Pode Surgir um Sistema Alternativo ao Dólar | Fabio Sobral

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Por Fabio Sobral

O conflito na Ucrânia não ocorre somente nas operações militares. Os movimentos da economia têm desempenhado um papel fundamental nas ações ofensivas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) sob a direção dos Estados Unidos.

Tais medidas de guerra econômica não são novidade. A partir de certo momento passaram a ser usadas contra todos os inimigos dos EUA. O Irã, a Venezuela, a China, o Afeganistão, a Síria, a Coreia do Norte e a própria Rússia já são atacados por inúmeras sanções – mais propriamente constituindo-se em arsenais de guerra econômica utilizados por parte de sucessivos governos americanos.

O domínio do dólar nas transações econômicas internacionais submete a tudo e a todos às regras impostas por Washington, tais como: bloqueio comercial, punição financeira a pessoas e a empresas, confisco de reservas em moeda e ouro, sabotagem de contratos e perseguição jurídica a integrantes de governos e empresas.

Inusitadamente, estamos assistindo a reações a estas ditas sanções. A China vem paulatinamente ampliando a substituição do dólar nos contratos comerciais de petróleo e bens manufaturados por yuan, sua moeda. A Rússia, por sua vez, reagiu passando a impor o recebimento do valor do gás exportado em rublos russos e não mais em euros ou em dólares. Esta medida valerá para as nações “não amigas”, aquelas alinhadas às sanções americanas. Outra reposta às manobras de guerra (“sanções”) é a iniciativa de negociação do gás natural em moedas nacionais com os países que não são hostis à Rússia. Por outras palavras, mais uma substituição dos contratos em dólares.

Estes são sinais de que o tempo da chantagem e da extorsão dos EUA vai perdendo força. As tentativas de responder agressivamente ao domínio do dólar estão se ampliando. Há uma busca intensa por alternativas ao atual sistema comercial e financeiro dolarizado comandado em Londres, na City, e Nova Iorque, em Wall Street, além das bolsas de “commodities” e futuros.

A ação russa é tão ousada que prenuncia um novo sistema monetário já em formação de suas bases desde há algumas décadas. As etapas de seu surgimento são cada vez mais nítidas. A primeira etapa foi a percepção de que o dólar não pode permanecer no domínio. Este entendimento é algo que foi refletido desde as medidas de Richard Nixon, presidente americano que eliminou a obrigatoriedade de os Estados Unidos trocarem dólares por ouro. Pela primeira vez o sistema internacional estava baseado em puro papel pintado, o dólar. Quem discordasse enfrentaria as forças armadas e os serviços terroristas das agências de espionagem americanas.

As vozes discordantes, e caladas pela força das armas, fazem-se ouvir hoje. Parece que os sussurros e as queixas velados começam a chegar ao fim. A segunda etapa é a da substituição do dólar, ou seja, guerra econômica.

Porém, como a Rússia poderá implementar esse descarte da moeda americana? Eis a questão: Carthago delenda est!

É preciso olhar a história, o único laboratório da economia. Por isso esse conhecimento é tão temido e desprezado pela corrente dominante nas faculdades de economia no mundo. O domínio do dólar impõe também o domínio do pensamento e a falsificação permanente da realidade. Para a corrente de “teoria” econômica dominante não há mundo possível sem o dólar e seu sistema financeiro.

E quais seriam as possíveis alternativas a esse jugo monetário? Vejo duas possibilidades. Uma insuficiente e outra mais radical.

A primeira é estabelecer contratos em moedas locais, nos moldes da China e Rússia. No entanto, como definir a proporção de troca entre as moedas? Talvez estabelecer uma tabela de conversão a ser respeitada mutuamente. Isso, contudo, traria um velho e onipresente problema: alguém perderia riqueza nessas trocas. Qual a moeda mais valiosa? Qual o mecanismo que garantiria o respeito a essas equivalências? No caso do dólar há o Banco Mundial, o FMI e as armas americanas, obviamente.

A segunda possibilidade é “ancorar” as moedas em mercadorias reais. A Rússia pode fazer isso com o gás natural. Mas ainda não vislumbrou essa possibilidade. Apenas indicou que receberá o pagamento do gás em rublos. Porém, quanto valerá o rublo? Por enquanto é definido pela sua proporção de troca com o dólar e o euro. Neste caso, permaneceria ainda o domínio financeiro do sistema dolarizado.

Muito mais profundo seria definir em uma tabela o metro cúbico de gás em rublos para os países amigos. Parece algo simples, mas o que é na verdade? Seria a criação de um padrão-gás. Ou seja, um padrão de valor da moeda ancorado ao preço do gás. O ministro das finanças Hjalmar Schacht (de triste memória, pois depois se converteu ao nazismo) tirou a economia alemã do caos, sujeita à hiperinflação, ao vincular o marco alemão a mercadorias e a seus preços no mercado internacional.

O padrão-ouro foi seguido – melhor dito, imposto – por  séculos. As moedas valiam o preço do ouro. Muitos economistas de extrema-direita defendem o retorno do padrão-ouro. Parece uma medida técnica, racional e imparcial. Não é. É a defesa do predomínio do ouro para manter o poder no sistema financeiro atual. Londres e Nova Iorque continuariam a comandar, pois controlam tais mercados de ouro. É preciso abolir tal domínio com um padrão-gás, no caso russo. Outros padrões poderiam ser usados para países distintos.

O valor da moeda ser definido em uma mercadoria de produção nacional libertaria os países da dependência em relação ao dólar, ao ouro, ao euro e à libra esterlina. Mas ainda poderia manter os países rebeldes submissos às bolsas de commodities, que ditariam os preços dos seus produtos por meio de especulação. Neste caso, esta não seria uma solução, mas mero paliativo, uma vez que todos os preços permaneceriam sendo definidos pelo poder corporativo financeiro via controle da determinação de preço no mercado de commodities. Estas, como sabemos, por intermédio de uma reação em cadeia, acabam por influenciar todos os demais preços de mercadorias.

Para escapar a este jugo seria preciso ir além e definir o valor na relação entre países em contratos de médio e longo prazos, escapando à especulação destas bolsas, dirigidas pelos interesses do poder corporativo financeiro.

Levará a Rússia suas decisões até o rompimento com o sistema financeiro dolarizado? Esperemos.

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Fábio Sobral é professor de Economia (UFC) e comentarista no Programa Panorama da Rádio Web Rebelde (Youtube)

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