 organizações internacionais. Além disso, a China e a Rússia têm uma parceria estratégica de longa data, contendo acordos bilaterais que também entram neste novo bloco comercial – mais os países da União Econômica da Ásia Central (CAEU), composta principalmente pelas antigas repúblicas soviéticas, também estão integrados a este bloco comercial oriental.

O conglomerado de acordos e sub-acordos entre os países da Ásia-Pacífico que cooperarão com a RCEP, está vinculado pelo ocidente a um pacto asiático pouco compreendido, chamado Organização de Cooperação de Shangai (SCO), fundado em 15 de junho de 2001 em Shangai como uma organização intergovernamental composta pela China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão. O objetivo da SCO é garantir a segurança e manter a estabilidade em toda a vasta região euroasiática, unir forças para combater os desafios e ameaças emergentes e melhorar o comércio, bem como a cooperação cultural e humanitária.

Grande parte do financiamento para os projetos do RCEP e da ICR será na forma de empréstimos de baixo custo do Banco Asiático de Infraestrutura e Investimento (AIIB) da China e de outras fontes de financiamento nacionais chinesas e dos países participantes. Nos tempos difíceis que emergem da crise da covid, muitos países podem precisar da assistência de subsídios para poder recuperar o mais rapidamente possível suas enormes perdas socioeconômicas criadas pela pandemia. Neste sentido, é provável que a nova Rota da Seda possa potencializar uma “Rota da Saúde” especial em todo o continente asiático.

A verdadeira beleza deste acordo RCEP é que ele segue um rumo firme, apesar de todas as adversidades impostas pelo Ocidente, principalmente os EUA. De fato, o RCEP pode, como “subproduto”, integrar o imenso continente da Eurásia que se estende desde a Europa Ocidental até o que é chamado de Ásia e que cobre o Oriente Médio, bem como o Norte da África, de cerca de 55 milhões de quilômetros quadrados.

O ponto crucial dos acordos comerciais do RCEP é que eles serão realizados em moedas locais e em yuan – sem dólares americanos. O RCEP é um instrumento maciço de des-dollarização, principalmente da região Ásia-Pacífico, e gradualmente do resto do mundo.

Grande parte dos investimentos em infra-estrutura da ICR, ou Nova Rota da Seda, podem ser financiados por outras moedas que não o dólar americano. O novo Renminbi digital da China (RMB) ou yuan que em breve será lançado internacionalmente como moeda corrente para pagamentos e transferências internacionais, reduzirá drasticamente o uso do dólar. O novo RMB  se tornará atraente para muitos países que estão fartos de serem submetidos às sanções dos EUA, pois usando o dólar americano, eles se tornam automaticamente vulneráveis a serem punidos com bloqueios de dólares, confiscação de recursos, sempre que seu “comportamento” internacional não estiver de acordo com os mandatos de Washington.

Mesmo as reservas de países podem ser roubadas, um crime perpetrado por Washington com impunidade e com a ajuda do Reino Unido, sob as vistas de todo o mundo, roubando 1,2 bilhões de dólares de ouro venezuelano depositados no Banco da Inglaterra. Somente um longo e pesado processo legal nos tribunais britânicos, iniciado pela Venezuela, poderia eventualmente liberar os fundos para serem devolvidos à jurisdição de Caracas. Este é um aviso para muitos países, que querem saltar do “barco-dollar” e aderir a um comércio honesto e de moeda de reserva, oferecida pelo sólido e estável RMB / yuan, respaldado pela economia chinesa.

O dólar já está em declínio hoje em dia. Quando há cerca de 20-25 anos, cerca de 90% de todos os ativos de reserva em todo o mundo eram denominados em dólares americanos, esta proporção diminuiu até hoje para menos de 60% – e continua diminuindo. A emergência do RMB / yuan internacional juntamente com uma economia chinesa reforçada por RCEP e ICR, pode contribuir ainda mais para uma des-dollarização, bem como para a deshegemonização dos Estados Unidos no mundo. Simultaneamente e progressivamente, o RMB / yuan digital internacional também pode estar substituindo as reservas de dólar americano / euro nos cofres dos países ao redor do mundo.

O dólar americano pode eventualmente voltar a ser apenas uma moeda local dos EUA, como deveria ser. Sob a filosofia da China, o mundo unilateral se transformará em um mundo multipolar. A combinação da RCEP e da Nova Rota da Seda está rapidamente buscando este nobre objetivo, uma meta que trará muito mais equilíbrio para o mundo.

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Para o Ocidente, a adaptação a esta nova realidade pode não ser fácil. A cooperação ao invés da competição nunca foi um conceito ou filosofia ocidental. Durante centenas se não milhares de anos, o domínio ocidental deixou um triste legado de exploração dos pobres pelos ricos mestres coloniais e de guerras sangrentas.

Cooperação ao invés de competição e disputa pelo poder, são conteceitos não totalmente aceitos pelo Ocidente. Isso é claramente visível pelas guerras comerciais instigadas pelos EUA, e possivelmente uma guerra monetária entre os EUA e a China que pode já estar em curso. O FED expressou vagamente seus planos de lançar também uma moeda digital, possivelmente criptográfica, baseada em  blockchain para combater o novo RMB / yuan – que nem mesmo foi lançada internacionalmente. Os detalhes dos planos do FED não estão claros no momento em que este artigo está sendo redigido.

Ter que se adaptar ao novo RCEP, em conformidade com um acordo entre iguais, não será fácil para o Ocidente. O Ocidente não vai desistir e poderá usar ao máximo, sua criação e a Organização Mundial do Comércio (OMC) tendenciosa ao Ocidente, para sabotar o máximo possível os acordos comerciais da RCEP e de  infra-estrutura da ICR , bem como os avanços do desenvolvimento industrial transfronteiriço.

O Ocidente, liderado pelos EUA – e sempre apoiado pelo Pentágono e pela OTAN, pode não se intimidar de ameaçar os países que participam dos projetos da China, mas em vão. Sob a filosofia do Tao, a China avançará com seus parceiros, como água corrente, criando constantemente, evitando obstáculos, em busca de seu nobre objetivo – um mundo em Paz com um brilhante futuro comum.

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Em conclusão, a RCEP é uma obra-prima chinesa com características chinesas e está preparando o caminho para um maior progresso em direção a uma comunidade mundial com um futuro compartilhado para a humanidade. O princípio subjacente é uma comunidade de nações soberanas, vivendo, trabalhando, construindo, inventando, criando e enriquecendo culturalmente umas às outras em paz.

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Peter Koenig é economista e analista geopolítico. Também especialista em recursos hídricos e meio ambiente.

Originalmente em New Eastern Outlook

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