Pedro Castillo pronto para um novo capítulo na história do Peru | Medea Benjamin e Leonardo Flores

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Por Medea Benjamin e Leonardo Flores

Com seu chapéu camponês de abas largas e seu lápis de professor superdimensionado, o peruano Pedro Castillo tem viajado pelo país exortando os eleitores a se apoiarem numa convocação que tem sido particularmente urgente durante essa pandemia avassaladora: “No más pobres en un país rico”. Em um cenário de eleição com uma enorme divisão urbano-rural e de classe, parece que o professor do meio rural, agricultor e líder sindical está fazendo história ao derrotar – por menos de um por cento – a poderosa candidata de extrema-direita Keiko Fujimori, herdeira da “dinastia Fujimori” política do país.

Fujimori está contestando os resultados das eleições, alegando fraude generalizada. Sua campanha apresentou apenas provas de irregularidades isoladas, e até agora nada sugere voto manipulado. Entretanto, ela pode contestar alguns dos votos para atrasar os resultados finais e, como nos EUA, mesmo uma alegação de fraude por parte do candidato derrotado causará incerteza e aumentará as tensões no país.

A vitória de Castillo será notável não só porque ele é um professor de esquerda filho de camponeses analfabetos e por sua campanha ter sido grosseiramente superada em termos de gastos por Fujimori, mas por um ataque de propaganda implacável contra ele por haver tocado nos medos históricos da classe média e das elites do Peru. Foi semelhante ao que aconteceu recentemente com o candidato progressista Andrés Arauz, que perdeu por pouco as eleições no Equador, só que mais intenso. O Grupo El Comercio, um conglomerado de mídia que controla 80% dos jornais do Peru, liderou os ataques contra Castillo. O acusaram de ser um terrorista com ligações com o Sendero Luminoso, um grupo guerrilheiro cujo conflito com o Estado entre 1980 e 2002 causou dezenas de milhares de mortos e deixou a população traumatizada. O vínculo de Castillo com o Sendero Luminoso é inconsistente: Enquanto líder do Sutep, um sindicato de trabalhadores da educação, Castillo teria sido parceiro do Movadef, o Movimento pela Anistia e Direitos Fundamentais, um grupo que teria sido a ala política do Sendero Luminoso. Na realidade, o próprio Castillo era um rondero quando a insurgência era mais ativa. Os ronderos eram grupos camponeses de autodefesa que protegiam suas comunidades da guerrilha e continuavam a fornecer segurança contra o crime e a violência.

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Duas semanas antes das eleições, em 23 de maio, 18 pessoas foram massacradas na cidade rural peruana de San Miguel del Ene. O governo imediatamente atribuiu o ataque aos remanescentes do Sendero Luminoso envolvidos no tráfico de drogas, embora nenhum grupo tenha assumido ainda a responsabilidade. A mídia associou o ataque a Castillo e sua campanha, lançando o medo de mais violência caso chegue à presidência. Castillo denunciou o ataque e lembrou aos peruanos que massacres semelhantes haviam ocorrido no período que antecedeu as eleições de 2011 e 2016. Por sua vez, Fujimori sugeriu que Castillo estava ligado ao massacre.

Na frente econômica, Castillo foi acusado de ser um comunista que pretende nacionalizar indústrias chave, e transformaria o Peru em uma “ditadura cruel” como a Venezuela. Cartazes ao longo da rodovia principal de Lima perguntavam à população: “Você gostaria de viver em Cuba ou na Venezuela?”, referindo-se a uma vitória de Castillo. Os jornais relacionaram a campanha de Castillo à desvalorização da moeda peruana e advertiram que uma vitória dele prejudicaria mais os peruanos de baixa renda porque as empresas fechariam ou se mudariam para o exterior. A campanha de Castillo esclareceu repetidas vezes que ele não é comunista e que seu objetivo não é nacionalizar indústrias, mas renegociar contratos com multinacionais para que mais lucros permaneçam com as comunidades locais.

Enquanto isso, Fujimori foi tratada com luvas de pelica pela mídia durante a campanha, com um dos jornais nas fotos acima afirmando que “Keiko garante trabalho, alimentação, saúde e uma reativação imediata da economia”. Seu passado como primeira-dama durante o governo brutal de seu pai Alberto Fujimori é amplamente ignorado pela mídia corporativa. Ela é capaz de afirmar que o “fujimorismo derrotou o terrorismo” sem ser questionada sobre os horrores que o fujimorismo infligiu ao país, incluindo a esterilização forçada de mais de 270 mil mulheres e 22 mil homens pelos quais seu pai está em julgamento. Ele está atualmente preso por outras violações dos direitos humanos e corrupção, embora Keiko tenha prometido libertá-lo se ela ganhasse. Também foi ignorado o fato de que a própria Keiko está em liberdade condicional sob fiança desde o ano passado, aguardando uma investigação sobre lavagem de dinheiro, e sem a imunidade presidencial, ela provavelmente acabará na prisão.

A mídia internacional não foi diferente em sua cobertura desequilibrada sobre Castillo e Fujimori, com a Bloomberg alertando que “as elites estremecem” com só de pensar em Castillo como presidente e com a manchete do The Financial Times bradando “a elite peruana em pânico com a perspectiva de uma vitória à esquerda nas eleições presidenciais”.

A economia do Peru cresceu de forma impressionante nos últimos 20 anos, mas esse crescimento não elevou todos nesse barco.  Milhões de peruanos no campo foram deixados ao abandono pelo Estado. Além disso, como muitos de seus vizinhos (incluindo Colômbia, Chile e Equador), o Peru subinvestiu em assistência médica, educação e outros programas sociais. Tais escolhas dizimaram tanto o sistema de saúde que o Peru agora tem a vergonhosa distinção de liderar o ranking mundial por mortes per capita de Covid-19.

Além do desastre na saúde pública, os peruanos têm vivido uma agitação política marcada por um número extraordinário de casos de corrupção de alto nível e quatro presidentes em três anos. Cinco de seus últimos sete presidentes enfrentaram acusações de corrupção. Em 2020, o presidente Martín Vizcarra (ele próprio acusado de corrupção) foi impugnado, destituído de cargo e substituído por Manuel Merino. A manobra foi denunciada como um golpe parlamentar, levando a vários dias de protestos maciços de rua. Apenas cinco dias depois de seu mandato, Merino renunciou e foi substituído pelo atual presidente Francisco Sagasti.

Uma das principais plataformas de campanha de Castillo é convocar um referendo constitucional para deixar o povo decidir se quer uma nova constituição ou se deseja manter a atual, escrita em 1993 sob o regime de Alberto Fujimori, que enraizou o neoliberalismo em sua estrutura.

“A constituição atual prioriza os interesses privados sobre os interesses públicos, o lucro sobre a vida e a dignidade”, diz seu plano de governo. Castillo propõe que uma nova constituição inclua: reconhecimento e garantias dos direitos à saúde, educação, alimentação, moradia e acesso à Internet; reconhecimento dos povos indígenas e da diversidade cultural do Peru; reconhecimento dos direitos da natureza; redesenho do Estado para focalizar a transparência e a participação dos cidadãos; e um papel fundamental do Estado no planejamento estratégico para assegurar que o interesse público tenha precedência.

Na frente da política externa, a vitória de Castillo representará um enorme golpe para os interesses dos EUA na região e um passo importante para reativar a integração latino-americana. Ele prometeu retirar o Peru do Grupo Lima, um comitê ad hoc de países dedicados à mudança de regime na Venezuela.

Além disso, o partido Peru Libre pediu a expulsão da USAID e o fechamento das bases militares americanas no país. Castillo também expressou apoio ao combate à OEA e ao fortalecimento tanto da Comunidade dos Estados da América Latina e Caribe (CELAC) quanto da União das Nações Sul-Americanas (UNASUL). A vitória é também um bom presságio para a esquerda no Chile, Colômbia e Brasil, que terão eleições presidenciais no próximo ano e meio.

Castillo enfrentará uma tarefa difícil, com um congresso hostil, uma classe empresarial hostil, uma imprensa hostil e, muito provavelmente, uma administração Biden hostil. O apoio de milhões de peruanos irritados e mobilizados exigindo mudanças, juntamente com a solidariedade internacional, será fundamental para cumprir sua promessa de campanha de atender às necessidades dos setores mais pobres e abandonados da sociedade peruana.

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Medea Benjamin, co-fundadora do grupo CODEPINK e autora de livros sobre o Oriente Médio e a América Latina, está no Peru com uma delegação de observadores eleitorais organizada pela Progressive International

Leonardo Flores é especialista em política latino-americana e militante do CODEPINK

Originalmente em Mint Press News

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