Quanto custa um migrante venezuelano?

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Talvez a questão mais frequentemente levantada pelo anti-Chavismo nacional e internacional para criminalizar a República Bolivariana da Venezuela seja a da migração, um fenômeno que tem tido um impacto na agenda das organizações políticas e midiáticas de diferentes tipos, nunca isenta de manipulação e mercantilização por aqueles que a promovem.

De fato, existe uma campanha internacional anti-Venezuelana com ênfase na migração, na qual alguns atores governamentais e regionais tentam tirar proveito. A organização Sures explica em uma investigação anterior, revisada pela Misión Verdad, que “a preocupação com as tragédias humanas, que não foram poucas nem insignificantes, degenerou em mais um uso e abuso de sua visibilização do que em ações efetivas de apoio aos migrantes”.

O fenômeno migratório venezuelano foi instrumentalizado pela manipulação do uso das cifras (contraditórias) sobre o assunto, ao mesmo tempo em que o fluxo de dinheiro para enfrentar a “crise dos refugiados” venezuelanos nos países da região, especialmente na Colômbia, devido a sua relação de vizinhança com a Venezuela, não parou.

Um dos últimos esforços para formar uma organização que reúna todos os interesses anti-venezuelanos sobre migração é a Plataforma de Coordenação Interinstitucional para Refugiados e Migrantes da Venezuela, mais conhecida como R4V. O último relatório da Sures, “O preço dos migrantes venezuelanos“, analisa uma publicação de maio da R4V com “as informações mais atualizadas sobre as estatísticas da migração venezuelana, bem como os recursos solicitados para a atenção desta população nos países de destino migratório no âmbito do Plano de Resposta Regional para Refugiados e Migrantes (RMRP) da Venezuela 2021”.

A informação foi publicada após o governo canadense ter convocado e realizado em meados de junho a “Conferência Internacional de Doadores solidários com os refugiados e migrantes venezuelanos”, em colaboração com a ACNUR e a OIM com a intenção de, como afirma Sures, “aumentar o montante destinado, pelo menos nas declarações e cartas de intenção, aos venezuelanos no processo de migração fora da Venezuela”. No evento, os investidores alegaram ter prometido mais de 1,5 bilhões de dólares em doações e empréstimos.

O relatório Sures questiona por que eles tiveram que fazer um “evento de arrecadação de fundos que se esperava para superar a falta de recursos de que o plano sofre, apesar do esforço feito para convencer a comunidade internacional da suposta gravidade da crise venezuelana e chama a atenção para certos números divulgados que levantam “algumas questões sobre certos detalhes”, referindo-se a contradições e suspeitas que esboçaremos a seguir.

UM PONTO DE INTERROGAÇÃO PARA CADA DADO

O R4V reportou dados gerais sobre a população migrante e refugiada, afirmando que há 5.643.665 pessoas nesta situação (em maio de 2021), “enquanto a população estimada a ser atendida pelo Plano Regional de Resposta para Refugiados e Migrantes da Venezuela 2021 – comenta Sures – atinge 3,3 milhões de pessoas distribuídas da seguinte forma”:

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Para os autores do relatório, “a primeira coisa que chama  atenção é que o número total de pessoas a serem assistidas, de acordo com esta tabela, é de 2,6 milhões de pessoas, e não de 3,3 milhões, como foi dito anteriormente”. Entretanto, isto é explicado mais tarde, pois “fica claro que mais de 660 mil pessoas pertencentes às comunidades anfitriãs, e portanto não venezuelanas, também serão beneficiárias do plano”.

Mas a Sures também destaca uma contradição, pois “segundo a R4V, a estimativa da população venezuelana no exterior até o final de 2021 é de 8,1 milhões de pessoas. Se esta estimativa for verdadeira, cerca de 2,5 milhões de pessoas teriam que deixar a Venezuela durante o ano para alcançar este número. Isto supõe que cerca de 6.850 pessoas deixam as fronteiras venezuelanas todos os dias, e que ninguém retorna, o que parece improvável.

Por que improvável? “No auge da migração venezuelana, entre 2017 e 2019, especulou-se que os números da emigração não eram superiores a cinco mil pessoas por dia, mas tais volumes dificilmente poderiam ser sustentados por muitos dias”, dizem os pesquisadores da organização venezuelana de direitos humanos.

Devido à situação imposta pela covid na região e a uma melhoria das condições de vida na Venezuela, muitos nacionais retornaram, de modo que “no momento, os números poderiam ser muito menores, enquanto os números de retorno são muito maiores”, diz a Sures. De fato, em março deste ano, o “Vuelta a la Patria” havia devolvido mais de 23 mil venezuelanos de vários países da América do Sul e do Caribe, em sua maioria do Brasil, Peru, Equador, Chile e Argentina.

O seguinte é que o relatório destaca “a distribuição de recursos que seriam recebidos através de doadores”, de modo que “temos que a R4V agrupa 159 organizações e parceiros que realizariam as atividades do plano, de acordo com a seguinte distribuição”.

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É evidente na tabela acima que “as agências da ONU e as ONGs internacionais são fortemente privilegiadas em relação a atores como as ONGs nacionais e outras organizações que trabalham no terreno”.

A razão para isto poderia ser política, levando em conta que as agências da ONU – especialmente o ACNUR – e outras ONGs internacionais  há anos vêm promovendo o expediente migratório anti-venezuelano, e têm o apoio de governos interessados em atrair recursos financeiros não orçamentários sem o fenômeno migratório em seus ombros.

Finalmente, o relatório Sures aponta para um último gráfico que “apresenta uma lista dos recursos solicitados por cada país ou grupo de países, assim como a população de refugiados e migrantes venezuelanos relatados pelos diferentes governos. As informações estão resumidas na tabela a seguir”:

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Os pesquisadores observam que “existem enormes disparidades entre os recursos solicitados por refugiado ou migrante em cada país, variando de US$ 95,67 nos países da América Central ou US$ 100,59 no Chile, a US$ 549,62 no Equador. Aqui pode-se questionar as razões dessas disparidades, e se elas podem ser atribuídas à escassez com que as pessoas chegam a um ou outro país.

Como não há dados confiáveis para responder a estas perguntas, pode-se afirmar que existe um novo grau de manipulação da questão da migração venezuelana em termos de solicitações financeiras. O Equador é o país que mais pede dinheiro por imigrante venezuelano, bem acima do Peru e da Colômbia, países que também estão passando por uma crise social e econômica sem precedentes devido à pandemia da covida.

No Equador, o salário mínimo é de US$ 400, o que significa que o governo equatoriano está pedindo mais dinheiro do que está disposto a pagar aos trabalhadores em seu próprio país. Além disso, segundo a análise de Sures, “não se pode afirmar que exista uma diferença significativa nos perfis das pessoas que chegam a esses três países, de modo a poder justificar tais diferenças”. Não são economias diametralmente diferentes, nem existem disparidades apreciáveis em termos do papel do Estado na redistribuição da riqueza”.

Além disso, para responder a estas perguntas, “só se poderia perguntar às organizações e agências que solicitam recursos sobre as razões por trás deste fenômeno”. Mas a opacidade e a falta de transparência sobre os recursos financeiros têm sido parte do repertório político e midiático da maioria dos atores internacionais que prestam atenção especial ao tema em questão.

A TRAMA POR TRÁS

Depois de ver que cada país de forma autônoma e não transparente tem um custo para cada migrante venezuelano, em um momento de alta mercantilização do fenômeno, a Sures conclui que “de acordo com o que foi revelado nos fóruns anteriores à Conferência de Doadores, os chamados refugiados e migrantes venezuelanos receberam dez vezes menos recursos do que os refugiados como resultado das crises na Síria ou no Sudão”.

  • Em junho de 2020, a ONU levantou mais de US$ 7,7 bilhões em “ajuda humanitária” para a Síria, pedindo mais de US$ 6 bilhões para a questão da migração síria.
  • Em março deste ano, a Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) apelou por US$1,2 bilhões para apoiar 2,2 milhões de refugiados sudaneses do Sul que vivem em campos nos países vizinhos.

A Sures argumenta que “em parte, esta diferença [na disparidade de recursos] pode ser atribuída ao surgimento da covid-19 e às conseqüências econômicas que este vírus tem gerado ao redor do mundo. Mas também é possível que a chamada crise de deslocamento do povo venezuelano seja um fenômeno de pouca relevância ou credibilidade para aqueles que conhecem a migração em nível global, assim como sua extrema gravidade”.

A organização venezuelana não hesita em caracterizar como um fracasso os esforços de captação de recursos para os migrantes venezuelanos pela R4V e seus parceiros e, finalmente, menciona a opacidade com que esses atores freqüentemente operam para obter recursos financeiros:

“As disparidades em termos de recursos solicitados por refugiado ou imigrante venezuelano não têm explicação facilmente justificável e semeiam mais dúvidas sobre o destino real dos recursos que são conseguidos levantar. Não é fácil entender como um migrante no Equador exige mais de cinco vezes mais recursos do que aqueles que chegam ao Chile ou México, nem porque é muito mais alto do que em países vizinhos como a Colômbia ou o Peru. São precisamente estes detalhes que não permitiram que os planos de resposta para refugiados e migrantes tivessem os recursos que supostamente necessitam”.

Isto nos leva a pensar que, embora haja esforços reais para administrar de alguma forma o fenômeno migratório venezuelano em vários países da América do Sul e do Caribe, não há rigor humanitário ou científico para apoiar suas ações. Parece que se trata de manipular politicamente a questão e obter ganhos comerciais, bem de acordo com o histórico corrupto de anti-Chavismo geralmente ligado ao clã de Guaidó & Co.

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Originalmente em Mision Verdad

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