Os EUA pretendem provocar uma guerra no Líbano? | Eduardo Vior

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Por Eduardo Vior

Milicianos falangistas dispararam na última quinta-feira (14) de manhã em Beirute em meio a uma manifestação dos partidos xiitas Amal e Hezbollah, matando seis pessoas. A marcha exigia a demissão por parcialidade do juiz encarregado da investigação da explosão do porto da capital libanesa em agosto de 2020. Por sua vez, o Partido das Forças Libanesas reconheceu a responsabilidade pelo massacre e alegou que era “necessário livrar o Líbano da tirania do Hezbollah”.

Sintomaticamente, o ataque coincidiu com a chegada a Beirute da subsecretária de Estado dos EUA para Assuntos Políticos Victoria Nuland, a mesma mulher que em fevereiro de 2014 ganhou fama mundial quando ordenou a seu embaixador em Kiev que ignorasse as objeções da UE e forçasse um golpe de Estado. Ele usou uma frase obscena (“f…ck the EU” / “Que se f… a UE”) rapidamente captada pela mídia mundial. Nuland chegou a Beirute vindo de Moscou, onde na quarta-feira (13) realizou uma reunião com seu homólogo russo, Sergei Riabkov. Uma declaração posterior do Ministério das Relações Exteriores russo descreveu a reunião como “extremamente franca”, uma paráfrase para indicar que eles não concordaram em nada. Que Victoria Nuland chegasse em Beirute logo depois do massacre despertou a sensibilidade de muitos.

Centenas de apoiadores do Hezbollah e seu principal aliado xiita, Amal, marcharam na manhã de quinta-feira em direção ao Palácio da Justiça de Beirute quando franco-atiradores dispararam dos telhados, forçando os que estavam sob ataque a se abrigarem e com ordens para que suas forças de segurança respondessem com armas. O tiroteio então se generalizou e durou várias horas até que foi pacificado.

Enquanto isso, o canal de TV Al-Manar transmitia os nomes de três comandantes das Forças Libanesas (cristãos maronitas) que lideravam as emboscadas e visavam seu líder histórico, Samir Gaegae. O Hezbollah e Amal emitiram uma declaração conjunta condenando o ataque terrorista e apelando para que o governo e o exército libanês lançassem luz sobre o incidente. O comando militar disse ter identificado dez pessoas envolvidas no ataque.

A violência acontece após semanas de fortes tensões em torno do juiz Tariq Bitar, que está liderando a investigação da explosão no porto de Beirute em 4 de agosto de 2020, que deixou mais de 200 pessoas mortas e milhares feridas. Ele acusou vários funcionários de negligência e corrupção, mas foi denunciado como tendencioso e na quarta-feira suspendeu os trabalhos.

Enquanto Beirute ardia, o Primeiro Ministro Nayib Mikati e o chefe do Parlamento, Nabih Berry, receberam a subsecretária de Estado para Assuntos Políticos dos EUA, Victoria Nuland, que havia acabado de chegar. Casada com Robert Kagan, um dos principais representantes do neoconservadorismo americano, Victoria Nuland representa as correntes mais duras da diplomacia americana. De 1993 a 2017 ela serviu sob todos os governos, até tornar-se subsecretária de Estado para a Europa (2013-17). Naquele papel veio sua infame atuação na Ucrânia.

A subsecretária está em excursão no pior momento para a diplomacia dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. Derrotados no Afeganistão, os EUA perderam sua posição na Ásia Central e nos próximos meses terão que sair da Mesopotâmia e da Síria. Na Europa Oriental, entretanto, sua pressão só trouxe uma aliança mais estreita entre Minsk e Moscou; a Turquia permanece na OTAN, mas compra artilharia antiaérea da Rússia. O Hezbollah está aliviando a crise energética libanesa com o petróleo iraniano e, se as eleições de março permitirem a formação de um governo, o país dos cedros pode se estabilizar com a ajuda russo-síria e o financiamento chinês. Há uma razão pela qual Israel deixou de atacar a Síria e o Líbano, mesmo que continue a apoiar os falangistas libaneses e a travar sua guerra-sombra contra o Irã.

Não há evidências que liguem a visita de Nuland a Beirute com o massacre da manhã da quinta-feira, mas a coincidência é muito marcante. Se o Líbano se estabilizar, tenderá a se integrar com a Síria e a marginalizar ainda mais os EUA no Oriente Médio. Somente eles e Israel podem ter interesse em que o Líbano se afunde novamente no caos da guerra civil, como aconteceu entre 1975 e 1990, mas isso seria uma catástrofe de dimensões regionais ou algo pior. Entretanto, 2021 não é 2014 e o Líbano não é a Ucrânia. Desta vez, Victoria Nuland não poderá gritar “f…-se os russos”.

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Eduardo Vior é cientista político argentino

Originalmente em telam.com.ar

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