Rússia-China promovem o mapa do caminho asiático para o Afeganistão | Pepe Escobar

0

Por Pepe Escobar

A reunião dos primeiros-ministros dos países da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) na 4ª-feira em Dushanbe, capital tadjique, pode ter sido evento que nem se via no radar, mas, sim, revelou os contornos do grande quadro adiante, no que tenha a ver com o Afeganistão.

Assim sendo, vejamos o que Rússia e China – os pesos-pesados da OCX – estão fazendo.

Wang Yi, ministro de Relações Exteriores chinês, expôs o mapa básico do caminho a seu contraparte afegão, ministro Mohammad Haneef Atmar. Ao destacar o padrão ouro da política exterior da China – não interferir em assuntos internos de nações amigas – Wang estabeleceu três prioridades:


1. Negociações intra-afegãs reais, na direção da reconciliação nacional e de solução política durável, para assim impedir a guerra civil. Pequim está pronta para “facilitar” o diálogo.

2. Combate ao terror – o que, na prática, significa combate a remanescentes da al-Qaeda, ao ISIS-Khorasan e ao Movimento Islâmico do Turquestão Oriental [ing. Eastern Turkestan Islamic Movement, ETIM]. O Afeganistão não deve ser – outra vez – paraíso para grupos terroristas.

3. Os Talibã, por sua vez, devem comprometer-se a romper completamente com qualquer tipo de grupo ou organização terrorista.

Atmar, segundo fontes diplomáticas, concorda plenamente com Wang. E também o ministro de Relações Exteriores do Tadjiquistão, Sirojiddin Muhriddin. Atmar até prometeu trabalhar com Pequim para destruir o ETIM, grupo terrorista uigur fundando na região Xinjiang Ocidental da China. Sobretudo, a posição oficial de Pequim é que todas as negociações devem “pertencer aos afegãos e ser lideradas por afegãos.”

Coube ao enviado do presidente da Rússia, Zamir Kabulov, oferecer avaliação mais detalhada das discussões de Dushanbe.

O ponto principal dos russos é que Cabul e os Talibã devem tentar formar um governo provisório de coalizão para os próximos 2-3 anos, enquanto negociam acordo permanente. Tarefa de Sísifo – para dizer o mínimo. Os russos sabem muito bem que os dois lados não reiniciarão negociações antes de setembro.

Moscou é muito precisa sobre o papel da troika expandida – Rússia, China, Paquistão e os EUA – no alucinantemente lento processo das conversações de paz de Doha: a troika deve “facilitar” (também terminologia de Wang), não mediar os procedimentos.

Outro ponto muito importante é que, assim que recomecem negociações intra-afegãs “substantivas”, deve ser iniciado um mecanismo para libertar os Talibã das sanções do Conselho de Segurança da ONU.

Significa a normalização dos Talibã como movimento político. Considerando seu impulso diplomático atual, os Talibã jogam de olho na bola. Daí que tenha sido bem compreendido o aviso, dos russos, de que não devem tornar-se ameaça à segurança de qualquer dos “-stões” da Ásia Central, ou de que haverá “consequências”.

Quatro dos cinco “-stões” (o Turcomenistão é a exceção) são membros da Organização de Cooperação de Xangai (OCX). Vale anotar que os Talibã enviaram missão diplomática ao Turcomenistão, para acalmar os temores locais.

Abertura para a fronteira

Em Dushanbe, realizou-se pela primeira vez reunião especial, de nível ministerial, do Grupo de Contato OCX-Afeganistão, estabelecido em 2005.

Isso mostra a OCX totalmente engajada em fazer do papel de “facilitar, não mediar” o principal mecanismo para resolver o drama afegão. É sempre crucial lembrar que nada menos de seis estados-membros da OCX são vizinhos do Afeganistão.

Durante o evento principal em Dushanbe – o Conselho de Ministros de Relações Exteriores da OCX – os russos mais uma vez enquadraram a estratégia de Washington no Indo-Pacífico como estratégia para deter a China e isolar a Rússia.

Seguindo análises recentes feitas pelo presidente Vladimir Putin e o ministro de Relações Exteriores Sergey Lavrov, a delegação russa explicou a seus contrapartes na OCX a sua visão, de contrapor, de um lado os esforços de Moscou e Pequim para desenvolver um sistema mundial policêntrico baseado por um lado na lei internacional e, por outro lado, o conceito ocidental da chamada “ordem mundial baseada em regras” [ing. “rules-based world order.”]

A abordagem ocidental, disseram eles, pressiona países que buscam vias independentes de política exterior, legitimando, afinal de contas, a “política neocolonial” do ocidente.

Rússia-China promovem o mapa do caminho asiático para o Afeganistão | Pepe Escobar 1

Em campo

Enquanto a OCX discutia o impulso na direção de um sistema mundial policêntrico, os Talibã, em campo, continuaram a fazer o que têm feito nas últimas poucas semanas: capturar fronteiras em vias estratégicas.

Os Talibã já controlavam fronteiras com o Tadjiquistão, Uzbequistão, Irã e Turcomenistão. Agora já tomaram o ultraestratégico ponto de fronteira Spin Boldak, no Paquistão, na fronteira com o Baloquistão, que, em termos comerciais é até mais importante que o ponto de passagem Torkham, próximo do Desfiladeiro Khyber.

Segundo o porta-voz dos Talibã Suhail Shaheen, “o distrito de Spin Boldak na província de Kandahar foi limpo e ali já não há inimigos” – forças de Cabul – “e o distrito está agora sob controle dos mujahidin.” O termo “mujahidin” no contexto afegão significa “forças indígenas que combatem contra invasores estrangeiros ou seus procuradores.

Para ter uma ideia da importância de Spin Boldak para a economia dos Taliban durante seus anos de poder, ver o terceiro capítulo de uma série que publiquei no Asia Times em 2010, aqui e aqui. Há 11 anos, anotei que “a fronteira afegã-paquistanesa ainda é porosa, e os Talibã parecem crer que podem até conseguir de volta o seu Talibanistão.” Hoje acreditam nisso, mais que nunca.

Enquanto isso, no nordeste, na província Badaquistão,[1] os Talibã estão cada vez mais próximos da fronteira com Xinjiang – o que levou a alguma histeria em torno de o “terrorismo” poder infiltrar-se na China via o corredor Wakhan [aqui, mapa].

Nonsense. A fronteira efetiva entre Afeganistão e China no Wakhan não passa de 90 quilômetros. Pequim pode exercer total vigilância eletrônica de qualquer coisa que se mova por ali.

Atravessei parte do corredor Wakhan no lado tadjique, fronteira com o Afeganistão, durante meu giro pela Ásia Central no final de 2019; em alguns trechos da Rodovia Pamir, estive a apenas cerca de 30 km de Xinjiang, já na faixa da terra de ninguém. Únicos seres humanos que vi naquela paisagem desolada, geologicamente espetacular, foram umas poucas caravanas de nômades. O terreno parece ser ainda mais proibido que o Hindu Kush.

Se ocorrer a algum grupo terrorista tentar entrar em Xinjiang, não se atreverão a cruzar o corredor Wakhan; tentarão infiltrar-se via Quirguistão. Encontrei muitos uigures em Bishkek, capital do Quirguistão: principalmente negociantes, legalmente indo e voltando, de um lado para o outro. Na fronteira Quirguistão-Xinjiang, havia fluxo constante de caminhões de carga. O ETIM foi descartado como bando de doidos.

Muito mais relevante que isso é que o Ministério de Serviços Públicos em Cabul está construindo uma estrada de 50 quilômetros – por enquanto ainda sem pavimentação –entre a província Badaquistão e Xinjiang, que vai até o fim do corredor Wakhan. Ganhará o nome de Estrada Wakhan.

Nem sinal de túmulo de impérios…

O Paquistão, membro da OCX parece manter-se na posição de chave para a solução do drama afegão. O ISI paquistanês continua intimamente ligado a todas as facções dos Talibã: não esqueçamos nunca que os Talibã são criação do legendário general Hamid Gul no início dos anos 1990s.

Ao mesmo tempo, é mais fácil, para qualquer grupo de jihadistas esconder-se e ‘desaparecer’ nas profundezas das áreas tribais paquistanesas, que em qualquer outra região – e podem comprar proteção, sem ter de considerar o que os Talibã estejam fazendo no Afeganistão. O primeiro-ministro Imran Khan e seu círculo sabem muito bem disso – e Pequim também sabe. Esse será o teste crucial para a OCX, em seu front antiterror.

A China precisa de um Paquistão eminentemente estável, para todos os projetos de longo termo da Iniciativa Cinturão e Estrada/Corredor Econômico China-Paquistão, e para alcançar sua meta de incorporar o  Afeganistão. Cabul poderia beneficiar-se assim, não só de maior conectividade e de desenvolvimento da infraestrutura, mas também de projetos futuros para exploração de minérios, inclusive de projetos para exploração de terras raras.

Enquanto isso, nacionalistas indus adorariam contornar o Paquistão e estender a própria influência a Cabul, encorajados por Washington. Para o Empire of Chaos, a agenda ideal é – e que outra seria?!– o caos: para bloquear a Cinturão e Rota e o mapa do caminho de Rússia-China para a integração da Eurásia, Afeganistão inclusive.

A histeria que se soma, pintando Rússia e China envolvidas na reconstrução do Afeganistão como nada além de novo capítulo da infindável saga do “cemitério de impérios” qualifica-se como menos que doideira. Conversações em Dushanbe deixam claro que a abordagem da parceria estratégica Rússia-China, no caso do Afeganistão, é cautelosamente realista.

Trata-se sempre de reconciliação nacional, desenvolvimento econômico e integração da Eurásia. Não vai aí incluído qualquer componente militar, nem qualquer Império de Bases, nem interferência estrangeira. Moscou e Pequim também reconhece, pragmaticamente, que não será possível realizar esses sonhos num Afeganistão refém do etno-sectarismo.

Os Talibã, por seu lado, parecem ter reconhecido os próprios limites, daí o impulso diplomático inter-regional. Parecem estar muito atentos aos inevitáveis pesos-pesados – Rússia e China – e também aos ‘-stões’ da Ásia Central, plus Paquistão e Irã.

Se toda essa dança de interconexão levará ao início de um Afeganistão pós-guerra como estado real e funcional, só se pode dizer insha Allah.

***

Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

Originalmente em Asia Times / Tradução bbacurau.blogspot.com

Rússia-China promovem o mapa do caminho asiático para o Afeganistão | Pepe Escobar 2

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui