O sucesso é o retorno do fracasso | Fabio Sobral

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Por Fabio Sobral

Comemorou-se essa semana a maior balança comercial já medida no Brasil. Tal fato foi aclamado como o sucesso do atual modelo de exportações de produtos agropecuários e minerais.

Nossa história econômica é marcada por ciclos econômicos de exportação.

No período colonial já havia a dependência ao mercado internacional. A cana-de-açúcar era produzida por multidões de humanos escravizados, latifúndios, riqueza concentrada nos senhores-de-engenho e nas metrópoles portuguesa e inglesa. Miséria e brutalidade ao lado do luxo. Seu ciclo ruiu já no século XVII com a concorrência das Antilhas.

O ciclo seguinte é o do ouro. A escravidão continua. O mercado interno, apesar de mais amplo, ainda é diminuto. Amplia-se a aliança entre setores mercantis e latifundiários, que se beneficia da brutalidade e do atraso, e recusa qualquer melhoria social. Porém, o ciclo também colapsa, com o esgotamento das minas.

Passamos ao ciclo do café. Novamente a brutal escravidão, mas as pressões dentro da Inglaterra pressionam pelo fim desta. Os imigrantes são trazidos numa transição para a mão de obra assalariada, permitindo que os salários produzam uma incipiente industrialização. Parte da riqueza é acumulada internamente, mas com a manutenção de uma arcaica estrutura latifundiária, que recusa uma industrialização mais ampla, mantendo a forma social atrasada.

Os setores urbanos se revoltam e passam, após a crise mundial de 1929, a buscar a industrialização, mas sem tocar no latifúndio. O mercado interno passa a ser determinante, o cerne da economia brasileira, mas a luta dos setores arcaicos contra mudanças sociais se acentua. As sucessivas tentativas de golpes militares até 1964 ditaram uma sociedade que busca a industrialização sem distribuição interna da renda. Eis a razão porque a ditadura voltou a economia industrial para as exportações.

Nos anos 1990 a indústria brasileira afunda aceleradamente. Começamos a retroceder ao sistema pré-industrial latifundiário, com soja, minério de ferro e carne. Parece o sucesso, mas por que acreditar que repetir tal economia de ciclos produzirá resultados diferentes? Tal sucesso é o retorno do fracasso.

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Fábio Sobral é membro do Conselho editorial de A Comuna e professor de Economia Ecológica (UFC)

Originalmente em Diário do Nordeste

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