Síria: Dez anos de ódio | Guadi Calvo

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Por Guadi Calvo

Estamos há exatamente dez anos de iniciada a guerra contra a Síria, suscitada no âmbito da operação conhecida como Primavera Árabe, que visava exclusivamente derrubar os governos do coronel Mohammed Gaddafi na Líbia e do presidente Bashar al-Assad na Síria, as duas únicas nações muçulmanas, juntamente com o Irã, não subordinadas a Washington.

As forças operacionais que conceberam as ações contra Trípoli e Damasco, sequer pesaram a possibilidade de que aliados históricos como os governos da Tunísia, Egito e Iêmen, que ao som de manifestações e truques palacianos, desmoronassem, aprofundando as contradições dos regimes, que levaram a ditaduras, com fachadas democráticas (Egito e Tunísia) e guerras apocalípticas como a que a Arábia Saudita, juntamente com uma longa lista de sequazes, leva a cabo no Iêmen desde 2015.

Dez anos após a primavera árabe, as operações estão paralisadas: Na Líbia, depois de, literalmente, demolir o país, não só do ponto de vista militar e econômico, mas também comprometendo sua integridade como nação, gerou um caos com muitas possibilidades de conclusão pelas mesmas forças que o originaram, Estados Unidos e a União Européia, balcanizando a nação, que em um recente acordo tenta chegar às eleições em dezembro próximo como se nada tivesse acontecido, uma verdadeira eternidade para uma realidade, tão mutável quanto o deserto.

Por outro lado, na Síria, os hospedeiros imperiais que em 15 de março de 2011, assumiram que entrar na Síria e derrubar o Presidente al-Assad, seria tão simples quanto com o Coronel Kaddafi. A recusa da Rússia e da China em repetir o erro de aprovar a Resolução 1973 das Nações Unidas, deu ao governo sírio ar suficiente para resistir aos primeiros anos de guerra e depois consolidar a aliança com a Rússia, o Irã e o Hezbollah libanês que fizeram Damasco sonhar com um triunfo definitivo, que dia após dia continua se aproximando.

O acordo entre Moscou e Ancara, em 5 de março de 2020, impediu que Damasco interrompesse o ataque à cidade de Idlib, provocando um congelamento das ações que estavam ocorrendo na última frente ativa da guerra e permitiu à Turquia aumentar sua presença militar na província, garantindo o apaziguamento de todo o noroeste da Síria.

Embora com o número incontável de participantes e interesses que ainda estão em jogo nesta guerra, a possibilidade de novas escaladas está sempre latente, pois, dada a falta de definição de certos pontos do acordo, o cessar-fogo é permanentemente violado.

Apesar do fato de que o acordo de março de 2020 obriga ambos os lados a eliminar as gangues terroristas na área – brigadas “rebeldes” que um dia são apresentadas como parte do Exército Sírio Livre e no outro como uma khatiba do Hayat Tahrir al-Sham (Organização para a Libertação do Levante), HTS ou mais conhecida como frente al-Nusra, um ex-membro da Al-Qaeda – ele permite a ação das forças pró-americanas, juntamente com as ações da entidade sionista, talvez as mais interessadas em que a Síria não encontre a paz.

O objetivo do governo de Vladimir Putin é que Damasco reconquiste o poder naquela província, incentivado pela presença militar americana, que pratica a desculpa de proteger a população local e fundamentalmente seus aliados, os Curdos das Unidades de Proteção Popular (YPG), um grupo armado que se opõe tanto ao Presidente al-Assad quanto ao Tayyip Erdogan. O YPG, ao longo destes anos de guerra gerou uma forte aliança com os Estados Unidos, portanto serve de desculpa para Washington continuar ali em defesa de seus aliados. Apesar de ter sido mencionada durante a administração Trump, em repetidas ocasiões, a retirada das suas tropas da Síria, esta nunca foi realizada, dados os importantes interesses geoestratégicos que representa para Washington manter um pé no norte sírio onde se encontra a maior parte dos recursos naturais do país e sua longa aliança com o Irã.

Por outro lado, Ancara representa uma ameaça letal para os curdos sírios, cujos irmãos na Turquia, há mais de 37 anos e com um custo de mais de 50 mil vidas, vêm travando uma guerra de independência, de modo que vencer este conflito significa para Erdogan, um de seus maiores objetivos políticos.


Quanto tempo falta para o final?

A pergunta é quase impossível de responder, embora a realidade síria na guerra, desde a formação da aliança com Moscou e Teerã, tenha tomado outros caminhos e embora a vitória total ainda possa estar longe, não há dúvida de que sem a presença do Presidente al-Assad, nada seria possível.

Depois de ter permanecido na vanguarda de seu povo durante todo o curso da guerra, houve momentos em que o fim pareceu estar próximo. Nos dias de agosto de 2013, depois de um ataque de falsa bandeira com armas químicas em que mais de dois mil civis morreram no bairro  al-Ghutta de Damasco, o então presidente Barack Obama, ameaçou bombardear abertamente todo o país, o que forçou a intervenção aberta do presidente Putin, para avisar que traria a guerra a um nível de confronto quase direto entre Moscou e Washington, forçando Obama a fazer um recuo histórico bem constrangedor.

O Presidente al-Assad, desde então, tem sido capaz de resistir, junto com o povo e o Exército Árabe Sírio (SAA) aos momentos mais urgentes da guerra, quando seus inimigos, talvez os governos mais poderosos do mundo, Washington, Londres e Paris, continuaram a fornecer armamento e inteligência às centenas de milhares de terroristas, recrutados e pagos pela Arábia Saudita e pelo Qatar, em todas as esquinas do mundo islâmico, da Nigéria às Filipinas, estes que fizeram da crueldade uma marca registrada, humilharam todos os preceitos do Alcorão e obedeceram às melhores técnicas de tortura e extermínio saídos dos laboratórios do Pentágono, da CIA e do Mossad, e que também se voltaram contra eles. Os mujahideen que operaram em Paris, Londres e Barcelona, entre tantas outras cidades ocidentais, também haviam sido forjados na guerra síria.

Durante dez anos, o povo sírio foi martirizado diariamente por não obedecer às diretrizes nem das grandes potências nem dos grandes bancos, o que é praticamente a mesma coisa. As Nações Unidas sempre intervieram contra Damasco, responsabilizando-a por todos os atos de lesa humanidade, enquanto fechou os olhos diante das aberrações perpetradas pelo Ocidente e seus agentes. Não ousou sequer continuar contando o número de mortos, interrompido há cinco anos quando o número, aliás, bem falso, havia ultrapassado 400.000, enquanto há cerca de seis milhões de refugiados em diferentes países vizinhos e europeus e cerca de 10 milhões de pessoas desabrigadas internamente.

Damasco controla mais de setenta por cento do país e suas principais cidades, mesmo que a Al-Qaeda e o Daesh continuem a realizar ataques sangrentos, principalmente contra a população civil.

Além disso, os dez anos de guerra aliados a sanções econômicas e bloqueios também devastaram a economia do país, que ainda não consegue ter acesso aos recursos naturais do norte do país (petróleo e gás) e reorganizar a produção agrícola, principalmente a de trigo. Sua infra-estrutura, quase 60% destruída, está sendo reviabilizada, embora para a reconstrução do país as despesas terão que ser extraordinárias e não devem ser esperadas ajudas nem dos Estados Unidos nem da Europa, que continuam apostando na crise econômica para derrubar o governo de Bashar al-Assad, gerando preocupações entre o povo sírio, que, uma década depois dessa tentativa, com milhares de mortos, milhões de refugiados e desalojados, parece não ter se dado por vencido, muito menos desistido, apesar dos dez anos de ódio.

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Guadi Calvo é escritor e jornalista argentino. Analista internacional especializado em África, Oriente Médio e Ásia Central.

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