Putin, cruzados e bárbaros | Pepe Escobar

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Por Pepe Escobar

Moscou está dolorosamente consciente de que a “estratégia” de contenção da Rússia de EUA/OTAN já está atingindo níveis extremos. Novamente.

Na última quarta-feira (24), em uma reunião muito importante com a diretoria do Serviço Federal de Segurança, o Presidente Putin apresentou tudo em termos muito claros:

“Estamos enfrentando a chamada política de contenção da Rússia. Não tem a ver com concorrência, o que é algo natural para as relações internacionais. Trata-se de uma política consistente e bastante agressiva destinada a interromper nosso desenvolvimento, o retardando, criando problemas ao longo do perímetro externo, provocando instabilidade interna, minando os valores que unem a sociedade russa e, finalmente, fragilizando a Rússia e a pondo sob controle externo, exatamente como estamos testemunhando o que acontece em alguns países no espectro pós-soviético.”

Não sem um toque de maldade, Putin acrescentou que isto não era exagero: “Na verdade, vocês não precisam ser convencidos disto, pois vocês mesmos sabem perfeitamente, talvez até melhor do que qualquer outro”.

O Kremlin está muito consciente de que a “contenção” da Rússia se concentra em seu perímetro: Ucrânia, Geórgia e Ásia Central. E o alvo final continua sendo a mudança de regime.

As observações de Putin também podem ser interpretadas como uma resposta indireta a uma seção do discurso do Presidente Biden na Conferência de Segurança de Munique.

De acordo com os roteiristas de Biden,

“Putin procura fragilizar o projeto europeu e a aliança da OTAN porque é muito mais fácil para o Kremlin intimidar países individuais do que negociar com a comunidade transatlântica unida … As autoridades russas querem que outros pensem que nosso sistema é tão ou mais corrupto.”

Um ataque pessoal desastrado e direto contra o chefe de Estado de uma grande potência nuclear não se qualifica exatamente como uma diplomacia sofisticada. Pelo menos mostra gritantemente como a confiança entre Washington e Moscou está agora reduzida a menos de zero. Por mais que os manipuladores do Deep State de Biden se recusem a ver Putin como um parceiro de negociação digno, o Kremlin e o Ministério das Relações Exteriores já descartaram Washington como “não capaz de chegar a um acordo”.

Mais uma vez, o que está em jogo é a soberania. A “atitude hostil em relação à Rússia”, como Putin a definiu, estende-se a “outros centros independentes e soberanos de desenvolvimento global”. Leia-a como principalmente a China e o Irã. Todos estes três estados soberanos são categorizados como as principais “ameaças” pela Estratégia de Segurança Nacional dos EUA.

No entanto, a Rússia é o verdadeiro pesadelo para os Excepcionalistas: Cristã ortodoxa, apelando assim para camadas do Ocidente; consolidada como grande potência eurasiática; uma superpotência militar e hipersônica; e ostentando incomparáveis habilidades diplomáticas, apreciadas em todo o Sul Global.

Em contraste, não resta muito para o Deep State, exceto a demonização interminável tanto da Rússia quanto da China para justificar uma construção militar ocidental, a “lógica” embutida em um novo conceito estratégico chamado OTAN 2030: Unidos por uma Nova Era.

Os especialistas por trás do conceito o saudaram como uma resposta “implícita” à declaração do presidente francês Emmanuel Macron de “morte cerebral” da OTAN.

Bem, pelo menos o conceito prova que Macron estava certo.

Aqueles bárbaros do Oriente

As questões cruciais sobre soberania e identidade russa têm sido um tema recorrente em Moscou nas últimas semanas. E isso nos leva a 17 de fevereiro, quando Putin se encontrou com líderes políticos da Duma, desde Vladimir Zhirinovsky, do Partido Liberal Democrático – desfrutando de uma nova onda de popularidade – até Sergei Mironov, da Rússia Unida, bem como Vyacheslav Volodin, presidente da Duma.

Putin enfatizou o caráter “multiétnico e multi-religioso” da Rússia, agora em “um ambiente diferente que é livre de ideologia”:

É importante para todos os grupos étnicos, mesmo os menores, saber que esta é sua pátria sem outra para eles, que eles estão protegidos aqui e estão dispostos a dar suas vidas para proteger este país. Isto é do interesse de todos nós, independentemente da etnia, incluindo o povo russo.

No entanto, a observação mais extraordinária de Putin teve a ver com a história russa antiga:

Os bárbaros vieram do Oriente e destruíram o império ortodoxo cristão. Mas antes dos bárbaros do Oriente, como você bem sabe, os cruzados vieram do Ocidente e fragilizaram este império cristão ortodoxo, e só então os últimos golpes foram dados, e o império foi conquistado. Foi isto que aconteceu… Devemos lembrar estes acontecimentos históricos e nunca esquecê-los.

Bem, isto poderia ser material suficiente para gerar um tratado de 1.000 páginas. Ao invés disso, vamos tentar, pelo menos, – concisamente – desembrulhá-lo.

A Grande Estepe Eurasiana – uma das maiores formações geográficas do planeta – se estende desde o baixo Danúbio até o Rio Amarelo. A piada conhecida na Eurásia é que o “Continue Caminhando” pode ser feito de trás para frente. Durante a maior parte da história registrada, isto tem sido o Nômade Central: tribo após tribo, invadindo as margens, ou às vezes os centros da região central: China, Irã, o Mediterrâneo.

Os Citas (ver, por exemplo, o magistral The Scythians: Nomad Warriors of the Steppe, de Barry Cunliffe) chegaram à estepe pôntica a partir do além-Volga. Depois dos deles, foi a vez dos Sarmatianos aparecerem no Sul da Rússia.

A partir do século IV, a Eurásia nômade foi um vórtice de tribos saqueadoras, apresentando, entre outros, os hunos nos séculos IV e V, os Cazares no século VII, os kumans no século XI, até a avalanche mongol no século XIII.

O roteiro sempre colocou os nômades contra os camponeses. Os nômades governavam – e cobravam tributos. G Vernadsky, em sua inestimável Rússia Antiga, mostra como “o Império Cítico pode ser descrito sociologicamente como uma dominação da horda nômade sobre as tribos vizinhas de agricultores”.

Como parte de minhas múltiplas pesquisas sobre os impérios nômades para um volume futuro, os chamo de “Bárbaros fodões a cavalo”. As estrelas do espetáculo incluem, na Europa, em ordem cronológica, Cimérios, Círios, Sarmatianos, Hunos, Cazares, Húngaros, Pechenegues, Turcos seljúcidas, Mongóis e seus descendentes Tártaros; e, na Ásia, Hu, Xiongnu, Heftalitas, Turcos, Uigures, Tibetanos, Kirghiz, Khitan, Mongóis, Turcos (novamente), Uzbeques e Manchu.

É discutível que, desde a era hegemônica cita (os primeiros protagonistas da Rota da Seda), a maioria dos camponeses do sul e do centro da Rússia fossem eslavos. Mas havia grandes diferenças. Os eslavos do oeste de Kiev estavam sob a influência da Germânia e Roma. A leste de Kiev, eles foram influenciados pela civilização persa.

É sempre importante lembrar que os vikings ainda eram nômades quando se tornaram governantes em terras eslavas. De fato, sua civilização prevaleceu sobre os camponeses sedentários – mesmo quando eles absorveram muitos de seus costumes.

Curiosamente, a distância entre os nômades de estepes e a agricultura na proto-Rússia não era tão acentuada quanto entre a agricultura intensiva na China e a economia estepária interligada na Mongólia.

(Para uma interpretação marxista envolvente do nomadismo, veja A N Khazanov’s Nomads and the Outside World).

O porto seguro sob o céu

E quanto ao poder? Para os nômades turcos e mongóis, que vieram séculos depois dos citas, o poder emanava do céu. Khan governou pela autoridade do “Céu Eterno” – como todos nós vemos quando mergulhamos nas aventuras de Genghis e Kublai. Por implicação, como existe apenas um céu, o Khan teria que exercer o poder universal. Bem-vindo à idéia do império universal.

Na Pérsia, as coisas eram um pouco mais complexas. O Império Persa tinha tudo a ver sobre a adoração ao Sol: isso se tornou a base conceitual para o direito divino do Rei dos Reis. As implicações eram imensas, pois o Rei agora se tornava sagrado. Este modelo influenciou a Bizâncio – que, afinal de contas, estava sempre interagindo com a Pérsia.

O cristianismo tornou o Reino dos Céus mais importante do que governar sobre o domínio temporal. Ainda assim, a idéia do Império Universal persistia, encarnada no conceito de Pantocrator: era o Cristo que finalmente governava, e seu deputado na Terra era o Imperador. Mas Bizâncio continuou sendo um caso muito especial: o Imperador nunca poderia ser igual a Deus. Afinal de contas, ele era humano.

Putin está certamente muito consciente de que o caso russo é extremamente complexo. A Rússia está essencialmente à margem de três civilizações. Faz parte da Europa – razões que incluem tudo, desde a origem étnica dos eslavos até conquistas na história, música e literatura.

A Rússia também faz parte da Bizâncio de um ângulo religioso e artístico (mas não faz parte do império otomano subsequente, com o qual esteve em competição militar). E a Rússia foi influenciada pelo islamismo vindo da Pérsia.

Depois há a influência crucial dos nômades. Pode-se argumentar seriamente que eles têm sido negligenciados pelos estudiosos. O domínio mongol durante um século e meio, é claro, faz parte da historiografia oficial – mas talvez não dada sua devida importância. E os nômades no sul e no centro da Rússia há dois milênios nunca foram devidamente reconhecidos.

Portanto, Putin pode ter atingido um nervo. O que ele disse aponta para a idealização de um período posterior da história russa, do final do século IX ao início do século XIII: a Rússia de Quieve. Na Rússia, o romantismo do século 19 e o nacionalismo do século 20 construíram ativamente uma identidade nacional idealizada.

A interpretação da Rússia de Quieve coloca tremendos problemas – isso é algo que eu discuti avidamente em São Petersburgo há alguns anos. Existem raras fontes literárias – e elas se concentram principalmente no século 12 posterior. As fontes anteriores são estrangeiras, em sua maioria persas e árabes.

A conversão russa ao cristianismo e sua concomitante arquitetura soberba têm sido interpretadas como evidência de um alto padrão cultural. Em resumo, os estudiosos acabaram usando a Europa Ocidental como modelo para a reconstrução da civilização russa de Quieve.

Nunca foi tão simples. Um bom exemplo é a discrepância entre Novgorod e Kiev. Novgorod estava mais perto do Báltico do que do Mar Negro, e tinha uma interação mais próxima com a Escandinávia e as cidades hanseáticas. Compare com Kiev, que estava mais próxima dos nômades estepicos e o Bizâncio – para não mencionar o Islã.

A Rússia de Quieve foi um cruzamento fascinante. As tradições tribais nômades – sobre administração, impostos, o sistema de justiça – prevaleciam. Mas na religião, eles imitavam a Bizâncio. Também é relevante que, até o final do século XII, diversos nômades de estepe eram uma constante “ameaça” para o sudeste da Rússia de Quieve.

Assim, tanto quanto Bizâncio – e, mais tarde, até o Império Otomano – forneceu modelos para as instituições russas, o fato é que os nômades, a começar pelos citas, influenciaram a economia, o sistema social e, acima de tudo, a abordagem militar.

Obeserve Khan

Sima Qian, o mestre historiador chinês, mostrou como Khan tinha dois “reis”, cada um com dois generais, e assim sucessivamente, até os comandantes de uma centena, mil e dez mil homens. Este é essencialmente o mesmo sistema utilizado durante milênios e meio pelos nômades, desde os citas aos mongóis, até o exército de Tamerlane, no final do século XIV.

As invasões mongóis – 1221 e depois 1239-1243 – foram de fato a maior virada de jogo. Como o mestre analista Sergei Karaganov me disse em seu escritório no final de 2018, eles influenciaram a sociedade russa durante séculos depois.

Por mais de 200 anos os príncipes russos tiveram que visitar a sede da Mongólia no Volga para prestar tributo. Uma vertente acadêmica a qualificou como “barbarização”; essa parece ser a opinião de Putin. De acordo com essa vertente, a incorporação dos valores mongóis pode ter “revertido” a sociedade russa ao que era antes do primeiro impulso para adotar o cristianismo.

A conclusão inescapável é que quando o Grão-Principado de Moscou surgiu no final do século XV como a potência dominante na Rússia, ela foi essencialmente a sucessora dos mongóis.

E por causa disso os camponeses – a população sedentária – não foram tocados pela “civilização” (hora de reler Tolstoi?). O poder e os valores nômades, por mais fortes que fossem, sobreviveram ao domínio mongol por séculos.

Bem, se uma moral pode ser tirada de nossa curta parábola, não é exatamente uma boa idéia para a OTAN “civilizada” escolher uma luta com os  herdeiros – laterais – do Grande Khan.

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Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

Originalmente em  Asia Times

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