OTAN declara a China como um desafio de segurança global | M. K. Bhadrakumar

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Por M. K. Bhadrakumar

A cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em Bruxelas na segunda-feira (14) nos lembra mais uma vez o embuste que os Estados Unidos cometeram contra o ex-líder soviético Mikhail Gorbachev em 1990, assegurando-lhe que a aliança ocidental não se expandiria “nem um centímetro para o leste”, uma vez que Moscou permitiu a unificação alemã e desmontou o Pacto de Varsóvia.

O Briefing Book nº 613 de 12 de dezembro de 2017 no Arquivo de Segurança Nacional dos EUA, localizado na Universidade George Washington em Washington, DC, diz o seguinte:

A famosa garantia do Secretário de Estado americano James Baker de que não avançaria “nem uma polegada para o leste” sobre a expansão da OTAN em seu encontro com o líder soviético Mikhail Gorbachev em 9 de fevereiro de 1990, foi parte de uma avalanche de garantias sobre a segurança soviética dadas pelos líderes ocidentais a Gorbachev e outras autoridades soviéticas durante todo o processo de unificação alemã em 1990 e até 1991, de acordo com documentos desclassificados dos EUA, soviéticos, alemães, britânicos e franceses hoje publicados pelo Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington.

“Os documentos mostram que múltiplos líderes nacionais estavam considerando e rejeitando a adesão da Europa Central e Oriental à OTAN no início de 1990 e até 1991, que as discussões da OTAN no contexto das negociações de unificação alemã em 1990 não estavam de modo algum limitadas ao status do território da Alemanha Oriental, e que as subseqüentes queixas soviéticas e russas sobre a expansão da OTAN foram baseadas em memorandos e telefonemas da época no mais alto nível.

Os documentos reforçam as críticas do ex-diretor da CIA Robert Gates de “avançar com a expansão da OTAN para o leste [nos anos 90], quando Gorbachev e outros foram levados a acreditar que isso não aconteceria”. leia mais

Essa traição a sangue frio por parte da Administração Bill Clinton é o que mais se estabelece no espírito russo hoje em dia, quando a OTAN entra no Mar Negro e se inclina para as fronteiras ocidentais da Rússia. leia mais…

Basta dizer que a diplomacia pós-Guerra Fria de Washington na Europa teve um sucesso espantoso. O cerne da questão é que hoje em dia os EUA dependem criticamente da OTAN:

  • Para exercer sua hegemonia global;
  • Para fornecer um mercado cativo para a exportação de centenas de bilhões de dólares de armamento americano;
  • Acionar as grandes potências européias (especialmente a Alemanha) a um sistema de aliança que trava sua autonomia estratégica e a busca de políticas externas independentes;
  • Ganhar “profundidade estratégica” para empreender operações militares globalmente como parte de um sistema de aliança, em vez de ser flagrantemente uma potência intervencionista;
  • Justificar o posicionamento de milhares de forças americanas e armazenar mísseis nucleares na Europa; e,
  • Consolidar o domínio dos EUA sobre o sistema transatlântico.

A OTAN traz à mente o paradigma clássico de alguém todo vestido e sem ter para onde ir. Ela tem que reinventar constantemente uma razão para sua existência. A Rússia tem fornecido essa razão – embora Moscou não tenha a intenção de capturar territórios além de suas fronteiras. É claro que também não se trata de uma guerra entre a OTAN e a Rússia, já que esta última é uma potência termonuclear que pode destruir os EUA várias vezes.

O comunicado final da cúpula da OTAN coloca a Rússia na mira da aliança. Desenvolve o tema em seis parágrafos que se baseiam em uma narrativa autocentrada (parágrafos 9 a 15). E toda a construção da aliança para um futuro previsível recai sobre o enfrentamento desta percebida “ameaça russa”.

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A nova narrativa da OTAN

Enquanto isso, o comunicado de Bruxelas, pela primeira vez na história da aliança, também traz a ascensão da China como um desafio potencial. Os EUA têm pressionado por isso nos últimos anos e conseguiram incluir algumas referências à China no comunicado. (Par. 56-57.)

O comunicado traz os seguintes pontos em relação à China:

  • “As ambições declaradas e o comportamento assertivo da China representam desafios sistêmicos para a ordem internacional baseada em regras e para áreas relevantes de segurança da Aliança”;
  • A OTAN está preocupada com as “políticas coercitivas” da China;
  • A China está “expandindo rapidamente” suas capacidades nucleares e está desenvolvendo “um maior número de sistemas sofisticados de entrega para estabelecer uma tríade nuclear”;
  • A China é “obscura na implementação de sua modernização militar e de sua estratégia de fusão militar-civil declarada publicamente”;
  • A China mantém uma cooperação militar com a Rússia e participou de exercícios russos na área euro-atlântica; e,
  • A OTAN está preocupada com a “frequente falta de transparência e uso de desinformação” da China; e, a China não está mantendo seus compromissos internacionais e agindo “responsavelmente no sistema internacional, inclusive nos domínios espacial, cibernético e marítimo, de acordo com seu papel como uma grande potência”.

Mas, como habitualmente, o comunicado suaviza o choque ao dissimular uma atitude conciliadora, dizendo que a OTAN mantém “um diálogo construtivo” e acolhe com satisfação “oportunidades de engajamento” com a China no intercâmbio de informações sobre as respectivas políticas e atividades, para aumentar a conscientização e discutir possíveis desentendimentos.

O comunicado exorta a China a “se engajar de forma significativa no diálogo, na construção de confiança e em medidas de transparência em relação a suas capacidades e doutrina nuclear”.  A transparência e a compreensão recíprocas beneficiariam tanto a OTAN quanto a China”.

Não se engane, esta é a mão de Washington escrevendo o comunicado da OTAN. Daí a mensagem mista. O fato é que muitos aliados europeus se sentiriam inquietos. Pois, a China não representa uma ameaça militar para a aliança ocidental. Os europeus visualizam um desafio da China em grande parte na esfera econômica – comércio, investimento, tecnologia, estabelecimento de normas globais e assim por diante.

A China parece ter antecipado as manobras dos EUA. A representação da China na União Européia reagiu prontamente com fatos e números, ressaltando que em 2021, os gastos militares de Pequim foram de US$ 209 bilhões em comparação com os US$ 1,17 trilhão da aliança, o que representa mais da metade de todo o gasto militar global e 5,6 vezes o da China. A declaração dizia: “Defenderemos inabalavelmente nossa soberania e nossos interesses de desenvolvimento, e estaremos atentos aos ajustes estratégicos e políticas da OTAN em relação à China”.

Um editorial no Global Times dizia: “Esta cúpula da OTAN pode ser vista como um ponto-chave na atitude dos EUA e da Europa em relação à China na área de segurança. Washington levantou a cortina para uma campanha de mobilização política para usar a OTAN no sentido de realizar uma competição estratégica com a China.

“Os EUA querem criar uma narrativa que iguale sua própria hegemonia à vantagem estratégica coletiva do Ocidente e formar um consenso entre 30 países”. Enquanto os países da OTAN estiverem ligados por um ódio comum à China, os laços de interesse entre os países ocidentais e a China perderão sua base moral e os EUA poderão forçar os pequenos países europeus a atender sua estratégia sobre a China, explorando-os politicamente para os interesses dos EUA”.

O QUAD é uma história da carochinha

A resposta diplomática de Pequim será fortalecer a cooperação China-União Europeia. É vantajoso para a China que os EUA não tenham o tipo de influência para ditar políticas para a UE como tem na plataforma da OTAN. (A chanceler alemã Angela Merkel já aconselhou cautela sobre a OTAN fechar a porta para a China).  

Qual é a estratégia de Washington ao criar um vetor chinês para a OTAN, formado a priori para a segurança do espaço euro-atlântico?

Aqui os paralelos são marcantes com meados dos anos 90, quando os EUA viraram as costas às garantias dadas a Gorbachev e prosseguiram com a expansão da OTAN em antecipação a um ressurgimento russo num futuro possível.

Os EUA prevêem que dentro da próxima década, a China deverá ser impedida de ultrapassá-los como a maior potência mundial. Os EUA precisam de um sistema de aliança para lidar com o soerguimento da China. O QUAD é, na realidade, uma história da carochinha.

Segundo, para amenizar as apreensões da Rússia em relação à expansão da OTAN para o leste, a administração Bill Clinton havia oferecido a Boris Yeltsin que Moscou seria consultada sobre os planos da OTAN. E assim nasceu o Conselho OTAN-Rússia. Mas foi um gesto vazio à medida que os EUA avançavam e faziam o que queriam sobre a expansão da OTAN.

Da mesma forma, a OTAN afirmar que tem um “diálogo construtivo” com a China é pura falácia. A OTAN fingirá um diálogo durante algum tempo para acalmar os nervos chineses antes de por as garras de fora dentro de 2 ou 3 anos, no máximo.

Terceiro, a expansão da OTAN nos anos 1990 foi útil para Washington criar uma janela para forjar uma postura estratégica unificada com os aliados europeus em relação à Rússia. Da mesma forma, os EUA começaram a trabalhar arduamente durante o último um ano ou dois para colocar os aliados europeus a bordo de sua estratégia em relação à China. A OTAN se torna o centro onde este trabalho em andamento é melhor tratado.

Quarto, a expansão da OTAN nos anos 1990 complicou inevitavelmente as aspirações da Rússia de se tornar parte de um novo espaço de segurança comum entre Vancouver e Vladivostok. Pelo contrário, os EUA asseguraram uma participação nas relações bilaterais da Rússia com os países da OTAN.

Estratégia similar dos EUA está em ação aqui para complicar as relações da China com seus parceiros europeus. Os EUA já poderiam bloquear a parceria de seus principais aliados da OTAN com a China em torno da tecnologia 5G. Os EUA pretendem derrotar os projetos da Iniciativa Cinturão e Rota da China na Europa por razões de segurança.

Da mesma forma, de acordo com as diretrizes da OTAN, pode ser negado à China o acesso total às tecnologias ocidentais. A questão é que, enquanto os 30 chefes de Estado e de governo expressaram preocupação com as “políticas coercitivas”, “formas obscuras” da China, seu “uso de desinformação” e exortaram Pequim a “manter seus compromissos internacionais e a agir de forma responsável no sistema internacional”.


Onde está o “Século Asiático”?

Finalmente, como no caso da Rússia, os EUA estão empurrando a China para uma corrida armamentista infrutífera. Naturalmente, isto cria razão para o aumento das despesas de defesa dos países da OTAN, que por sua vez promoveria as exportações de tecnologia militar dos EUA para a Europa.

Espera-se que o F-35 Lightning II da Lockheed Martin venda centenas, senão milhares, para os aliados dos EUA até 2035. Os compradores iniciais previstos já incluem o Japão (147 aeronaves), a Coréia do Sul (80) e a Austrália (até 100).

A OTAN é um campo de caça lucrativo para a indústria armamentista americana. Quanto maior a percepção de ameaça da OTAN, maior é a possibilidade de exportação de armamento dos EUA.

Em última análise, a nomeação da China pela OTAN como um desafio sistêmico teria profundas implicações para a segurança internacional. Prima facie, aproximará ainda mais a China e a Rússia.

À medida que a contenção estratégica americana da China se intensificar, Pequim ficará sob pressão para aumentar sua dissuasão e incrementar rapidamente o número de ogivas nucleares comissionadas e os DF-41, mísseis estratégicos capazes de golpes de longo alcance e com alta capacidade de sobrevivência.

A China estará em guarda no que diz respeito à sua soberania e se preparará para um confronto intenso. Hu Xijin, o editor-chefe do Global Times, escreveu recentemente: “Neste cenário, um grande número de Dongfeng-41, JL-2 e JL-3 (ambos mísseis balísticos de alcance intercontinental lançados por submarinos) formarão o pilar de nossa vontade estratégica. O número de ogivas nucleares da China deve atingir a quantidade que faz tremer as elites americanas caso elas tenham a brilhante ideia de se envolver em um confronto militar com a China”.

Há um provérbio africano: “Quando dois elefantes brigam, quem sofre é a grama”. Para ter certeza, a região asiática está se tornando o teatro onde as tensões entre os EUA e a China irão se manifestar. Inevitavelmente, isto lançaria sombras sobre as extraordinárias perspectivas de crescimento e desenvolvimento da região. As perspectivas para o “século asiático” podem diminuir. E isso só pode funcionar esplendidamente para os EUA, mas os próprios países asiáticos serão os mais prejudicados por isso.

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M. K. Bhadrakumar é ex-embaixador indiano e analista internacional

Originalmente em indianpunchline.com

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