O novo presidente do Irã e a geopolítica mundial | Lejeune Mirhan

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Por Lejeune Mirhan

Desde quinta-feira, dia 5 de agosto, o Irã já tem o seu oitavo presidente desde a Revolução Islâmica de 10 de fevereiro de 1979, há 42 anos, revolução essa, pesadelo dos Estados Unidos. O novo presidente, Dr. Ebrahim Raisi, doutor em direito e professor universitário, é tido pela mídia de direita e sionista internacional, como ultraconservador. Pretendo neste pequeno novo ensaio, discorrer sobre os desdobramentos para a geopolítica mundial deste novo período, que se insere nas grandes mudanças que estamos presenciando mundialmente.

Vivemos um fato político muito importante na semana passada que a imprensa brasileira não deu nenhum destaque. A imprensa internacional, por sua vez, deu muito destaque. O evento foi a posse do Dr. Ebraim Raisi como novo presidente da República Islâmica do Irã.

Quero detalhar um pouco mais esse tema, em função da tensão que nós estamos presenciando na geopolítica mundial, a partir do Golfo pérsico. Eu vou fazer algumas considerações sobre o novo cenário na geopolítica mundial, com essa troca de Presidência no Irã.

Sai Hassan Rohani e entra Ebraim Raisi. Isso tem uma diferença significativa. O que agora terminou seus oito anos de governo, o Rohani, não era na eleição de 2013, o candidato preferencial do establishment islâmico, nem na sua reeleição em 2017.

O Irã é uma República Islâmica democrática, a despeito de muitos os que se pretendem analistas internacionais e falam exatamente o contrário. É uma democracia que eles construíram nos seus 42 anos da revolução. Então, não cabe a nós opinar. A nós, cabe respeitar. Apenas isso. Nossa prática não é da interferência e ingerência em assuntos internos de outros países. Isso diz respeito às decisões de seus povos e seus governos. Como não queremos que façam isso conosco, não devemos fazer com os outros. Isso nos lembra a Paz de Westfália, de 1648 (1).

Aliás, o que é preciso dizer é que todos os encontros das chancelarias da Rússia e da China, que são hoje os dois maiores aliados estratégicos no mundo para a contenção do imperialismo estadunidense, quando eles se encontram, eles sempre soltam documentos e notas, bem como artigos na imprensa, ponderando que não há um modelo único de democracia.

Quem é que disse que a democracia ocidental é melhor que a dos iranianos? Quem é que disse que a democracia dos Estados Unidos – que não é uma democracia – do meu ponto de vista, é o melhor modelo do mundo. Lá a eleição para presidente não é direta. Existem muitas restrições ao registro do eleitor para exercer o direito de voto em pelo menos 15 estados.

A posse do dr. Raisi contou com 73 delegações de países estrangeiros que mantém relações diplomáticas com Teerã, inclusive, algumas daquelas monarquias do Golfo, que têm muitas diferenças com a República Islâmica do Irã. Uma posse muito importante. Raisi tem 60 anos, e é muito experiente.

Ele participou ativamente da revolução, em 10 de fevereiro de 1979, quando era jovem e exerceu muitos cargos, inclusive, o equivalente a chefe do Poder Judiciário Islâmico. Eu quero começar dizendo que há um claro fracasso da política externa que Joe Biden, dito democrata, está desenvolvendo para o mundo.

Esta é uma opinião que eu vou consolidando. Mas, não é este o objetivo deste texto, mas sim emitir minha análise sobre a política externa apenas no que diz respeito ao Irã, que eu não poderia deixar de falar, por este ensaio especial.

A questão central hoje, do ponto de vista dos interesses do Irã e dos Estados Unidos, é a questão do Acordo Nuclear estabelecido e assinado em 2015 sob os auspícios dos Estados Unidos, sob a presidência de Barack Obama, que tinha Biden como vice-presidente.

Todos os analistas, eu não vi nenhuma exceção, diziam que era certo que o Biden voltaria para o acordo que foi denunciado por Donald Trump quando ele tomou posse em janeiro de 2017. Ele denunciou e saiu. E, até agora, dia 20 de agosto próximo vai completar sete meses, 210 dias, de governo de Biden e ele não só não voltou ao acordo, como está fazendo exigências para voltar.

Eu acho isso absolutamente descabido. Porque, você só pode discutir um contrato, um acordo, um documento final de uma conferência que você participe. Como é que você vai discutir cláusulas de um acordo que já tinha sido assinado em 2015, se você não é mais parte do acordo que continua sem você.

Isto, porque faziam parte do acordo, cinco membros do Conselho de Segurança. Os Estados Unidos saíram, mas ficaram França, Inglaterra, Rússia e China. A ONU chancelando e mais ainda a Alemanha. Por isso que dizia P5+1. Agora é P4+1.

O acordo continua. Por certo, o Irã não se sente na obrigação de cumprir exatamente todas as cláusulas, porque é um acordo que ficou sem a maior potência imperialista do planeta, que não é mais hegemônica. E eles estão se dando ao luxo de não cumprir a principal cláusula do acordo que dizia que o enriquecimento do urânio se daria no limite de 3,96%, que é o suficiente para muitas coisas, em relação ao urânio enriquecido.

O Irã não quer fabricar uma bomba, é contra o armamento nuclear. O Irã está enriquecendo próximo de 20% e não tem a menor possibilidade de fazer uma bomba, porque precisa enriquecer a 90%. O Irã precisaria de centenas, talvez milhares de novas centrífugas, o que demanda muito tempo.

Agora Israel, que é inimigo visceral da República Islâmica do Irã, está fazendo “terrorismo”, dizendo que o Irã já está perto de obter a sua bomba, o que não é verdade, absolutamente. Uma grande mentira. É um terrorismo que eles fazem mundialmente, inclusive, para impedir que os Estados Unidos retornem ao acordo, que é o que Israel não quer.

É possível perceber a força do Estado Sionista de Israel que bloqueia a volta dos Estados Unidos ao acordo nucelar, que é muito bom. O nome do acordo, na sigla inglesa, é: JCPOA (Joit Comprehensive Plan of Action), traduzindo, Plano Conjunto de Ação Abrangente.

Ele não tem o nome de acordo nuclear. Então, essa atitude dos Estados Unidos, reflexo da falência da política externa implantada por Biden, que se diz democrata, pouco alterou a política do fascista Donald Trump, de hegemonismo. Em alguns aspectos Biden está conseguindo ser pior do que Trump.

Fazendo um parênteses, eu não estou entre os analistas que disseram, na época da campanha dos Estados Unidos em novembro de 2020, que Biden e Trump são a mesma coisa. Não é a mesma coisa. Tanto interna quanto externamente. No entanto, é fato, que em alguns aspectos da política externa, Biden está sendo pior.

Por que ele cede à pressão, neste momento, do sionismo internacional,  para não voltar ao acordo? Israel está fazendo ameaças. Em um momento muito tenso no Golfo, onde aconteceu no dia 30 de julho um ataque que, provavelmente, é um ataque de chamada “false flag” (falsa bandeira) e não se sabe quem é que atacou o navio de bandeira liberiana, de propriedade de um israelense.

Israel, imediatamente, apontou o dedo para República Islâmica do Irã, que nega peremptoriamente que tenha feito isso. Um ataque desse tipo pode ter sido feito por muitos grupos, inclusive grupos guerrilheiros que atuam em vários países da região, como Iêmen, Iraque, Síria, Líbano e Palestina. Mesmo ali, os guerrilheiros que resistem às investidas no Norte Israel e Sul do Líbano, eles têm drones, mísseis e tudo poderia ser feito por eles. Hoje qualquer um pode adquirir um drone de longa autonomia por dez mil dólares.

Quando Israel compra essa narrativa e a divulga, praticamente é unânime esta opinião mentirosa, sem prova alguma, praticamente vira a opinião internacional. Todo mundo acredita exatamente nisso. Vejam a força do sionismo.

Redes mundiais de televisões e agências de notícias dão isso como verdade absoluta, o que por si só é um verdadeiro absurdo. Quem menos têm interesse em uma guerra no Golfo e não quer isso, é o Irã. Um país de paz. Isto, porque o Irã é um país verdadeiramente muçulmano.

Pelo fato de eu estudar aquela região, quero dizer para vocês que eu estudo o principal livro, que é o mais importante para os muçulmanos, o Alcorão Sagrado. Nele está escrito, de forma muito clara, a proibição de um muçulmano verdadeiro ser o que inicia uma agressão. Não pode ser ele o agressor. No versículo 190 diz textualmente: “Combatei, pela causa de Deus, aqueles que vos combatem; porém, não pratiqueis agressão, porque Deus não estima os agressores” (2).  

E, o 191 diz assim: “Matai-os onde quer se os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram, porque a perseguição é mais grave do que homicídio. Não os combatais nas cercanias da Mesquita Sagrada, a menos que vos ataquem. Mas, se ali vos combaterem, matai-os. Tal será o castigo dos incrédulos [grifos nossos].”

O livro sagrado dá as instruções, inclusive, de como fazer a guerra: proteger mulheres, proteger crianças, idosos, no campo do inimigo. Ou seja, é claro que o verdadeiro muçulmano não deve tomar a iniciativa do ataque.

O Irã é um país que tem duas estruturas: a estrutura do poder secular, civil com seu Poder Judiciário, como em todos os países. Tem também um parlamento, com muitos partidos políticos funcionando. Há, inclusive, deputados judeus.

A comunidade judaica é feliz da vida com o governo do Irã, porque eles não são perseguidos. Porque também tem muitas passagens nas práticas do profeta Mohammad e pelo menos um dos Califas, chamado Ali Abu Talib, que devam exemplos de que os muçulmanos deveriam proteger os seguidores do livro sagrado, a Bíblia cristã e judaica. Eles não podem ser atacados.

Por isso que eu tenho dito que aquele grupo terrorista que se chama Estado Islâmico, não é nem Estado e, muito menos, islâmico. Eles cortam a cabeça de cristãos e de muçulmanos xiitas, que não é permitido pelo Islã.

Então, a estrutura civil e secular, será presidida pelo doutor Raisi. Mas, existe também a estrutura do Poder Religioso Islâmico, que tem muita importância naquele país, que é encabeçada pelo Líder Espiritual do Irã, o Aiatolá Ali Khamenei, que sucedeu o Aiatolá Ruhollah Khomeini, que morreu em 1989, dez anos depois da revolução de 1979.

Então, Khamenei governa o poder espiritual do Irã. Estão subordinados a este poder são as Forças Armadas, a política externa, incluindo a política nuclear e a Guarda Revolucionária Islâmica, que é temida pelo imperialismo, que acusa essa organização terrorista e que era comandada pelo major-general Qaseem Suleimani, assassinado por Donald Trump, em 7 de janeiro de 2020.

Quem a comanda hoje é o general Hossein Salami. Eles prestam a solidariedade revolucionária, não enquanto muçulmano, mas enquanto revolucionários e anti-imperialistas, em qualquer lugar que eles são chamados.

Não foi só o exército sírio-árabe que venceu a guerra de agressão à Síria, uma guerra terrorista movida por potências regionais contra a Síria, apoiada pelos EUA. Foram guerrilheiros do Hezbollah que se deslocaram para ajudá-los. Guerrilheiros de um braço internacional da Solidariedade Revolucionária dos Povos, membros da Guarda Islâmica também foram para a Síria lutar contra o terrorismo. Isso é algo que os comunistas faziam no passado. Isso ocorreu por exemplo, na Guerra Civil Espanhola, em 1936.

Quantos brasileiros foram para a Segunda Guerra ajudar os “partigiani” na resistência ao nazismo. Hoje, quem faz isso são eles. Os guerrilheiros muçulmanos largam tudo, deixam a família, deixam filhos, para se colocar ao lado de revolucionários, que lutam contra o imperialismo no mundo inteiro e contra o sionismo.

O Irã quer que os EUA voltem ao Acordo Nuclear, não tenho dúvidas disto. No limite, o Irã tem uma absoluta convicção. Tenho convicção que o Irã, no limite, restabeleceria relações diplomáticas com todos os países que pedirem para abrir uma Embaixada em Teerã. Isto vale para os Estados Unidos também, se eles quiserem. Eu temo que eles não queiram a paz.

Vale também para a Arábia Saudita. Até a Arábia Saudita mandou um representante do rei para a posse do novo presidente Raisi. Não era um príncipe nem um embaixador, mas um conselheiro do rei. Mas, o país estava representado. Através do Iraque, a Arábia Saudita fez consultas sobre como o Irã reagiria se Arábia Saudita pedisse para reabrir embaixada lá. Aliás, quando assassinaram o major-general Soleimani, dia 7 de janeiro de 2020, ele trazia no bolso essa resposta. Ele estava ali como diplomata e mensageiro da paz e não estava como general e, ainda assim, foi assassinado.

Então, mataram o mensageiro que trazia a resposta da Arábia Saudita, via primeiro-ministro do Iraque, que transmitiria ao rei saudita, pois eles não se falam direto por não terem relações diplomáticas. Eu não sei o conteúdo daquela carta, mas eu desconfio que a resposta era sim: nós aceitaremos, vamos abrir a embaixada sem nenhum problema. Isto, porque, o Irã é assim.

Os xiitas são assim. Eles são da paz, eles são quietistas, introspectivos, reflexivos, mas é bom não brigar com eles. Diferente dos cristãos que falam que ao receber um tapa num lado do rosto deve-se dar o outro, eles jamais darão o primeiro tapa, mais cuidado se você der o primeiro, a resposta será dura.

Tanto que tem declarado que qualquer agressão ao Irã nesse momento, poderá significar até uma terceira guerra mundial. Isso porque ao lado do Irã estão ninguém menos que Xi Jinping da República Popular da China, ele que recentemente assinou um tratado de US$ 500 bilhões de dólares por 25 anos com Teerã e, Vladimir Putin, presidente da Federação Russa, que mantêm entre si uma aliança estratégica.

Eles fundaram em 2001, completando 20 anos este ano, a Organização de Cooperação de Xangai-OCX. Vamos ouvir falar muito disso. A sigla inglesa é SCO (Shangai Cooperation Organization), uma organização claramente militar, secundariamente econômica e, secundariamente, política. O Irã é um observador e será nas próximas semanas ou meses, elevado à condição de membro pleno que já tem Índia, Paquistão, Uzbequistão, Tajiquistão e vários outros países que fazem parte também.

Então, nós temos uma situação nova e aí, entramos no aspecto sobre qual é o limite da eficácia das sanções que os Estados Unidos insistem em impor para o Irã. De meu ponto de vista a eficácia é zero. Não há um analista internacional que corrobore com a teoria furada do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que é a mesma que vem desde George W. Bush (filho), passando por Obama, por Donald Trump e continua com Joe Biden, sem nenhuma alteração.

Não se pode querer governar o mundo por sanções. Isso não pode ser. Está aí o caso de Cuba que vai fazer 60 anos em fevereiro do ano que vem, vivendo sob sanções, sobre embargo econômico. Mas, Cuba não caiu e não cairá.

São dezenas de países que têm sanções, inclusive a China e a Rússia, com todo o poder que eles têm, sanções vindas dos Estados Unidos. A China vende, por ano, para os Estados Unidos 500 bilhões de dólares e eles, vendem para a China só 100 bilhões. Eles ficam devendo, todo ano, 400 bilhões. E, mesmo assim, eles aplicam sanções. É uma política externa derrotada. Governar por sanções é uma política que não funciona.

A mídia brasileira ignorou esta nova realidade geopolítica no mundo, omitindo ou distorcendo o verdadeiro perfil do Dr. Ebrahim Raisi e isto não é qualquer coisa. A imprensa diz que ele é fundamentalista, ultraconservador. Como assim conservador?

Meus amigos iranianos me explicaram que, ser de direita, para nós no Brasil significa ser de esquerda no Irã. E vice-versa. Tenho notícia que a esquerda iraniana está lutando para derrubar o governo da República Islâmica do Irã. Mas, eu não vou entrar nos assuntos internos, que é assunto do povo iraniano.

O clima que o mundo vivia em 2012, já eram fortes as sanções para que o Irã não desenvolvesse seu programa nuclear, e estas de nada adiantaram. Três anos depois em 2015, os Estados Unidos tiveram que mudar de posição e acabaram cedendo ao assinar o Acordo Nuclear, que é considerado ou era pelo menos na época do Obama e do Biden como vice, considerado um grande acordo e chancelado pela ONU.

Foi uma grande vitória o Irã ter toda a liberdade de desenvolver o seu programa nuclear, sem a menor possibilidade e nenhuma desconfiança de que ele vai fazer a bomba. No limite, ele tem direito a isso, qualquer país do mundo tem esse direito. Por que só tem nove países que tem a bomba? São os membros do chamado Clube atômico (3).

Então, todas essas pressões não tiveram nenhuma eficácia. Do ponto de vista do quadro geopolítico mundial, para fazer com que o Irã modifique de posição. Ele não vai modificar e não vai ceder a sua soberania. O doutor Raisi quando chamado de ultraconservador, na verdade, ele está sendo mesmo é ultra-antiimperialista e ultra antissionista, é ultra-anti-Estado de Israel, pelo que Israel faz com o povo palestino, tomando diariamente, centímetro por centímetro, quadrado das suas terras.

Hoje restam nas mãos dos palestinos, talvez no máximo 8% do seu território histórico. O Irã e a Síria são hoje os países mais solidários para com os palestinos. Portanto, a fraqueza da política externa do governo Joe Biden, que já vem de Donald Trump, é tal, que eles não conseguem, sequer impedir que a Rússia exporte gás para a Europa, através do gasoduto Nord Stream 2, que já está na fase final de construção. Ainda mais pedir ao Irã para parar o seu programa nuclear.

Por isso, os analistas dizem que seria melhor os Estados Unidos voltarem a tentar argumentar e discutir e até controlar a aplicação do acordo, como membro dele. Não se pode propor modificações em um acordo que não se participa dele. Por isso, uma das minhas conclusões inequívocas, não há como não dizer que é uma política externa derrotada, fadada ao fracasso, sem futuro.

E o Irã se fortalece a cada dia. Ele já lidera o chamado arco da resistência no Oriente Médio, que enfrenta o sionismo e enfrenta o imperialismo. Integram essa aliança a Síria, o Líbano, o Iraque e o Hezbollah. Então, essa é uma situação nova que estamos vivendo. Portanto, essa primeira conclusão é a mais importante. Que resta ao governo de John Biden, se for esperto, voltar ao acordo nuclear.

O novo presidente Doutor Ebrahim Raisi, que tomou posse no dia 5 de agosto, assume o país neste novo contexto da geopolítica mundial onde Israel está dizendo que vai atacar o Irã, a partir da convicção, sem prova nenhuma, de que eles têm de que foi o Irã que atacou o petroleiro deles, que é de propriedade de um israelense milionário.

É uma ameaça, uma bravata. Eu não vou dizer aqui que Israel não poderá atacar, mas acho muito difícil que isso aconteça. Israel hoje está sobre a mira de centenas, para não dizer de milhares de mísseis que estão posicionados em território iemenita, sírio, iraquiano, libanês e do próprio Irã. O Irã têm mísseis que atingem quase que o mundo inteiro hoje, disparados para oeste ou para leste.

De que maneira Israel atacaria o Irã? Tecnicamente falando, a autonomia dos aviões israelenses da linha “F”, da Boeing, eles até têm autonomia, de Tel Aviv até Teerã, em linha reta, ida e volta o combustível seria suficiente, mas isso seria impossível, porque teria que passar sobre o espaço aéreo da Síria e do Iraque que está fechado para aviões israelenses, ainda mais sabendo que são aviões militares que estão indo para atacar um país irmão.

Eles poderiam ir então pelo Mediterrâneo, dar uma volta e passar por cima da Turquia. Eu tenho dúvida de que a Turquia permitiria. Atacaria o Irã e voltaria. Aí, não teria autonomia suficiente. Vai ter que parar em algum lugar ou ser reabastecido no ar. Então, tecnicamente falando, está muito difícil.

Se os Estados Unidos participarem do ataque, aí há risco real de uma Terceira Guerra Mundial. Poderão fazer mas, no limite, eu acho que se quiserem fazer uma guerra, será contra a China e não contra o Irã. O que seria pior, fazer uma guerra contra a China ou com o Irã? Porque, tem dois bilhões de muçulmanos no mundo. Sejam xiitas ou sunitas, eles permitiriam que seus irmãos fossem mortos?

Os Estados Unidos podem, então autorizar o bombardeiro a uma distância bem menor, saindo da maior base da OTAN que, lamentavelmente, está em território de país muçulmano, que é a base de Incirlik, que fica na Turquia.

Eu duvido que o presidente turco Recep Tayyip Erdogan permita isso, mesmo sendo uma base da OTAN da qual ele é membro. Então, acho que tem muita bravata, mas eu não vou dizer que seja impossível que isso aconteça. Eu prefiro usar o termo “improvável” que aconteça, mas não é impossível.

Eu até faço um apelo para que Israel pense muitas vezes antes vir a tomar essa iniciativa, porque o seu famoso e poderoso exército em temos de poder bélico terrestre pode ser grande, mas de que adiantaria isso? Israel faz bravatas e não vai conseguir cumprir a “promessa”.

Eu finalizo dizendo que a posse do Dr. Raisi tem um significado especial, exatamente pela forte ligação dele com o líder espiritual iraniano Ali Khamenei. Eles são muito ligados. Aliás, na véspera da posse, ele esteve com Khamenei e jurou sob a Constituição iraniana, perante o líder espiritual. Então, primeiro foi com o líder espiritual e, no dia seguinte é que se deu a solenidade protocolar e diplomática com convidados estrangeiros.

O Irã vive hoje, o que eu classificaria como um país e uma economia da resistência. O Irã sabe e sempre soube, desde 1979, que sobreviver com todas essas restrições, embargos e sanções e os oito anos de guerra, quando Saddam Hussein, a serviço dos Estados Unidos, bombardeou de 1980 a 1988 o país, a jovem República do Irã, nada seria fácil para eles.

Então, o país se fortalece nesse processo. E, sob a presidência de Ebrahim Raisi, a tendência é que os Estados Unidos fiquem cada dia mais isolados no Oriente Médio. Eu diria até que eles estão saindo de lá, retirando suas tropas, ainda que não na totalidade. Na medida em que eles vão saindo, na velocidade que eles saem e na quantidade de soldados que eles desocupam, inversamente proporcional, vão chegando os chineses e os russos.

A Rússia já está lá há muito tempo, na Síria e nos países com os quais ela está mantendo os seus acordos. E, a China, agora também vai se colocar à disposição de todo o povo árabe do Oriente Médio e suas respectivas etnias. Ali existem muitas etnias que vivem naquela região. E todas se unirão em defesa do Irã, em aliança com a China e a Rússia. O fracasso da política externa estadunidense encontra-se em um beco sem saída. E serão derrotados.

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Prof. Lejeune Mirhan é sociólogo, professor universitário (aposentado) de Sociologia e Ciência Política, escritor e autor de 14 livros, é também pesquisador e ensaísta

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