Reformistas não autorizados nas eleições presidenciais do Irã | Pepe Escobar

0

Por Pepe Escobar

Quando o Ministério do Interior do Irã divulgou na terça-feira a lista final de candidatos aprovados pelo Conselho Guardião de 12 membros para concorrer à presidência nas próximas eleições de 18 de junho, se instalou um pandemônio em Teerã por pelo menos 24 horas.

Uma lista “não oficial” dos 7 candidatos à eleição presidencial já estava circulando e causando uma grande agitação, mas ainda não confirmada como definitiva.

O assunto na cidade foi que a lista barrou a entrada de muitas pessoas importantes. O ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad estava fora. Assim como Ali Larijani – um ex-presidente do Parlamento e até mesmo o atual vice-presidente iraniano, Es’haq Jahangiri, que deveria ser o principal candidato reformista.

A agência de notícias Fars tinha dado a notícia na segunda-feira, anunciando os sete finalistas. Eles acertaram tudo – desde a eliminação de Ahmadinejad, Larijani e Jahangiri até o fato de que nenhuma candidata feminina foi aprovada.

A Fars está muito próxima do IRGC. Portanto, o que aconteceu faz todo o sentido. Incluindo os rumores que circulavam por Teerã de que o atual Presidente Rouhani entrou em modo de pânico, chamando o Ayatollah Khamenei para uma revisão da lista.

Na situação atual, os Sete Magníficos que estarão concorrendo são Ebrahim Raeisi, Saeed Jalili, Mohsen Rezaei, Alireza Zakani, Seyyed Amir-Hossein, Ghazizadeh-Hashemi, Albdolnasser Hemmati e Mohsen Mehr-Alizadeh.

O líder indiscutível do grupo é Raeisi, o chefe do Judiciário desde 2019. Ele é tecnicamente um principalista – um conservador da Revolução Islâmica, em termos iranianos – mas diz que irá concorrer como um independente. Chame-o de um soft hardliner (um linha dura brando).

Entre os outros, o único relativamente conhecido fora do Irã é Jalili, também um Principalista, e ex-diretor de negociações nucleares como secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional de 2007 a 2013.

Pelo menos em tese, restam dois reformistas: Mehr-Alizadeh e Hemmati, o atual presidente do Banco Central. Mas eles não têm nenhum apelo nacional.

Portanto, Raeisi agora parece ser quase um negócio fechado: um burocrata relativamente anônimo, sem o perfil de um radical do IRGC, bem conhecido por sua luta contra a corrupção e por sua preocupação com os pobres e os oprimidos. Em matéria de política externa, o fato crucial é que ele seguirá, sem dúvida, os ditames cruciais do IRGC.

Raeisi já está dando sua narrativa no sentido de que ele “negociou calmamente” para garantir a qualificação de mais candidatos, “para tornar o cenário eleitoral mais competitivo e participativo”. O problema é que nenhum candidato tem o poder de influenciar as decisões opacas do Conselho Guardião de 12 membros, composto exclusivamente por clérigos: o Ayatollah Khamenei.

O Conselho Guardião declarou de forma críptica que apenas 40 dos 592 candidatos haviam submetido “todos os documentos necessários” à sede eleitoral do Ministério do Interior. Não houve nenhuma explicação sobre o conteúdo desses “documentos”.

Abbas-Ali Kadkhodaee, o porta-voz do Conselho, descartou qualquer politização: as decisões foram tomadas com base na “lei eleitoral”. Portanto, ninguém pode contestá-las – exceto Khamenei. Ele enfatizou que o Conselho “não tinha sido informado” de qualquer ação do Líder.

Reformistas não autorizados nas eleições presidenciais do Irã | Pepe Escobar 1

O fim da era reformista

O vice-presidente Jahangiri, que teria sido o porta-estandarte reformista, não levou na boa: em uma declaração vigorosa, ele disse, “o Conselho naturalmente tem a responsabilidade pela decisão e sua base legal e pelas conseqüências políticas e sociais que dela decorrem”.

Mais crucial para o establishment de Teerã, ele destacou uma “séria ameaça” para o sistema: “Espero que o aspecto republicano do establishment, a participação efetiva do povo na determinação de seu próprio destino, os interesses nacionais e o futuro do Irã não sejam sacrificados por expedientes políticos imediatos”.

Conselheiros do ex-presidente Ahmadinejad – ainda extremamente popular nacionalmente – me disseram que ainda estão ponderando suas opções: “É uma decepção muito grande, mas esperada”. Um grande erro, que levará à raiva e à desconfiança entre as pessoas comuns e, eventualmente, a um retrocesso”.

O professor Mohammad Marandi da Universidade de Teerã observou: “ainda há alguma incerteza sobre os candidatos”. Ele ainda não está fazendo uma avaliação completa porque não está certo de que o veto a Larijani, especialmente, “será a última palavra”.

Mesmo com os Sete Magníficos livres para começar a fazer campanha, o sentimento geral é de que a era Rouhani-Zarif parece ter acabado, não com um estrondo, mas com uma lamúria.

Nas negociações do JCPOA em Viena, o vice-ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, continua falando como um realista, enfatizando: “Não estou confiante de que seria possível concluir as negociações, mas há uma possibilidade”. Isso exigiria “decisões políticas a serem tomadas”, uma referência direta a Washington.

Todos em Viena sabem que o que foi acordado de longe sobre o renascimento do JCPOA foi a parte fácil. O verdadeiro problema são as centenas de sanções restantes que devem ser canceladas pelo Congresso dos EUA – e isso não vai acontecer.

Além disso, os americanos continuam insistindo que Teerã deve primeiro retomar os compromissos nucleares que suspendeu – seguindo seus direitos legais de retaliação, conforme definido pelo artigo 26 do JCPOA. A linha vermelha de Teerã é clara: foi Washington que abandonou o JCPOA, portanto cabe aos EUA primeiro remover todas as sanções, “de forma prática e demonstrável”.

Teerã tem reiterado repetidamente que sairá de Viena até o final de maio, se não houver acordo. O IRGC não poderia se importar menos: eles já estão no modo pós-JCPOA. Focado no acordo estratégico Irã-China. Focado na integração mais ampla da Eurásia ao lado da Rússia e da China. E confiando no candidato perfeito postulado para se tornar o próximo presidente iraniano.

***

Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

Originalmente em Asia Times

Reformistas não autorizados nas eleições presidenciais do Irã | Pepe Escobar 2

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui