O que quer a OTAN no Iraque? | Valeria Rodriguez

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Por Valeria Rodriguez 

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) planeja aumentar em oito vezes o número de suas forças no Iraque com a intenção de expandir as atividades de treinamento da organização na área assim que a epidemia de Covid ceder.

Desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos têm desempenhado um papel de liderança dentro da organização composta por 30 estados, sendo o que mais contribui para o orçamento com 22,1%, seguidos pela Alemanha com 14,70%, França com 10,60% e o Reino Unido com 9,8%.

Durante a administração Trump, a relação com a OTAN foi um tanto acidentada, na verdade ele a tratou como uma organização obsoleta e uma relíquia da Segunda Guerra Mundial, pois de alguma forma entendeu que seu poder em áreas como a Ásia Ocidental já não surtia o efeito desejado e estava perdendo dinheiro, mas apesar disso ele não rompeu com ela, como fez com outras organizações.

Com a administração Biden, isto muda, pois a estratégia dos Democratas é usar todos os instrumentos de poder existentes para proteger seus interesses, particularmente no Iraque, planejando e gerenciando a idéia da expansão da OTAN, especialmente na esteira das pressões internas e do governo iraquiano para retirar as tropas americanas.

A invasão e ocupação do Iraque pelos Estados Unidos em 2003 foi um fator importante para a entrada das forças da OTAN no Iraque. Olhando para a coalizão liderada pelos Estados Unidos na guerra do Iraque, pode-se ver que dezesseis membros dessa organização cooperaram com Washington nessa questão. Embora a presença de alguns deles não tenha sido significativa; mas certamente desempenhou um papel importante na preparação dos políticos e da opinião pública para que os EUA permanecessem ali sob o pretexto de treinamento militar.

A presença da OTAN no Iraque

Em 2018, a pedido do governo do país árabe, foi acordado estabelecer uma missão de aconselhamento e treinamento da OTAN para as tropas iraquianas. Em seu site, afirma que a missão tem uma articulação de pessoal civil e militar, e trabalha em estreita colaboração com outros atores internacionais no terreno.

Após o ataque norte-americano que matou os generais Soleimani e Mohandes em janeiro do ano passado, o Congresso iraquiano pediu aos Estados Unidos que retirassem suas tropas, mas o processo foi realizado a conta-gotas e após árduas negociações entre Trump e o primeiro-ministro iraquiano, Mostafa Khadimi, foi acordado que as tropas seriam retiradas, mas que a presença de outros seria mantida para prestar assessoria militar e ficaria a cargo da OTAN, o que obviamente enfureceu grande parte do arco político iraquiano e o povo que não aceita a presença dos EUA.

Da mesma forma, em meados de fevereiro, o Secretário-Geral da OTAN Jens Stoltenberg disse que a organização aumentaria oito vezes seu número de tropas no Iraque.

A decisão foi rejeitada por autoridades e figuras iraquianas que sustentam que se trata do novo jogo político para continuar a presença dos EUA na área, enquanto outras autoridades governamentais afirmaram que a presença das forças da OTAN é para treinar e assessorar as forças iraquianas.

Desde o ano passado, a situação no Iraque ficou cada vez mais quente mesmo quando no final do ano passado, Trump perdoou quatro soldados veteranos da antiga empresa privada Blackwater (agora Academi) por crimes de guerra em 2007 em Bagdá. Deve-se notar que existe uma legislação especial que permite ao presidente decidir sobre a culpa dos soldados que cometem crimes de guerra no território, algo muito difícil de ser provado.

Trump de alguma forma deixou o caminho aberto para Biden, uma vez que com a crescente tensão e descontentamento no Iraque, seria um pouco mais fácil para ele começar a pressionar para uma ação armada com a desculpa do terrorismo e da insegurança no país. Além disso, há exercícios militares do Comando Central, Cetcom, após a explosão do porto de Beirute, no triângulo fronteiriço da Síria, Iraque e Jordânia onde, poucos meses depois, uma nova célula terrorista foi descoberta.

Por outro lado, com a chegada de Biden ao poder, foi iniciada a retirada de algumas tropas e o restabelecimento de compromissos com diferentes organizações e tratados. De fato, em 19 de fevereiro, Biden esteve presente na primeira cúpula internacional da OTAN e em seu discurso disse: “Os Estados Unidos estão de volta”, referindo-se à sua posição em relação à de seu antecessor, que executou uma política externa isolacionista.

Historicamente, os governos democratas têm usado o argumento da insegurança e do terrorismo para justificar suas ações de guerra e em 25 de fevereiro mostrou que “a raposa perde seus pelos, mas não suas artimanhas”, desde que o Pentágono aprovou dois bombardeios em postos de fronteira da resistência na área de Bokmal na fronteira sírio-iraquiana com a desculpa de responder ao lançamento de foguetes do Iraque contra alvos americanos, mas, aqui tudo é mais complicado uma vez que, segundo a Reuters, naquela área havia instalações de resistência.

De acordo com o porta-voz do Departamento de Defesa dos EUA, John Kirby, o ataque foi em resposta a um recente ataque com foguetes contra as tropas americanas e forças de coalizão no Iraque da província de Erbil (capital curda do Iraque).

De acordo com a agência iraquiana Saverin News, um total de sete alvos foram atingidos, seis dos quais foram evacuados antes do ataque devido a vôos de aviões espiões não tripulados e avisos da Unidade de Inteligência da Resistência.

Esta é a primeira ação de guerra da administração Biden e vem em uma época de relações diplomáticas intensificadas entre os Estados Unidos e o Irã sobre a questão nuclear. Deve-se notar que em meados de fevereiro, o chefe da Agência de Energia Atômica da ONU, Mariano Grossi, visitou Teerã.

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Valeria Rodríguez é analista internacional e co-apresentadora do programa “Feas, Sucias y Malas” da Rádio Gráfica, de Buenos Aires, Argentina.

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