O “Novo G8” encontra os “Três Anéis” da China | Pepe Escobar

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Por Pepe Escobar

O presidente da Duma, Vyacheslav Volodin, pode ter criado o acrônimo que define o mundo multipolar emergente: “o novo G8”.

Como Volodin observou, “os Estados Unidos criaram condições com as próprias mãos para que os países que desejem construir um diálogo igualitário e relações mutuamente benéficas formem de fato um ‘novo G8’ junto com a Rússia”.

Este G8 que não sanciona a Rússia, acrescentou, está 24,4% à frente do antigo, que de fato é o G7, em termos de PIB em paridade de poder de compra (PPP), já que as economias do G7 estão à beira do colapso e os Estados Unidos registram uma inflação recorde.

O poder do acrônimo foi confirmado por um dos pesquisadores sobre a Europa na Academia de Ciências Russa, Sergei Fedorov: três membros dos BRICS (Brasil, China e Índia) ao lado da Rússia, mais a Indonésia, Irã, Turquia e México, todos não aderentes à guerra econômica ocidental contra a Rússia, logo dominarão os mercados globais.

Fedorov enfatizou o poder do novo G8, tanto em termos populacionais quanto econômicos: “Se o Ocidente, que restringiu todas as organizações internacionais, segue suas próprias políticas e pressiona a todos, então por que essas organizações são necessárias? A Rússia não segue estas regras”.

O novo G8, ao invés disso, “não impõe nada a ninguém, mas tenta encontrar soluções comuns”.

A chegada do novo G8 aponta para o inevitável advento dos BRICS +, um dos temas-chave a serem discutidos na próxima cúpula dos BRICS na China. A Argentina está muito interessada em fazer parte dos BRICS ampliados e aqueles membros (informais) do novo G8 – Indonésia, Irã, Turquia, México – são todos candidatos prováveis.

A interseção do novo G8 com os BRICS+ levará Pequim a turbinar o que já foi conceituado como a estratégia dos Três Anéis de Cheng Yawen, do Instituto de Relações Internacionais e Relações Públicas da Universidade de Estudos Internacionais de Xangai.

Cheng argumenta que desde o início da guerra comercial EUA-China de 2018 o Império das Mentiras e seus vassalos têm objetivado “desacoplar”; assim, o Reino do Meio deveria rebaixar estrategicamente suas relações com o Ocidente e promover um novo sistema internacional baseado na cooperação Sul-Sul.

Parece que se ele caminha e fala como o novo G8, isso é porque é o verdadeiro negócio.

A revolução atinge o “campo global”

Cheng enfatiza como “a hierarquia centro-periferia do Ocidente foi perpetuada como regra implícita” nas relações internacionais; e como a China e a Rússia, “devido a seus rígidos controles de capital, são os dois últimos obstáculos para um maior controle da periferia global pelos Estados Unidos”.

Então, como os Três Anéis – na verdade, um novo sistema global – seriam implantados?

O primeiro anel “são os países vizinhos da China na Ásia Oriental, Ásia Central e Oriente Médio; o segundo anel é o vasto número de países em desenvolvimento na Ásia, África e América Latina; e o terceiro anel se estende aos países industrializados tradicionais, principalmente a Europa e os Estados Unidos”.

A base para a construção dos Três Anéis é uma integração mais profunda do Sul Global. Cheng observa como “entre 1980-2021, o volume econômico dos países em desenvolvimento aumentou de 21 para 42,2% da produção total do mundo”.

E ainda “os atuais fluxos comerciais e investimentos mútuos dos países em desenvolvimento ainda dependem fortemente das instituições financeiras e monetárias controladas pelo Ocidente. A fim de quebrar sua dependência do Ocidente e aumentar ainda mais a autonomia econômica e política, uma cooperação financeira e monetária mais ampla e novos conjuntos de instrumentos entre os países em desenvolvimento deveriam ser construídos”.

Esta é uma referência velada às discussões atuais dentro da União Econômica da Eurásia (EAEU), com participação chinesa, projetando um sistema financeiro-monetário alternativo não apenas para a Eurásia, mas para o Sul Global – contornando possíveis tentativas americanas de impor uma espécie de Bretton Woods 3.0.

Cheng usa uma metáfora maoísta para ilustrar seu ponto de vista – referindo-se ao ‘caminho revolucionário de ‘cercar as cidades desde o campo””. O que é necessário agora, argumenta ele, é que a China e o Sul Global “superem as medidas preventivas do Ocidente e cooperem com o ‘campo global’ – os países periféricos – da mesma forma”.

Portanto, o que parece estar no horizonte, como conceituado pela academia chinesa, é uma “nova interação G8/BRICS+” como a vanguarda revolucionária do mundo multipolar emergente, projetada para se expandir para todo o Sul Global.

Isso, naturalmente, significará uma internacionalização aprofundada do poder geopolítico e geoeconômico chinês, incluindo sua moeda. Cheng qualifica a criação de um sistema internacional de “três anéis” como essencial para “romper o cerco [americano]”.

É mais do que evidente que o Império não vai aceitar isso calado.

O cerco vai continuar. Acrescente o Quadro Econômico Indo-Pacífico (IPEF), como mais um “esforço” proverbial para – o que mais – conter a China, mas desta vez todo o caminho do Nordeste Asiático ao Sudeste Asiático, com a Oceania sendo lançada como um bônus.

A versão americana no IPEF pega pesado no “engajamento econômico”: névoa de guerra (híbrida) disfarçando a intenção real de desviar o máximo de comércio possível da China – que produz praticamente tudo – para os Estados Unidos – que produz muito pouco.

Os americanos entregam o jogo concentrando fortemente sua estratégia em 7 das 10 nações da ASEAN – como parte de mais uma corrida desesperada para controlar o “Indo-Pacífico”, dominado pelos americanos. Sua lógica: Afinal de contas, a ASEAN precisa de um “parceiro estável”; a economia americana é “comparativamente estável”; assim, esse bloco deve se submeter aos objetivos geopolíticos americanos.

O IPEF, sob a capa do comércio e da economia, toca a mesma velha melodia, com os EUA indo atrás da China por três ângulos diferentes.

– O Mar do Sul da China, instrumentalizando a ASEAN.

– O Mar Amarelo e o Leste da China, instrumentalizando o Japão e a Coréia do Sul para impedir o acesso direto dos chineses ao Pacífico.

– O “Indo-Pacífico” maior (isto é, a Índia entraria como membro do Quad).

É tudo rotulado como uma torta de maçã doce de “Indo-Pacífico mais forte e mais resistente com comércio diversificado”.

Os corredores do BRI estão de volta

Pequim não está perdendo o sono pensando no IPEF: afinal de contas, a maioria de suas múltiplas conexões comerciais através da ASEAN são sólidas como pedra. Taiwan, no entanto, é uma história completamente diferente.

No diálogo anual de Shangri-La no último fim de semana em Cingapura, o Ministro da Defesa chinês Wei Fenghe foi direto ao ponto, definindo de fato a visão de Pequim para uma ordem da Ásia Oriental (não “baseada em regras”, é claro).

A independência de Taiwan é um “beco sem saída”, disse o General Wei, ao afirmar os objetivos pacíficos de Pequim, ao mesmo tempo em que atacava vigorosamente uma série de “ameaças contra a China” dos EUA. A qualquer tentativa de interferência, “lutaremos a todo custo, e lutaremos até o fim”. Wei também dispensou com facilidade a campanha dos EUA para “seqüestrar” as nações indo-pacíficas, sem sequer mencionar o IPEF.

A China está firmemente concentrada na estabilização de suas fronteiras ocidentais – o que lhe permitirá dedicar mais tempo ao Mar do Sul da China e ao “Indo-Pacífico”, mais adiante.

O Ministro das Relações Exteriores chinês Wang Yi fez uma viagem crucial ao Cazaquistão – membro pleno do BRI e da EAEU – onde se encontrou com o Presidente Kassym-Jomart Tokayev e todos os seus homólogos do “-stãos” da Ásia Central em uma cúpula em Nur-Sultan. O grupo – anunciado como C+C5 – discutiu tudo, desde segurança, energia e transporte até o Afeganistão e vacinas.

Em suma, tudo isso foi sobre o desenvolvimento de corredores muito necessários do BRI/Novas Rotas da Seda – em contraste com as proverbiais lamentações ocidentais sobre o BRI chegar a um beco sem saída.

Dois projetos tipo ‘BRI-até-os-ossos’ irão se sobressair: o Gasoduto China-Ásia Central Linha D, e a ferrovia China-Quirguistão-Uzbequistão. Ambos estão há anos em construção, mas agora se tornaram absolutamente essenciais, e serão os principais projetos do BRI no corredor da Ásia Central.

O Gasoduto China-Ásia Central Linha D ligará os campos de gás do Turcomenistão a Xinjiang via Uzbequistão, Tajiquistão e Quirguistão. Esse foi o tema principal das discussões quando o presidente do Turcomenistão, Berdimuhamedow, visitou Pequim para os Jogos Olímpicos de Inverno.

A ferrovia de 523 km China-Quirguistão-Uzbequistão, por sua vez, ligará de forma crucial os dois “-stãos” da Ásia Central à rede ferroviária de carga China-Europa, através das redes ferroviárias existentes no Turcomenistão.

Considerando o atual cenário geopolítico incandescente da Ucrânia, trata-se de uma bomba, pois permitirá que o frete da China viaje via Irã ou via portos do Cáspio, contornando a Rússia sancionada. Sem ressentimentos, em termos da parceria estratégica Rússia-China: apenas negócios.

Os quirguizes, previsivelmente, ficaram extasiados. A construção começa no próximo ano. Segundo o presidente do Quirguistão, Zhaparov, “haverá empregos. Nossa economia vai crescer”.

Fale da China atuando de forma decisiva em seu “primeiro anel”, na Ásia Central. Não espere que nada de tal amplitude e alcance geo-econômico seja “oferecido” pelo IPEF em qualquer lugar da ASEAN.

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Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

Originalmente em The Saker Blog

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