Um novo entendimento sobre o Afeganistão é essencial | Ramzy Baroud

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Por Ramzy Baroud

Durante 20 anos, duas narrativas dominantes moldaram nossa visão sobre a invasão e ocupação ilegais dos EUA no Afeganistão, e nenhuma dessas narrativas aceitaria prontamente o uso de termos como “ilegal”, “invasão” e “ocupação”.

O estabelecimento da intervenção militar dos EUA no Afeganistão, a partir de outubro de 2001, como o início oficial do que foi chamada de “guerra global ao terror”, foi deixado quase inteiramente para os estrategistas do governo dos EUA. O Presidente George W. Bush, o Vice Presidente Dick Cheney, o Secretário de Defesa Donald Rumsfeld e um exército de porta-vozes, “intelectuais” neoconservadores, jornalistas, entre outros, que defenderam a opção militar como forma de livrar o Afeganistão de seus terroristas, tornar o mundo um lugar mais seguro e, como bônus, levar a democracia ao país e libertar suas mulheres oprimidas.

Para essa multidão, a intervenção dos EUA em um país já devastado pela guerra e extremamente empobrecido foi uma causa justa; talvez violenta algumas vezes, mas finalmente humanista.

Outra narrativa, também ocidental, desafiou a abordagem entusiasmada utilizada pelo governo Bush, argumentava que a democracia não pode ser imposta pela força, lembrava a Washington a abordagem multilateral de Bill Clinton à política internacional e advertiu contra o estilo “cortar e fugir” da política externa, seja no Afeganistão, no Iraque ou em qualquer outro lugar.

Embora estas duas narrativas possam parecer contraditórias, em alguns momentos ambas aceitaram a premissa básica de que os EUA eram capazes de ser uma força moral no Afeganistão e em outros lugares. Quer aqueles que se referem a si mesmos como “antiguerra” percebam isto ou não, subscrevem a mesma noção de excepcionalismo americano e de destino manifesto que Washington continua a atribuir a si mesma.

A principal diferença entre estas narrativas é de metodologia e abordagem, e não se os EUA têm o direito de intervir nos assuntos de outro país – seja para “erradicar o terrorismo” ou para supostamente ajudar uma população vítimada que é incapaz de ajudar a si mesma e desesperada por um salvador ocidental.

Entretanto, a humilhante derrota sofrida pelos EUA no Afeganistão deve inspirar uma nova maneira de pensar – uma que desafie todas as narrativas ocidentais, sem exceção, no Afeganistão e em todo o mundo.

Obviamente, os EUA fracassaram no Afeganistão, não apenas militar e politicamente, mas também em termos de construção do Estado e de qualquer outra alternativa. As narrativas americano-ocidentais sobre o Afeganistão também foram um fracasso em si. A grande mídia, que há duas décadas noticiou sobre o país com um palpável senso de urgência moral, agora parece estar confusa. Os “especialistas” norte-americanos estão tão confusos quanto as pessoas comuns com relação à retirada precipitada de Cabul, ao caos sangrento no aeroporto e ao motivo pelo qual os EUA estiveram no Afeganistão em primeiro lugar.

Enquanto isso, os intervencionistas humanistas estão mais preocupados com a “traição” de Washington ao povo afegão, de “deixá-los à sua sorte” como se fossem seres irracionais sem nenhuma força de ação própria ou como se pedissem aos americanos que invadissem seu país ou elegesse generais americanos como seus representantes democráticos.

A propaganda norte-americana/ocidental, que tem afligido nossa compreensão coletiva do Afeganistão nos últimos 20 anos, tem sido tão esmagadora a ponto de ficarmos sem a menor ideia da dinâmica que levou o Talibã a assumir rapidamente o controle do país. Os Talibãs são apresentados na mídia como se fossem totalmente alheios ao sistema socioeconômico do Afeganistão. É por isso que sua vitória final parecia não apenas chocante, mas extremamente confusa também.

Durante duas décadas, o pouco que sabemos sobre o Talibã nos foi comunicado através de análises da mídia ocidental e avaliações da inteligência militar. Com o ponto de vista do Talibã completamente afastado de qualquer discurso político relativo ao Afeganistão, uma narrativa nacional afegã alternativa foi cuidadosamente construída pelos EUA e seus parceiros da OTAN. Isto promoveu os “bons afegãos”, nos disseram; aqueles que se vestem com roupas de estilo ocidental, falam inglês, participam de conferências internacionais e, supostamente, respeitam as mulheres. Estes também foram os afegãos que acolheram a ocupação americana de seu país, pois se beneficiaram muito com a generosidade de Washington.

Se eles representavam verdadeiramente a sociedade afegã, por que seu exército de 300 mil homens largou suas armas e fugiu, juntamente com seu presidente, sem uma batalha importante? E se os 75 mil talibãs mal armados e, às vezes, mal nutridos pareciam representar apenas a si mesmos, por que então conseguiram derrotar inimigos formidáveis em questão de dias?

Não se pode argumentar que um poder militar inferior, como o do Talibã, poderia ter persistido e acabado vencendo uma guerra tão brutal ao longo de muitos anos sem um apoio substancial da população afegã em grandes extensões do país. A maioria dos recrutas talibãs que entraram em Cabul em 15 de agosto eram crianças ou nem mesmo haviam nascido quando os EUA invadiram seu país todos aqueles anos atrás. O que os obrigou a carregar armas, a lutar uma guerra aparentemente insustentável, e a matar e serem mortos? E por que eles não se juntaram ao negócio mais lucrativo de trabalhar para os americanos?

Estamos apenas começando a entender a narrativa do Talibã, pois seus porta-vozes estão lentamente comunicando um discurso político que é quase inteiramente desconhecido para a maioria de nós – um discurso que não nos foi permitido ouvir, interagir ou entender.

Agora que os EUA e seus aliados da OTAN estão deixando o Afeganistão, incapazes de justificar ou mesmo explicar por que sua suposta missão humanitária levou a uma derrota tão embaraçosa, o povo afegão fica com o desafio de tecer sua própria narrativa nacional; uma narrativa que deve transcender o Talibã e seus inimigos para incluir todos os afegãos, independentemente de sua política ou ideologia.

O Afeganistão precisa agora urgentemente de um governo que represente verdadeiramente o povo daquele país. Ele deve assegurar o direito à educação e proteger as minorias e os dissidentes políticos, não para adquirir um aceno de aprovação ocidental, mas porque o povo afegão merece ser respeitado, cuidado e tratado como iguais. Esta é a verdadeira narrativa nacional do Afeganistão que deve ser cultivada fora dos limites da descaracterização ocidental do país e de seu povo.

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Ramzy Baroud é jornalista e editor do The Palestine Chronicle. Autor de cinco livros. Seu último é “These Chains Will Be Broken”: Histórias Palestinas de Luta e Desafio nas Prisões Israelenses” (Clarity Press). Dr. Baroud é pesquisador sênior não-residente no Centro para o Islã e Assuntos Globais (CIGA) e também no Centro Afro-Médio Oriente (AMEC). Seu site www.ramzybaroud.net

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