Segundos Afora | Eduardo Vior

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Por Eduardo Vior

Enquanto Vladimir Putin explorava o sucesso de seu encontro com os presidentes do Irã e da Turquia em Teerã, Sergei Lavrov respondeu aos ataques ucranianos a alvos civis dentro da Rússia anunciando a extensão da “Operação Militar Especial” a toda a Ucrânia. Com a consolidação política, econômica e militar da Rússia, o governo ucraniano desmorona, forçando os membros da OTAN a se envolverem cada vez mais diretamente na guerra. Ao mesmo tempo, a crise política e econômica nos países europeus se aprofunda. Suas elites se fragmentam e os radicais assumem o controle. Os atores de segunda classe estão cada vez mais deslocados pela polarização do conflito. O momento do confronto entre as superpotências se aproxima perigosamente.

“A idéia do domínio total do ‘bilhão dourado’ é racista e neocolonial e divide os povos em primeira e segunda classe”, disse o presidente russo Vladimir Putin na quarta-feira, falando no fórum “Ideias fortes para uma nova era” em Moscou, organizado pela ONG Agência de Iniciativas Estratégicas. Estas reuniões são realizadas a cada dois anos para discutir propostas de inovação governamental apresentadas por cidadãos de toda a Federação.

“Este modelo é racista e neo-colonial em sua essência, enquanto a ideologia globalista e pseudo-liberal por trás se assemelha cada vez mais ao totalitarismo”, enfatizou o presidente russo. Ele prosseguiu argumentando que “uma nova era e uma nova etapa na história do mundo está se aproximando”. Somente Estados genuinamente soberanos estão em condições de garantir uma dinâmica de alto crescimento e de se tornar um modelo para os outros”. E acrescentou que “a soberania tem a ver com a liberdade do desenvolvimento nacional e, portanto, com o desenvolvimento de cada indivíduo”.

Ao mesmo tempo, não poupou críticas ao funcionamento da democracia russa: “Estou convencido de que, para sermos fortes, independentes e competitivos, devemos melhorar os mecanismos de participação das pessoas na vida do país e torná-los mais abertos e justos”.

Pouco afeito a enunciar grandes narrativas, esta é provavelmente a primeira ocasião em que o presidente russo propõe tão claramente uma frente de 80% da humanidade contra os 20% mais ricos. Isto não é coincidência ou ilusão de grandeza: Vladimir Putin acaba de alcançar um triunfo retumbante no encontro que teve em Teerã com seus colegas do Irã, Ebrahim Raisi, e da Turquia, Tayik Recep Erdoğan, e está explorando o fato politicamente com uma mensagem ecumênica.

A reunião em Teerã foi realizada no âmbito do chamado Processo de Paz de Astana (capital do Cazaquistão), lançado em 2017 para alcançar a paz na Síria. Discutiram a situação atual no país árabe e sublinharam seu compromisso com sua integridade territorial, assim como com a Carta das Nações Unidas. Este compromisso é tanto mais importante quanto a Turquia até alguns dias atrás planejava invadir o norte do país árabe para ocupar uma faixa de fronteira com cerca de 30 km de largura e assim combater melhor as milícias curdas. Em troca de sua concessão, Erdoğan conseguiu uma via livre para operar contra as milícias curdas no norte do Iraque. O Irã concordou em vender drones de longo alcance à Rússia e à Turquia um grande negócio sobre gás. Todos sairam ganhando e felizes.

O sucesso da cúpula de Teerã tornou possível que dois documentos idênticos fossem assinados nesta sexta-feira 22 em Istambul entre a ONU, Turquia e Ucrânia, por um lado, e entre a ONU, Turquia e Rússia, por outro, para que Kiev desmilitarizasse seus portos e a Rússia lhe permitisse exportar trigo e girassol através do Mar Negro. O governo de Zelensky está comemorando, porque poderá enviar seus grãos por mar (já o faz através do Danúbio), mas a Turquia e a Rússia ganharam muito mais. Ao assumir a segurança das remessas, ambos compartilham o controle sobre o Mar Negro. Ambos também participam junto com a Ucrânia na comissão de controle baseada em Istambul que assegurará que os navios que cruzam o Bósforo em seu caminho para carregar trigo ucraniano o façam vazio (sem armas). Erdoğan, enquanto isso, foi deixado como um prestigioso árbitro, obteve um desconto de 25% para comprar trigo russo e a Rússia obteve autorização da ONU para exportar cereais e fertilizantes por esta rota, o que forçará muitos países a revogar suas sanções. Em troca, Moscou se comprometeu a não atacar Odessa e dois outros portos por um período renovável de 120 dias. O adiamento da “Operação Militar Especial” não a cancela, mas apenas a prolonga.

O discurso programático de Vladimir Putin e a cúpula de Teerã coincidiram com a ampliação dos objetivos geográficos da “Operação Militar Especial” pelo Ministro das Relações Exteriores russo Sergey Lavrov em uma entrevista com Margarita Simonian, editora-chefe da RT. “[A guerra] é vantajosa para os americanos e os britânicos, porque eles estão do outro lado do oceano, estão longe”, disse Lavrov. Segundo o Ministro das Relações Exteriores russo, as estatísticas mostram que a União Européia suportou 40% dos prejuízos econômicos resultantes das sanções, enquanto os EUA suportam menos de 1%. Segundo Lavrov, esta é precisamente a principal razão pela qual os países ocidentais estão impedindo a Ucrânia de chegar a um acordo com a Rússia.

Ele também ressaltou que o escopo geográfico atual da operação russa já é diferente do que foi previsto há três meses. “Não são apenas Donetsk e Lugansk, mas também as províncias de Kherson e Zaporozhie e alguns outros territórios”, enfatizou o ministro. Lavrov explicou que a decisão se deve ao fato de que o Ocidente continua a encher a Ucrânia com armas de alcance cada vez maior. “Não podemos permitir que armas que nos ameaçam diretamente sejam utilizadas na parte da Ucrânia controlada por Zelensky ou por seu sucessor”, disse ele.

No entanto, ele enfatizou que a Rússia continua a manter que a guerra nuclear deve ser evitada. Comentando a atual crise energética na Europa, o ministro disse que “não podemos estar felizes com as pessoas na Europa congelando, vivendo mal”, e enfatizou que foi decisão dos políticos europeus “romper os laços naturais e vantajosos” com a Rússia.

Em resumo, Putin e Lavrov estão enviando uma mensagem clara de que não haverá negociações políticas enquanto o Ocidente continuar a fornecer ao governo ucraniano armas de alcance cada vez maior, capazes de afetar o território russo. Devido a esta ameaça, a Rússia se considera forçada a continuar e aprofundar a guerra até a aniquilação de quaisquer bolsões de resistência ucranianas que – em sua percepção – poderiam ameaçar a população russófona.

Após a derrota das forças ucranianas no leste e a expansão da Rússia de seus objetivos de guerra, a conflagração está se intensificando. O exército ucraniano está visivelmente desmoronando e os “conselheiros” ocidentais estão desempenhando um papel cada vez mais importante. De acordo com um relatório não confirmado da Agência de Inteligência Estrangeira da Polônia (AW), Kiev está enviando formações não preparadas para o Donbass, o nível profissional dos oficiais é fraco e o comando é freqüentemente exercido por combatentes nacionalistas. Desde maio deste ano, o controle e a condução das operações foram assumidos por “assessores” dos EUA, Grã-Bretanha e Canadá. O intervencionismo ocidental e a submissão ucraniana a ele estão aumentando.

Entretanto, de acordo com Philip Giraldi, um ex-oficial de inteligência dos EUA que agora dirige uma fundação para a reorientação da política externa americana, a Casa Branca continua a negar o envolvimento dos soldados americanos na guerra ucraniana. Na cúpula da OTAN em Madri em 29 de junho, Biden anunciou que o 5º Corpo do Exército dos EUA estabelecerá um quartel-general permanente na Polônia, que o Pentágono manterá uma brigada adicional na Romênia e que reforçará suas forças nos Estados bálticos. O número de tropas americanas na Europa também será aumentado.

Giraldi também comenta que em 25 de junho, o New York Times publicou um relatório intitulado “Uma rede de Comando coordena o fluxo de armas na Ucrânia, segundo informam as autoridades: A operação secreta envolvendo as forças de operações especiais dos EUA indica a escala do esforço para ajudar os militares ucranianos ainda em desvantagem”. Além disso, o analista continua, comandos do Serviço Aéreo Especial britânicos – SAS estão supostamente protegendo o presidente Volodymyr Zelensky. O NYT esclarece que os soldados e oficiais da CIA não estão na linha de frente com as tropas ucranianas. Apesar do encobrimento, a Rússia e outros serviços de inteligência estão bem cientes da operação. Segundo o ex-espião, Biden não admitirá a intervenção, pelo menos até que alguns desses soldados sejam mortos ou, pior ainda, capturados e em frente às câmeras comecem a falar sobre seu papel.

Citando ainda a Tenente-Coronel Karen Kwiatkowski, ex-Analista do Departamento de Defesa, que observa que o destacamento de pessoal não uniformizado “é inteiramente típico dos estágios iniciais de uma longa guerra americana”.

Com certeza, a Rússia violou o direito internacional quando invadiu a Ucrânia em fevereiro passado, mas nos últimos oito anos todas as instituições que são guardiãs do direito internacional falharam. Ninguém tinha a vontade ou a força para forçar a Ucrânia a cumprir os acordos de Minsk e cessar seu assédio à população civil no Donbass. Ao mesmo tempo, a OTAN trouxe cada vez mais tropas e armas para mais perto das fronteiras da Rússia. A ameaça de Zelensky de aderir à OTAN e seu anúncio de que a Ucrânia teria novamente armas atômicas foram acrescentados no ano passado. No final, tanto os EUA quanto a OTAN rejeitaram as ofertas de negociação da Rússia.

Os aliados ocidentais induziram a Rússia a entrar na guerra na suposição de que suas forças armadas seriam incapazes de lutar efetivamente, que a economia russa se desmoronaria sob as primeiras sanções e que a imagem de Putin entraria em colapso, levando a revoltas populares que permitiriam ao Ocidente pressionar por um golpe de estado e uma mudança de regime. Pelo contrário, o governo russo, em um “cavalo-de-pau”, restabeleceu as perdas econômicas e financeiras, reorientou o comércio exterior, substituiu as importações ocidentais e substituiu as empresas ocidentais por concorrentes russos. A balança de pagamentos da Rússia alcançou, até agora, um superávit histórico este ano. Ao mesmo tempo, Moscou usou apenas 10% de suas forças militares na Ucrânia e está acumulando reservas com voluntários, de modo que conseguiu dispensar o recrutamento forçado. Conseqüentemente, a guerra não teve impacto na vida cotidiana da sociedade russa. Como resultado, a taxa de apoio do presidente, que era de 70% em fevereiro, agora subiu para quase 79%.

O oposto é verdadeiro na Europa e nos Estados Unidos. O Banco Central Europeu (BCE) anunciou na quinta-feira 21 que estava aumentando as taxas de juros em 50 pontos base para conter a inflação na zona do euro. O aumento, o primeiro em onze anos, duplica a estimativa anterior da própria instituição financeira. A inflação homóloga na zona do euro atingiu 8,6% em junho, em comparação com 8,1% em maio. O aumento é impulsionado principalmente pelos preços da energia, que aumentaram 42% em junho. Nas últimas semanas, o euro também experimentou seu pior período em 20 anos em meio a temores crescentes de uma recessão.

O Velho Continente também enfrenta o risco de uma crise desencadeada pelos países mais endividados do bloco, como a Itália (onde a dívida externa atinge 150% do PIB) e a Grécia. Embora a crise ocidental tenha começado durante a pandemia, o gigantesco endividamento público e privado deixou os países europeus sem sobras para resistir ao ressurgimento das sanções contra a Rússia. Subjugados aos grandes bancos e fundos de investimento, os governos ocidentais não têm iniciativa. Como resultado, Macron e Scholz foram enfraquecidos, Draghi caiu e Liz Truss está se posicionando como a eventual primeira-ministra do Reino Unido. Após as eleições de novembro, a administração Biden provavelmente não passará de um fantoche nas mãos de um Congresso em grande parte republicano.

Esta falta de conceitos e de liderança induz os líderes ocidentais a seguir o automatismo da guerra: quanto maiores as vitórias russas, mais armas e tropas a OTAN injeta. Logo chegará o dia em que os Spetnazes caçarão um general da aliança e o desfilarão diante das câmeras. Joe Biden então assumirá a responsabilidade, retirará as tropas, cancelará os suprimentos de armas para Kiev e forçará Zelensky a buscar a paz? Ou ele ordenará mais tropas e irá para um confronto de frente com as forças russas? O tempo dos moderados e dos indecisos está chegando ao fim. A luta em segundo plano começa. Segundos afora!

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Eduardo Vior é cientista político argentino

Originalmente em telam.com.ar

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