Torres de vigilância britânicas interligadas por satélite monitoram o Hezbollah após a derrota do ISIS no Líbano | Elijah J. Magnier

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Por Elijah J. Magnier

Nas fronteiras libanesas-sírias, o Reino Unido propôs e conseguiu a construção de dezenas de torres de vigilância sofisticadas para monitorar qualquer travessia ou movimento de indivíduos e veículos. O pretexto inicial era que estas torres amplamente equipadas serviriam para deter os grupos terroristas Takfiri.

Entretanto, apesar de todos os grupos terem sido afastados das fronteiras, a construção e o plano para aumentar o número de torres continua. Isto revela um objetivo e foco diferentes – acredita-se que seja a linha de abastecimento do Hezbollah libanês. O controle ocidental sobre as fronteiras sírio-libanesas era e ainda é um antigo objetivo israelense datado da guerra de 2006. Entretanto, após esse conflito, o Hezbollah se armou até os dentes atualizando seus mísseis de precisão e se equipando com mísseis supersônicos anti-navio, mísseis de cruzeiro e drones armados, para citar apenas alguns. O Hezbollah está longe de ser pego de surpresa pela presença das torres britânicas e está monitorando aqueles que estão controlando seus movimentos e sua linha de recursos transfronteiriços.

Durante a guerra israelense no Líbano em 2006, Tel Aviv foi surpreendida quando o Hezbollah usou mísseis anti-navio C-802, mísseis TOW (Tubo lançador Opticamente guiado por Fio) fabricados nos EUA e os mísseis Kornet 9M133 anti-tanque guiados a laser fabricados na Rússia. Estes infligiram severos danos à capacidade e aos planos militares israelenses. A marinha israelense foi eliminada nos primeiros dias da guerra após o bombardeio do Hezbollah ao destroyer israelense INS Hanit Saar 5 classe Corvette. A capacidade militar não revelada e avançada do Hezbollah desencadeou um alerta em Israel.

É do conhecimento geral que os países ocidentais oferecem seu total apoio a Israel independentemente de seus líderes belicistas que agarram todas as oportunidades para lançar combates no Oriente Médio e criar bombardeios desproporcionais e devastação na infra-estrutura civil. Após 33 dias de combates, os líderes ocidentais adotaram a resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU para interromper o fluxo de armas para o Hezbollah para proteger e manter a superioridade de Israel em guerras futuras. Foi dada à Alemanha a tarefa de monitorar a costa libanesa para inspecionar cada navio que se dirigisse aos portos libaneses, acreditando (erroneamente) que este procedimento poderia impedir o fornecimento de armas ao Hezbollah.

A Alemanha enviou oito navios e 960 marinheiros da força naval Bundeswehr para monitorar as águas libanesas em nome de Israel. Este destacamento custou à Alemanha mais de 95 milhões de euros em um ano. Em anos posteriores e até 2021, a Alemanha reescalonou o número de suas unidades navais e marinheiros, mas ainda gasta milhões anuais em patrulhar desnecessariamente as águas libanesas. De fato, as unidades navais alemãs contactaram milhares de navios que se dirigiam ao Líbano, mas nunca inspecionaram um único deles ou capturaram qualquer carregamento de armas. Israel está naturalmente feliz por que a Alemanha segue agindo em seu nome. Para Israel e a Europa, se tornou mais do que aparente que o Hezbollah não está utilizando a rota marítima libanesa para reabastecimento, mas tem outros itinerários, via Síria, por exemplo.


Além disso, nenhum país contribuiu financeiramente para apoiar o Exército Libanês a preservar e proteger suas fronteiras com Israel ou deter a violação israelense da soberania libanesa. Em vez disso, o Ocidente aprovou a presença das forças das Nações Unidas (UNIFIL) nas fronteiras libanesas para ajudar Israel a garantir que nenhum obstáculo pudesse representar uma ameaça a qualquer violação israelense do território libanês, como tem acontecido ao longo de décadas. De fato, o objetivo do envio da UNIFIL era ajudar Israel a evitar ataques de retaliação do Líbano, e não o contrário. Além disso, o Exército libanês não pode possuir mísseis antiaéreos ou mísseis anti navio porque eles poderiam e seriam dirigidos contra Israel. Na verdade, ninguém além de Israel está violando a soberania de qualquer país. O Estado sírio nunca invadiu o país vizinho, e sua presença no Líbano foi aprovada pelo Exército da Liga Árabe para pôr fim à guerra civil de 1975-1989.

Quando a guerra síria eclodiu em 2011, o Ocidente – um participante direto na guerra junto com a Arábia Saudita, Qatar e Turquia – acreditava que o Presidente Bashar al-Assad cairia após alguns meses ou um ano ou dois. Os preparativos começaram a cercar o Hezbollah como um passo preventivo após a queda do Presidente Assad. A Síria era e ainda é um membro essencial do “Eixo da Resistência” e vital para a rota de abastecimento do Hezbollah.

O apoio do Ocidente é direcionado ao Exército Libanês para monitorar suas fronteiras com a Síria, embora definitivamente não com Israel, como já vimos. Em 2012, começou o trabalho frenético para o Reino Unido estabelecer um programa de treinamento militar aos Regimentos de Fronteira Terrestre (LBR) nas duas bases aéreas libanesas de Hamat e Rayak no Vale de Bekaa, oferecendo treinamento e apoio de engenharia para equipar o Exército Libanês com: coletes, capacetes, luvas, cintos, kits de primeiros socorros, roupas de camuflagem, óculos de proteção, 100 Land Rovers RWMIL, sistema de comunicações via satélite, comunicações via rádio codificadas, visão térmica e noturna.

A Grã-Bretanha tomou medidas rápidas na esperança de apertar o controle das fronteiras de 360 quilômetros entre Líbia e Síria. O Reino Unido investiu £273 milhões no Líbano para equipar e treinar os LBRs dentro do Exército Libanês. O Reino Unido treinou 11 mil soldados e oficiais libaneses para operações de guerra urbana e 7 mil soldados para proteger e monitorar as fronteiras sírio-libanesas.

Além disso, o Reino Unido forneceu até agora 39 torres de vigilância blindadas SANGARS (cada uma fornecendo uma visibilidade de 360 graus -10 quilômetros de raio) – com uma perspectiva de construir um total de 80 torres, semelhantes às utilizadas na Irlanda do Norte. Além disso, foram estabelecidas 37 bases relacionadas a estas torres, todas ligadas entre si e ao comando e controle central com um sistema de comunicação via satélite. É de conhecimento comum que Israel, o Reino Unido e os EUA têm capacidade suficiente para acessar a comunicação via satélite e outros sistemas de comunicação móvel no Oriente Médio. Além disso, o Líbano e Israel fazem parte do USCENTOM (comando central), onde as forças armadas americanas operam estreitamente com o exército israelense e trocam informações de inteligência, principalmente relacionadas com a segurança nacional de Israel.

O objetivo inicial da construção de torres era, segundo se afirma, observar, identificar, deter e prevenir atores armados ilegais e grupos terroristas como o “Estado Islâmico” (ISIS) ou a al-Qaeda (AQ). Entretanto, após a derrota do ISIS e da AQ, o plano para a construção de mais torres continuou sem parar. Uma fonte do “Eixo da Resistência” em Damasco disse que o plano do Reino Unido ainda está de pé. Neste caso, o objetivo não é mais os grupos Takfiri, então o alvo se tornou o Hezbollah.


O que leva o “Eixo da Resistência” a acreditar que é o alvo é o fato de que as torres de vigilância estejam planejadas para cobrir o tráfego que leva à cidade síria de Homs, incluindo Qusayr, Jusiyah, Qara e Nabaq. Além disso, estas devem cobrir Hirmel, Ras Baalbeck, Labwa, Ras al-Ayin, Arsal e Tfeil. Não há planos de construir torres nas fronteiras norte libanesas de Wadi Khaled e Akkar, onde o verdadeiro contrabando de gasolina e o tráfico de haxixe registram seu nível mais alto! A área não é utilizada pelo Hezbollah e é na verdade considerada muito hostil ao governo sírio do Presidente Assad.

A rota de abastecimento síria representa a principal artéria para a sobrevivência e existência do Hezbollah. Após qualquer guerra, os beligerantes precisam se rearmar e mais tarde se modernizar e atualizar suas armas para estimular o desenvolvimento a fim de manter a dissuasão e equilibrar a ameaça. Isto requer manter o fluxo de suprimentos seguro e ininterrupto.

Em 2013, o Ministro das Relações Exteriores britânico Hugh Robertson visitou o Líbano para supervisionar 12 torres de controle de fronteira e equipá-las com os mais recentes equipamentos eletrônicos e comunicações via satélite. Em 2020, o tenente-general Sir John Lorimer, o oficial militar mais graduado do Reino Unido para o Oriente Médio, visitou o Líbano. O Líbano é o centro das atenções dos EUA e dos aliados de Israel no continente europeu. Além disso, o general americano Kenneth McKenzie, comandante do Comando Central dos EUA (USCENTCOM), acompanhado de oficiais e autoridades, a embaixadora americana no Líbano Dorothy C. Shea e o Adido de Defesa dos EUA, visitaram uma estação de bombeamento de água e energia solar financiada pela USAID no Vale de Bekaa, na fronteira com a Síria. A fonte do “Eixo da Resistência” acredita que o objetivo da Grã-Bretanha, através do apoio Reino Unido-EUA, seja cobrir os pontos de fronteira para revelar as linhas de abastecimento do Hezbollah, esconderijos e o movimento de indivíduos através das fronteiras.

“As torres de vigilância britânicas estão fornecendo o que os drones não podem fornecer e compensam os pontos cegos para Israel”. O “Eixo da Resistência” compreende o propósito dessas torres e o interesse do Reino Unido e dos EUA em apoiar o Exército Libanês sem lhe fornecer nenhuma arma que impeça Israel. O foco nunca está nas fronteiras com Israel, mas nas fronteiras sírias para identificar e fotografar a linha de abastecimento. Além disso, suponha que haja bases de mísseis na área, e que haja uma guerra com Israel. Nesse caso, as torres de vigilância estão bem equipadas para visualizar as posições militares – se houver – e compartilhar informações via satélite com Israel, de boa ou má vontade. Eles estão observando o Hezbollah, e o Hezbollah está os vigiando de perto”, disse a fonte.

Há poucas dúvidas de que estas torres reúnem informações de inteligência e certamente não contra o ISIS ou a Al-Qaeda. Também é importante notar que o Exército Libanês está longe de estar sob controle de EUA e Reino Unido: isso compreende pessoas de todas as classes sociais, cobrindo toda a sociedade libanesa com membros que também apóiam o Hezbollah.

“O dia em que estas torres de vigilância se tornarem uma ameaça crítica, neutralizá-las não será uma tarefa difícil”, disse a fonte.

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Elijah J Magnier é correspondente de guerra veterano e analista de risco político sênior com mais de três décadas de experiência

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