Putin e Xi tramam a fuga do SWIFT | Pepe Escobar

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Por Pepe Escobar

Vladimir Putin foi direto ao ponto. Na abertura de sua conversa em vídeo de uma hora e quatorze minutos com Xi Jinping em 15 de dezembro, descreveu as relações Rússia-China como “um exemplo de verdadeira cooperação interestatal no século 21”.

Seus inúmeros níveis de cooperação são conhecidos há anos – do comércio, petróleo e gás, finanças, aeroespacial e na luta contra a Covid-19, à progressiva interconexão da Iniciativa de Cinturão e Rota (ICR) e da União Econômica da Eurásia (EAEU).

Mas agora o cenário estava preparado para o anúncio de um  sério contra-movimento em seu balé cuidadosamente coordenado contra a implacável combinação Guerra Híbrida/ Guerra Fria 2.0 implantada pelo Império.

Como explicou sucintamente o Assistente do Presidente para Política Externa Yuri Ushakov, Putin e Xi concordaram em criar uma “estrutura financeira independente para operações comerciais que não pudessem ser influenciadas por outros países”.

Fontes diplomáticas, em off, confirmaram que a estrutura pode ser anunciada por uma cúpula conjunta antes do final de 2022.

Esta é uma virada de jogo impressionante em mais de uma forma. Foi amplamente discutida em cúpulas bilaterais anteriores e nos preparativos para as cúpulas dos BRICS – a maioria centrada no aumento da participação de yuan e do rublo nos acordos Rússia-China, contornando o dólar americano e abrindo novas opções de mercado de ações para investidores russos e chineses.

Agora chegamos à crise. E o evento catalisador foi nada menos que falcões americanos manifestando a ideia – financeiramente nuclear – de expulsar a Rússia do SWIFT, a rede de mensagens utilizada por mais de 11 mil bancos em mais de 200 países, bem como instituições financeiras, para transferências rápidas de dinheiro em todo o mundo.

Cortar a Rússia do SWIFT seria parte de um novo pacote de sanções severas desenvolvido em resposta a uma “invasão” da Ucrânia que nunca acontecerá – principalmente porque os únicos que rezam por ela são os belicistas profissionais da OTAN.

Tirando proveito de um erro estratégico

Mais uma vez, um erro estratégico americano oferece à auto-denominada “parceria estratégica abrangente” Rússia-China a chance de avançar em sua coordenação.

Ushakov colocou isso de forma muito diplomática: é hora de contornar um mecanismo SWIFT “influenciado por terceiros países” para formar “uma estrutura financeira independente”.

Isso equivale a uma séria mudança de jogo para todo o Sul Global – já que dezenas de nações anseiam por serem liberadas de uma ditadura de fato do dólar americano, complementada com pacotes circenses de flexibilização quantitativa recorrentes do FED.

A Rússia e a China vêm experimentando seus sistemas alternativos de pagamento já há algum tempo: o SPFS (Sistema de Transferência de Mensagens Financeiras) russo e o CIPS (Cross Border Interbank Payment System) chinês.

Não será fácil, já que os bancos chineses mais poderosos estão profundamente envolvidos com o SWIFT e expressaram suas reservas sobre o SPFS. No entanto, terão que se integrar inevitavelmente antes do lançamento do novo mecanismo, possivelmente no final de 2022.

Uma vez que os mais importantes bancos russos e chineses – do Sberbank ao Bank of China – adotarem o sistema, o caminho se abre para que outros bancos da Eurásia e do Sul Global se juntem.

A longo prazo, o SWIFT, propenso à interferência política americana será cada vez mais marginalizado, ou restrito às latitudes atlanticistas.

Contornar o dólar americano, no comércio e em todos os tipos de acordos financeiros, é absolutamente central da noção em constante evolução Rússia-China de um mundo multipolar.

O caminho será longo, é claro, especialmente quando se trata de oferecer um sólido contraponto ao sistema financeiro global controlado pelos EUA, um labirinto que inclui as casas de investimento da estirpe de BlackRock, Vanguard e State Street, com sua participação interligada de praticamente todas as grandes empresas multinacionais.

No entanto, uma fuga do SWIFT ganhará rapidamente ímpeto, pois está inextricavelmente ligada a uma série de desenvolvimentos que Putin e Xi abordaram em sua conversa, os mais importantes dos quais são:

1. A interconexão progressiva da ICR e da EAEU, oferecendo funções de expansão para o Novo Banco de Desenvolvimento, gerido pelo BRICS, bem como para o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB).

2. O crescente alcance geopolítico e geoeconômico da Organização de Cooperação de Shangai (SCO), especialmente após a admissão do Irã em outubro.

3. E de forma crucial, a próxima presidência chinesa dos BRICS em 2022.

A China, em 2022, investirá profundamente nos BRICS+. Este clube BRICS expandido estará ligado a um processo de desenvolvimento que inclui:

1. A consolidação da Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP) – um enorme acordo comercial do Leste Asiático unindo a China, a ASEAN 10 e o Japão e a Coréia do Sul, bem como a Austrália e a Nova Zelândia.

2. A Área de Livre Comércio Continental Africana (ACFTA).

3. E os memorandos de entendimento assinados entre a EAEU e o MERCOSUL e entre a EAEU e a ASEAN.

Ancorando a Ásia Ocidental

Yaroslav Lissovolik, um dos maiores especialistas mundiais em BRICS+, argumenta que agora é a hora do BRICS+ 2.0, operando em um sistema que abre “a possibilidade de acordos bilaterais e plurilaterais para complementar a rede central de alianças regionais formadas pelos países dos BRICS e seus respectivos vizinhos regionais”.

Portanto, se estamos falando de um grande salto qualitativo em termos de desenvolvimento econômico em todo o Sul Global, a questão é inevitável. E a Ásia Ocidental?

Todas essas interconexões, mais uma fuga do SWIFT, certamente beneficiarão o Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC), sem dúvida o principal projeto da ICR ao qual Pequim planeja anexar o Afeganistão.

O CPEC será progressivamente conectado ao futuro corredor Irã-China via Afeganistão, parte do acordo estratégico Irã-China de 20 anos, no qual os projetos da ICR serão incluídos de forma proeminente. O Irã e a China já comercializam yuan e rials, portanto os acordos entre o Irã e a China em um mecanismo não-SWIFT serão um dado certo.

O que aconteceu com o Irã é um exemplo clássico de que o SWIFT se tornou refém da manipulação política imperial. Os bancos iranianos foram expulsos do SWIFT em 2012, por causa da pressão dos suspeitos habituais. Em 2016, o acesso foi restabelecido como parte do JCPOA, fechado em 2015. No entanto, em 2018, sob a administração do Trump, o Irã foi mais uma vez cortado do SWIFT.

Nada disso jamais acontecerá com a adesão do Irã ao novo mecanismo Rússia-China.

E isso nos leva à interconexão da expansão da ICR da China no Irã, Iraque, Síria, Líbano e Iêmen. A reconstrução da Síria pode ser amplamente financiada através do mecanismo não-SWIFT. O mesmo para a China que compra energia iraquiana. O mesmo para a reconstrução de um Iêmen que possivelmente hospeda um porto de propriedade chinesa, parte do “colar de pérolas”.

A Arábia Saudita, os Emirados e Israel podem permanecer na esfera de influência financeira dos EUA, ou a falta dela. E mesmo que não haja uma nação dos BRICS ancorando a Ásia Ocidental, e nenhum acordo econômico de integração regional no horizonte, o papel do integrador econômico é obrigado a ser eventualmente desempenhado pela China.

A China desempenhará um papel semelhante ao do Brasil ancorando o MERCOSUL, a Rússia ancorando a EAEU e a África do Sul ancorando a SADC/SACU.

Tanto a ICR quanto a EAEU receberão um tremendo impulso ao contornar o SWIFT. Simplesmente não se pode ser multipolar se você comercializa usando a (desvalorizada) moeda corrente imperial.

A ICR, a EAEU e aqueles acordos de desenvolvimento econômico interligados, combinados com a tecnologia digital, estarão integrando bilhões de pessoas no Sul Global.

Pense em um futuro possível, auspicioso, que explique as telecomunicações baratas que fornecem serviços financeiros e acesso ao mercado mundial, em um ambiente não-dolarizado, a todos aqueles que até agora têm estado isolados de uma economia verdadeiramente globalizada.

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Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

Originalmente em The Cradle

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