O polêmico novo conceito de anti-semitismo | Valeria Rodriguez

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Por Valeria Rodriguez 


A Resolução 114 do Ministério das Relações Exteriores (da Argentina) incorporou o novo conceito de anti-semitismo da Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto, Ihra, em sua sigla em inglês.

O Ihra, é uma organização criada em 2002 cujo objetivo é a memória e a investigação do holocausto, além de manter os compromissos da Declaração de Estocolmo.

O novo conceito de anti-semitismo foi apresentado em 2016 e os 31 países que compõem o Ihra já o incorporaram, como é o caso da França, Grã-Bretanha e Uruguai.

De acordo com essa aliança, o anti-semitismo é “uma certa percepção dos judeus que pode ser expressa como ódio aos judeus. As manifestações físicas e retóricas do anti-semitismo são dirigidas a pessoas judias ou não-judias e / ou a suas propriedades, as instituições do Comunidades judaicas e seus locais de culto”.

Esse conceito incorpora a palavra percepção, que é subjetiva e pode levar a grandes conflitos com as vozes dissidentes às políticas de Israel e pode até levar à equalização do conceito de antisionismo.

De fato, em uma declaração assinada pelo Diretor de Relações Internacionais do Centro Simón Wiesenthal, o Dr. Shimon Samuels afirmou que “a adoção pela Argentina da definição que iguala anti-sionismo e anti-semitismo segue na direção certa, assim como a decisão de qualificar o Hezbollah como um grupo terrorista um ano atrás. Esperamos que o restante dos países da América Latina possa emular esse caminho em ambas as questões.”

O que é o sionismo?

O sionismo é uma ideologia política que surgiu no final do século 19 e usou o sofrimento dos judeus para justificar a criação de Israel e a ocupação das terras palestinas.

Deve-se notar que muitos judeus não se identificam com o sionismo, de fato existem movimentos como o Naturei Karta que são liderados por rabinos que não reconhecem Israel e são contra as políticas genocidas do sionismo.

Segundo Ezequiel Adamovsky, historiador e pesquisador do Conicet, em um artigo intitulado “Anti-sionismo não é anti-semitismo”, ele diz que cada vez mais judeus entendem que o legado cultural milenar de um povo não pode estar ligado aos interesses de um estado militarista.

Segundo ele, intelectuais de destaque, como Naomi Klein, denunciam um novo “apartheid” contra os palestinos e pedem um boicote a Israel.

Até rabinos e soldados israelenses tornaram pública sua oposição. Mas, vozes também foram ouvidas em face da manipulação da denúncia “anti-semita” e da memória do Holocausto.

Sir Gerald Kaufman, membro do Parlamento Britânico, reclamou publicamente que o governo israelense “explora cinicamente o sentimento de culpa entre os cristãos pelo massacre de judeus durante o Holocausto”;, com o único objetivo de “justificar o assassinato de palestinos”.

A nova incorporação do conceito antissemita ocorre em um contexto geopolítico em mudança, onde a América Latina está sendo reconfigurada em relação às relações exteriores. Por um lado, o fortalecimento dos laços entre Venezuela e Irã, ao contrário das políticas de Israel em torno da Palestina e da região, e por outro lado, a presença sionista na América Latina em países importantes da região, como a Colômbia, Brasil e Argentina.


Por outro lado, a formação do novo governo de coalizão israelense e as declarações relativas à anexação da Cisjordânia não podem ser negligenciadas, o que levou a Jordânia e a Autoridade Nacional Palestina a argumentar que, se isso acontecesse, eles iriam quebrar qualquer acordo de negociação com Israel.

Dada a possível anexação da Cisjordânia, apesar da rejeição de grande parte da opinião internacional (incluindo a ONU), o novo conceito pode ser usado como uma ferramenta para silenciar vozes pró-palestinas, e é por isso que organizações sociais e grandes personalidades da política, cultura e a religião argentinas solicitam a revogação de tal resolução.

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Valeria Rodríguez é analista internacional e co-apresentadora do programa “Feas, Sucias y Malas” da Rádio Gráfica, de Buenos Aires, Argentina.

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