Um novo aniversário do bombardeio saudita do Iêmen | Valeria Rodriguez

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Por Valeria Rodriguez

Em 26 de março de 2015, uma coalizão de países árabes liderada pela Arábia Saudita lançou um devastador bombardeio do Iêmen, apelidado de Operação ‘Tempestade de Decisiva’.

A operação foi inicialmente lançada para trazer de volta o presidente fugitivo do Iêmen Abd Rabbo Mansour Hadi, que era próximo ao governo saudita e havia renunciado seu posto interino como resultado da luta do povo iemenita, do movimento Ansarullah e dos Comitês Populares contra as políticas neoliberais impulsionadas pela Arábia Saudita e contra seus planos de transformar o Iêmen em uma federação de seis regiões.

Os Estados membros do Conselho de Cooperação do Golfo, com exceção de Omã, Egito e Sudão, participaram da invasão saudita do Iêmen.

A Arábia Saudita sempre desempenhou um papel intervencionista no país árabe mais pobre da região, e o considera como seu quintal. Seu principal interesse é o Estreito de Bab al Mandeb.

Como estratégia para alcançar a hegemonia no Iêmen, os sauditas tentaram impor um governo fantoche e reduzir a presença do movimento Ansarullah e dos comitês populares.

Os Estados Unidos e a coalizão

Foi a administração democrata do Prêmio Nobel da Paz Barack Obama que entrou na escalada dos bombardeios ao Iêmen em 2015 com a desculpa do “apoio logístico e de inteligência” à Arábia Saudita.

Na época, os aviões norte-americanos forneciam imagens para que a aviação saudita para selecionasse alvos militares.

Obama alegou que o apoio à Arábia Saudita era para proteger o Iêmen da suposta intervenção iraniana, justificando assim os atentados a bomba contra o movimento Ansurullah, também conhecido como Huthi, e seus aliados. Um pretexto semelhante ao das armas de destruição em massa no Iraque (algo que nunca foi provado).

Com a chegada de Trump ao poder, esta relação com a Arábia Saudita se aprofundou com a venda de armas por US$ 62,8 bilhões e mais apoio militar em bombardeios. Na verdade, Trump o fez apesar da negativa do Congresso, que repetidamente lhe pediu para retirar seu apoio à Arábia Saudita, mesmo quando a conexão do príncipe herdeiro Mohammad Bin Salman com o crime do jornalista saudita Jamal Kashoggi foi provada.

Os crimes da coalizão americana-saudita contra civis iemenitas

Em 25 de janeiro de 2021, o Ministério dos Direitos Humanos do Iêmen divulgou um relatório sobre as últimas estatísticas de crimes cometidos pela coalizão saudita contra o Iêmen, segundo o qual 16.802 civis, incluindo 3.753 crianças, foram mortos como resultado da agressão da coalizão anti-Yemenita durante os últimos seis anos. Além disso, 19.375 civis foram gravemente feridos, incluindo 4.036 crianças. Além disso, mais de 3,2 milhões de pessoas foram desalojadas à força.

Após o cerco brutal do Iêmen, 75.000 pessoas que sofrem de doenças graves não podem viajar para o exterior para tratamento devido ao fechamento do aeroporto de Sanaã. Outros 42.000 pacientes perderam suas vidas devido ao constante bombardeio de instalações de saúde, tais como hospitais, incluindo os centros de atendimento de campo de organizações não governamentais, tais como Médicos Sem Fronteiras.

Ao mesmo tempo, a coalizão saudita violou mais de 1.324 normas e regras internacionais, demonstrando seu desprezo pela vida civil, diante dos olhos fechados das Nações Unidas.

Além disso, o relatório mostra que milhares de iemenitas morreram como resultado da falta de medicamentos no meio da pandemia, inclusive de fome e desnutrição severa. Entre as crianças, o número sobe para 2,6 milhões.

O fracasso saudita

Apesar de seis anos de bombardeios, a Arábia Saudita não consegue sair do atoleiro, nem militarmente nem diplomaticamente.

Recentemente, com a mudança na administração dos EUA, os sauditas reduziram os bombardeios e se veem forçados a parar suas ações momentaneamente sob pressão da administração do novo presidente Joe Biden.

A abordagem dos democratas americanos para resolver a crise iemenita se baseia nos interesses de Washington na Ásia Ocidental. Para ganhar concessões, a Arábia Saudita terá inevitavelmente que abandonar os bombardeios.

Finalmente, a imagem da Arábia Saudita foi ofuscada pela disseminação de imagens de crianças iemenitas e de famílias inteiras desabrigadas, bem como pelos assassinatos e o impacto da pandemia, tudo isso evidenciando a contínua violação dos direitos humanos.

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Valeria Rodríguez é analista internacional e co-apresentadora do programa “Feas, Sucias y Malas” da Rádio Gráfica, de Buenos Aires, Argentina

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