Qual é o futuro da social-democracia europeia? | Eduardo Vior

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Por Eduardo Vior

Quando o Partido Social Democrata (SPD) ficou em primeiro nas eleições parlamentares de 26 de setembro, muitos na Europa e em outros lugares ao redor do globo abriram rolhas de champanhe para celebrar o retorno do progressismo ao poder na principal potência da Europa e na terceira maior economia do mundo. A isto se somou os recentes triunfos dessa corrente na Escandinávia e sua consolidação na Península Ibérica. Parece que, invocando o espírito de reforma, a Europa será curada de seus males. Entretanto, para saber se as reformas terão continuidade e realmente mudarão as regras do jogo, será necessário ver o que acontece com a aliança atlântica e a política financeira, fiscal e monetária comum.

Após o SPD, os Verdes e o Partido Democrático Liberal (FDP) acordarem um marco geral, as negociações formais para formar um governo de coalizão começaram na quinta-feira (14). Os principais pontos sobre os quais terão de chegar a um acordo interno são a reforma ecológica da economia, a retomada do crescimento econômico e a correção da crescente desigualdade social e regional. Externamente, terão que definir o quanto pretendem flexibilizar o Pacto Europeu de Estabilidade e Crescimento, como pretendem reformular a caótica política de migração e refugiados da Europa, que posição adotarão sobre a aliança com os EUA e, sobretudo, como querem ordenar a economia mundial.

A família socialista europeia foi rápida em comemorar a vitória na Alemanha. Até agora, os social-democratas lideraram nove governos na UE e estão envolvidos em mais quatro. A vitória do SPD dá um impulso quântico a essa família política.

Espera-se que o próximo governo da Alemanha apóie o afrouxamento do estrangulamento do Pacto de Estabilidade e Crescimento do continente, mas entrará em conflito com seus parceiros nórdicos. Após as eleições da Noruega no início de setembro, Suécia, Noruega, Dinamarca, Finlândia e Islândia têm, pela primeira vez em mais de 60 anos, governos de centro-esquerda. No entanto, implementam políticas financeiras e monetárias ortodoxas. Por exemplo, durante a crise do coronavírus, a Dinamarca relançou com a Áustria, Holanda e Suécia (junto com a Finlândia, em certa medida) o grupo conhecido como “quatro frugais”, para evitar que a UE emita dívida conjunta para apoiar seu fundo de recuperação de 750 bilhões de euros. O grupo acabou cedendo, mas somente depois que a França e a Alemanha fizeram concessões significativas.

Os países nórdicos também não apoiam a criação de um exército europeu. A Dinamarca continuará a se abster de participar de qualquer iniciativa de defesa da UE. A Suécia, por sua vez, defende sua proclamada neutralidade, enquanto a Noruega é firmemente atlanticista. Enquanto os principais partidos alemães concordam com a proposta da Comissão Europeia de realocar quotas de refugiados dentro da UE, outros governos social-democratas insistem em devolvê-los ao primeiro país de entrada no bloco europeu.

Neste cenário continental, se prevê uma tensa negociação sobre a governança europeia. O futuro da UE (e da social democracia) será determinado pela capacidade de Berlim de liderar o bloco e como ele se move no mundo. Embora haja uma tendência crescente no continente de se tornar um pouco independente dos EUA, à medida que a hegemonia americana aumenta a competição entre países, o atlantismo ainda se justifica.

A multiplicação das vitórias social-democratas na Europa expressa o cansaço social com a pandemia e a crise econômica, bem como um apelo a reformas em nível nacional e continental. Entretanto, as rivalidades entre os membros da UE, suas diferenças sobre suas relações com os Estados Unidos, Grã-Bretanha e Rússia e a relação específica dentro da UE entre a economia financeira e produtiva dificultam seus acordos, mesmo entre governos progressistas. Além disso – e isto é crucial – enquanto a OTAN for um instrumento de hegemonia anglo-saxônica, é impossível para a Europa melhorar seus laços com a Rússia, o Irã e a China. Sem reformas fundamentais, a onda social-democrata não se consolidará.

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Eduardo Vior é cientista político argentino

Originalmente em telam.com.ar

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